Metade das maiores cidades do mundo enfrenta níveis críticos de stress hídrico, revela estudo

O stress hídrico ocorre quando a captação de água para consumo público e industrial se aproxima ou ultrapassa a disponibilidade existente. Trata-se de um fenómeno frequentemente associado à má gestão dos recursos hídricos, agravada pelos efeitos das alterações climáticas

Francisco Laranjeira

Metade das 100 maiores cidades do mundo vive atualmente sob elevados níveis de stress hídrico, com 39 delas localizadas em regiões classificadas como de “stress hídrico extremamente alto”. A conclusão resulta de novas análises e mapeamentos divulgados pelo ‘The Guardian’, que alertam para uma pressão crescente sobre os recursos de água doce nas grandes áreas urbanas.

O stress hídrico ocorre quando a captação de água para consumo público e industrial se aproxima ou ultrapassa a disponibilidade existente. Trata-se de um fenómeno frequentemente associado à má gestão dos recursos hídricos, agravada pelos efeitos das alterações climáticas.

Grandes metrópoles sob pressão extrema

O mapeamento, desenvolvido pela ‘Watershed Investigations’ em parceria com o jornal britânico – que pode consultar aqui -, identifica cidades como Pequim, Nova Iorque, Los Angeles, Rio de Janeiro e Deli entre as que enfrentam situações de stress extremo. Londres, Banguecoque e Jacarta surgem num patamar imediatamente abaixo, classificadas como cidades com stress hídrico elevado.

Em paralelo, uma análise independente baseada em dados de satélite da NASA, compilada por cientistas do University College London, avaliou a evolução da humidade ao longo de duas décadas nas 100 maiores cidades do planeta. Os resultados mostram tendências acentuadas de seca em cidades como Chennai, Teerão e Zhengzhou, enquanto Tóquio, Lagos e Kampala registam um aumento significativo da humidade.

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Um planeta cada vez mais desigual no acesso à água

De acordo com os dados, cerca de 1,1 mil milhões de pessoas vivem em grandes áreas metropolitanas situadas em regiões afetadas por seca prolongada. Em contraste, apenas cerca de 96 milhões residem em cidades inseridas em zonas onde se observa um aumento consistente da humidade. A maioria das áreas urbanas com precipitação crescente localiza-se na África subsaariana, com exceções como Tóquio e Santo Domingo, enquanto os centros urbanos com sinais mais fortes de seca concentram-se sobretudo na Ásia, em especial no norte da Índia e no Paquistão.

Apesar da abrangência dos dados, os investigadores sublinham que a resolução dos satélites não permite captar com precisão as dinâmicas locais, o que pode ocultar realidades ainda mais graves à escala urbana.

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Teerão à beira do “dia zero”

Algumas cidades aproximam-se de cenários extremos. Teerão, que enfrenta o sexto ano consecutivo de seca, está perigosamente próxima do chamado “dia zero”, momento em que deixa de haver água disponível para a população. No ano passado, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, admitiu que a capital poderá ter de ser evacuada se a situação persistir. Cidade do Cabo e Chennai já estiveram igualmente perto desse ponto crítico, num contexto em que várias das cidades com maior crescimento demográfico se situam em regiões propensas à escassez de água.

Alerta global da ONU e do Banco Mundial

Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica no University College London, explica que a monitorização do armazenamento total de água a partir do espaço, através do projeto GRACE da NASA, permite identificar que cidades estão a tornar-se mais secas ou mais húmidas, funcionando como um sistema de alerta precoce para a insegurança hídrica.

O alerta é reforçado pelas Nações Unidas, que anunciaram esta semana que o mundo entrou num estado de “falência hídrica”, em que a degradação de alguns recursos se tornou permanente e irreversível. Para Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, a má gestão é frequentemente a principal causa do problema, sendo as alterações climáticas um fator agravante, mas raramente o único.

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Também o Grupo Banco Mundial tem vindo a alertar para a redução acentuada das reservas globais de água doce. Segundo a instituição, o planeta perde cerca de 324 mil milhões de metros cúbicos de água doce por ano, um volume suficiente para satisfazer as necessidades anuais de aproximadamente 280 milhões de pessoas, com impactos em grandes bacias hidrográficas de todos os continentes.

Reino Unido sob pressão crescente

No Reino Unido, as projeções oficiais indicam que, até 2055, Inglaterra poderá necessitar de mais cinco mil milhões de litros de água por dia apenas para o abastecimento público, a que se somam necessidades adicionais da agricultura e da produção de energia. Shamsudduha sublinha que as águas subterrâneas representam um recurso estratégico para aumentar a resiliência face às alterações climáticas, mas alerta que, sem monitorização contínua e melhor gestão, o risco é gerir esse recurso “às cegas”.

Nos últimos meses, partes do sul de Inglaterra registaram interrupções no fornecimento de água, atribuídas a tempestades de inverno, embora os reguladores já tenham manifestado preocupações sérias sobre a segurança do abastecimento. Perante este cenário, o governo britânico publicou um livro branco com propostas para reformar o sistema hídrico, incluindo novas inspeções técnicas à infraestrutura e o reforço dos poderes regulatórios.

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