Meta em tribunal: investigação secreta expõe falhas graves na proteção de menores a predadores sexuais no Facebook

Caso começou quando a mãe de uma menina de 11 anos denunciou mensagens impróprias enviadas por um homem através do Facebook

Francisco Laranjeira

Uma investigação secreta no Novo México (EUA) expôs falhas graves nos sistemas de segurança do Facebook e do Instagram, colocando a Meta no centro de um julgamento que pode redefinir a responsabilidade das redes sociais na proteção de menores.

O caso começou quando a mãe de uma menina de 11 anos denunciou mensagens impróprias enviadas por um homem através do Facebook. O episódio levou as autoridades estaduais a desencadearem uma operação que rapidamente evoluiu para algo maior: um processo judicial contra a própria empresa.

Investigadores disfarçados criaram um perfil falso de uma adolescente e contactaram Christopher Reynolds, de 47 anos, que passou a enviar mensagens explícitas e a sugerir encontros. Foi detido em abril de 2024 e acusado de aliciamento de menor. Contudo, o foco das autoridades não se limitou ao suspeito. O gabinete do procurador-geral do Novo México, Raúl Torrez, sustenta que a Meta terá permitido, de forma consciente, que as suas plataformas se tornassem um espaço fértil para predadores.

Durante o processo, a Meta revelou que Reynolds já tinha tido uma conta desativada em 2021 por ser criminoso sexual registado — categoria proibida de manter perfis nas suas redes. Ainda assim, segundo documentos judiciais, o homem operava outras 15 contas. Dois outros suspeitos investigados conseguiram igualmente manter presença ativa nas plataformas, apesar de violações reiteradas das regras relativas a nudez e atividade sexual.

De acordo com os investigadores, estes casos demonstram falhas estruturais nos mecanismos de controlo da empresa, incluindo a capacidade de utilizadores banidos criarem novas contas em poucos minutos. Numa das operações encobertas, os investigadores conseguiram reabrir um perfil com o mesmo nome e data de nascimento em apenas 5 minutos, alterando apenas o nome de utilizador e o número de telefone.

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A ação judicial, com mais de 250 páginas e referências a conteúdos perturbadores, acusa a Meta de ter permitido que o Facebook e o Instagram funcionassem como “um mercado para predadores à procura de crianças”. O Novo México exige sanções financeiras e uma ordem judicial que obrigue a empresa a reforçar as medidas de proteção.

A Meta rejeita as acusações, sublinhando que utiliza tecnologia avançada para detetar e remover conteúdos de exploração infantil e que colabora com as autoridades. A empresa afirma que impede adultos de iniciar conversas com adolescentes com quem não tenham ligação e que implementou “Contas para Adolescentes” com restrições automáticas de contacto. Acrescenta ainda que denunciou os três homens ao Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas após as detenções se tornarem públicas.

O julgamento insere-se numa vaga mais ampla de processos contra a Meta e outras gigantes tecnológicas, que enfrentam acusações relacionadas com dependência digital, saúde mental juvenil e segurança online. Especialistas apontam que estes casos podem ter um impacto semelhante aos litígios históricos contra as indústrias do tabaco e dos opioides.

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Arturo Béjar, ex-engenheiro da Meta, testemunhou em tribunal que os algoritmos da plataforma são altamente eficazes a conectar pessoas com interesses semelhantes — incluindo, segundo afirmou, adultos cujo “interesse são meninas”. Para os advogados do Estado, essa capacidade de recomendação, aliada a mecanismos de moderação considerados insuficientes, cria riscos sistémicos.

Especialistas em direito e proteção infantil defendem que o ambiente digital continua a carecer de salvaguardas equivalentes às existentes no mundo físico. O desfecho do julgamento poderá determinar até que ponto as redes sociais serão obrigadas a rever profundamente os seus modelos de funcionamento.

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