Merz decide hoje de Alemanha permanece no maior programa militar europeu

O chanceler alemão, Friedrich Merz, decide esta terça-feira se a Alemanha permanece no Future Combat Air System (FCAS), o maior programa militar europeu do século, avaliado em cerca de 100 mil milhões de euros.

Pedro Zagacho Gonçalves

O chanceler alemão, Friedrich Merz, decide esta terça-feira se a Alemanha permanece no Future Combat Air System (FCAS), o maior programa militar europeu do século, avaliado em cerca de 100 mil milhões de euros. A decisão surge após o fracasso das últimas tentativas de mediação franco-alemãs para desbloquear o impasse industrial entre a Dassault e a Airbus.

Segundo avançou o jornal económico Handelsblatt no sábado, os dois mediadores nomeados por França e Alemanha no final de março entregaram relatórios separados, sem que tenha sido alcançado qualquer acordo entre as duas empresas. O desfecho deixa o projeto numa situação crítica.

A decisão de Merz antecede a cimeira informal marcada para quinta-feira, dia 23, no Chipre, com o Presidente francês, Emmanuel Macron, considerada o prazo político final para definir o futuro do programa.

O diário alemão resume o estado do processo de forma clara: o projeto “será provavelmente enterrado na próxima semana, a menos que Merz mude novamente de posição sob pressão de Macron”.

O bloqueio industrial arrasta-se há meses. A fase 2 do FCAS, que deveria ter lançado o demonstrador de voo do novo caça europeu de sexta geração, está paralisada desde janeiro de 2025.

Continue a ler após a publicidade

No centro do conflito está a disputa pelo controlo industrial e pela liderança tecnológica do programa. A Dassault, fabricante do Rafale, negoceia a partir de uma posição reforçada por sucessos comerciais recentes.

A 12 de fevereiro, o Conselho de Aquisições de Defesa da Índia aprovou a compra de 114 aviões Rafale adicionais no âmbito do programa MRFA — 18 prontos a voar e 96 produzidos localmente — por cerca de 39 mil milhões de dólares. Somando os 36 já em serviço e os 26 Rafale M navais contratados em 2025, Nova Deli comprometeu-se com mais de 170 aeronaves.

Embora o acordo permaneça bloqueado devido a divergências sobre o acesso ao código-fonte, a decisão política indiana está tomada — e não passou pelo Eurofighter.

Continue a ler após a publicidade

A Dassault terminou 2025 com 220 Rafale por entregar, tendo fornecido 26 aeronaves ao longo do ano. A empresa trabalha para aumentar a produção para 35 unidades anuais até 2030. Já o Eurofighter, apoiado por quatro países parceiros, produz atualmente entre 12 e 14 aviões por ano.

Cerca de 50% das vendas do Rafale são internacionais, enquanto no caso do Typhoon esse valor não atinge 23%. O fabricante francês do caça atualmente operacional na Europa surge, assim, como o único com margem comercial suficiente para impor condições no desenvolvimento da próxima geração.

Espanha investe 700 milhões e mantém perfil discreto
Espanha, que suporta 33% do financiamento do FCAS, equivalente a cerca de um terço do programa estimado em 100 mil milhões de euros, não participa na reunião decisiva entre Merz e Macron.

Madrid tem mantido uma postura prudente, defendendo o modelo original de três parceiros em pé de igualdade.

A Indra coordena o programa nacional desde 2022, lidera os pilares dos sensores e da combat cloud e comprometeu-se com mais de mil empregos qualificados.

Continue a ler após a publicidade

Em novembro de 2025, o Conselho de Ministros espanhol aprovou o programa SIAGEN, com uma dotação superior a 700 milhões de euros, com o objetivo de proteger as capacidades nacionais face às “dinâmicas complexas” entre os outros dois parceiros. Em setembro, já tinha sido concedido um empréstimo adicional de 350 milhões de euros à Indra e à Airbus Espanha para avançar com estudos de definição.

O presidente executivo da Indra, José Vicente de los Mozos, sintetizou a posição espanhola em novembro, em Bruxelas: “Se a Espanha contribui com 33% para o FCAS, tem de receber 33% do benefício.”

No entanto, o desfecho não depende de Madrid, mas sim da decisão que Merz comunicar a Macron na quinta-feira.

Plano alternativo alemão ganha força
Berlim tem vindo a explorar há meses um cenário alternativo que prevê o desenvolvimento de dois caças distintos no âmbito do FCAS — um francês e outro hispano-alemão — mantendo comuns apenas a combat cloud e os drones associados ao sistema.

A solução é apoiada pelo sindicato IG Metall e pela associação patronal BDLI. A fabricante sueca Saab já deixou em aberto a possibilidade de integrar um consórcio alternativo com Madrid e Berlim.

Este cenário recordaria o modelo do Eurofighter, com Espanha e Alemanha alinhadas, mas implicaria abdicar de capacidades estratégicas que França considera essenciais: operações embarcadas num futuro porta-aviões, integração de armamento nuclear e acesso a um mercado de exportação robusto como o que atualmente sustenta o Rafale.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.