Metade das crianças entre os 5 e os 11 anos continua por vacinar. Quais as causas para uma maior hesitação dos pais? Especialistas respondem

A vacinação de crianças entre os 5 e 11 anos decorre em Portugal desde o dia 18 de dezembro, mas ainda há muitas dúvidas sobre o processo, por parte de pais e até pediatras.

Simone Silva

A vacinação de crianças entre os 5 e 11 anos decorre em Portugal desde o dia 18 de dezembro, mas ainda há muitas dúvidas sobre o processo, por parte de pais e até pediatras.

Os próprios números são um reflexo disso, uma vez que nos dois fins de semana que já decorreram para o efeito, apenas 50% do universo de crianças elegíveis foi vacinada, o que significa que metade continua por vacinar.

Por esse motivo, a Multinews procurou saber, junto de dois especialistas, quais as principais causas para esta maior hesitação dos pais, bem como, para a maior lentidão do processo face às faixas etárias anteriores.

Manuel Carmo Gomes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), considera normal as dúvidas dos pais, mas está otimista de que vai ser possível recuperar no processo de vacinação.

“Nós sempre soubemos que nestas crianças mais jovens poderia haver uma resistência maior por parte dos pais em compreender todas as vantagens em vacinar as crianças”, afirma.

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O especialista explica que “é um processo mais lento, mas mesmo assim, em dois grandes impulsos já vacinámos 50% das crianças, foi bastante bom, e eu estou convencido de que nas próximas semanas vamos vacinar uma grande percentagem dos que ainda faltam, não todos, mas muitos”.

“Isto por várias razões. Primeiro, já tivemos esta experiência com os jovens dos 12 aos 17 anos, também houve muito ceticismo, muita resistência e neste momento temos 90% destes jovens vacinados”, aponta.

Carmo Gomes sublinha ainda que no caso dos mais pequenos, “criaram-se espaços próprios com divertimentos, e isso também é importante para não se misturar os frascos das vacinas, porque a dose pediátrica é diferente da que é dada aos adultos. Isso também fez com que o processo se atrasasse ligeiramente”, refere.

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“Agora há outro aspeto importante: cada vez mais países estão a vacinar crianças dos 5 aos 11 anos e por isso, os pais e alguns pediatras que podiam ter ainda receios, estão a ver que nestas idades os efeitos secundários são ainda mais raros do que nos adultos, também porque a formulação da vacina é menor e praticamente não tem efeitos adversos”, indica o professor.

Desta forma, conclui, “até os pediatras que tinham mais reservas vão percebendo que é aconselhável vacinar estas crianças, porque com esta nova variante, temos de comparar o risco de infeção com o risco da vacinação, e eu garanto que o risco de ter covid é muito maior do que de ser vacinado”.

Opinião diferente tem Pedro Esteves, professor de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO).

“Ainda há muitas dúvidas(no processo), não se percebe. Foi dito às pessoas que se fosse possível vacinar os adolescentes o contágio estaria controlado, mas temos 90% dessas pessoas vacinadas e o maior número de contágios desde o início da pandemia”, aponta.

Isto significa, acrescenta, “que de facto a vacina não está a conseguir evitar o contágio. Se vamos vacinar as crianças para evitar o contágio e isso não está a ser feito, as pessoas não percebem o porquê de vacinar”, refere.

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“Se a juntar a isto, também não há um problema grave (devido à Covid-19) para as crianças, os pais não percebem porque devem vaciná-las”, sublinha ainda o investigador.

Pedro Esteves não acredita que se possa fazer muito para mudar estas mentalidades. “Não há nada a fazer, o número de casos é o maior de sempre com 90% das pessoas vacinadas, o que significa que a vacina não está a evitar o contágio”, insiste.

“Depois, as infeções nas crianças são muito pouco graves, praticamente não têm sintomas, e não há testes em larga escala que provem que a vacina não poderá ser prejudicial para as crianças e isso cria uma enorme incerteza”, conclui.

Recorde-se que as crianças dos 5 aos 11 anos começaram a ser vacinadas contra a Covid-19 no fim de semana de 18 e 19 de dezembro. A partir de 6 de janeiro foram vacinadas crianças entre os 9 e os 7 anos.

No passado fim de semana, 15 e 16 de janeiro, foi a vez das crianças entre os 6 e os 7 anos, enquanto a 22 e 23 de janeiro, no próximo, serão vacinadas as crianças de 5 anos.

Entre 5 de fevereiro e 13 de março serão administradas as segundas doses, altura em que ficará o esquema vacinal completo para esta faixa etária, segundo estimativas do Governo.

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