A eclosão da guerra no Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz marcaram o último trimestre, pressionando os mercados globais e elevando os riscos para a economia mundial. Ainda assim, a reação dos investidores tem sido mais moderada do que o esperado, segundo a análise de Giordano Lombardo, CEO da Plenisfer Investments, parte da Generali Investments.
O conflito levou a uma subida significativa dos preços da energia, com o preço da gasolina nos Estados Unidos a ultrapassar os 4 dólares por galão, ao mesmo tempo que as taxas de juro no crédito à habitação a 30 anos atingiram os 7%. A pressão estendeu-se também aos fertilizantes, com impacto direto nos preços dos alimentos, e aumentou o risco de disrupções nas cadeias de abastecimento globais.
Apesar deste contexto, os mercados financeiros registaram movimentos relativamente contidos. As bolsas recuaram, as yields das obrigações subiram e, de forma menos habitual em períodos de crise, o ouro caiu cerca de 10% em março. Segundo Lombardo, esta descida poderá estar ligada à necessidade de liquidez por parte de operadores do Médio Oriente afetados pelos danos nas infraestruturas energéticas.
No mercado obrigacionista, as taxas de curto prazo mantiveram-se estáveis, enquanto as yields das obrigações a 10 anos subiram cerca de 30 pontos base, refletindo expectativas de inflação persistente. Já nas ações, a correção foi considerada moderada, com o prémio de risco a aumentar entre 40 e 50 pontos base. Os spreads das obrigações corporativas também alargaram, mas de forma limitada.
O setor energético destacou-se como o principal refúgio, sendo atualmente o mais rentável nos mercados acionistas globais, tanto no curto como no longo prazo. Este segmento foi, aliás, o único a permitir alguma diversificação face às perdas registadas em ações e obrigações.
Dois cenários em aberto
A incerteza quanto à evolução do conflito mantém-se elevada, com duas trajetórias possíveis a delinearem-se. Num cenário otimista, a guerra poderá terminar rapidamente, permitindo a recuperação das infraestruturas e a eventual redução dos preços do petróleo, caso as sanções ao Irão sejam levantadas.
Por outro lado, um cenário mais negativo aponta para um conflito prolongado, com danos duradouros nas infraestruturas e nas cadeias de abastecimento, preços da energia elevados e impacto significativo no comércio global.
Independentemente do desfecho, Lombardo sublinha que o conflito já alterou o equilíbrio global, com efeitos que vão além do mercado petrolífero. Fluxos de capital provenientes de países produtores de petróleo poderão ser redirecionados, privilegiando investimentos em infraestruturas energéticas e segurança, em detrimento de projetos ligados ao consumo de luxo ou inovação.
Risco de estagflação no horizonte
Um dos principais riscos identificados é o de estagflação — combinação de crescimento económico fraco com inflação elevada. A subida dos preços da energia funciona como uma “taxa global”, pressionando a atividade económica, ao mesmo tempo que fatores como tarifas comerciais, restrições à imigração e choques energéticos poderão prolongar o ciclo inflacionista.
Ainda assim, há forças que podem contrariar esta tendência, nomeadamente ganhos de produtividade associados à adoção crescente de inteligência artificial. Nos Estados Unidos, o crescimento dos salários desacelerou para mínimos de cinco anos, enquanto os ganhos de produtividade têm ajudado a conter os custos laborais.
Neste contexto, os bancos centrais deverão manter uma postura prudente, aguardando sinais mais claros de desaceleração económica antes de ajustarem a política monetária.
A par destes fatores, persistem desafios estruturais, como políticas fiscais expansionistas nas principais economias, o aumento dos défices nos EUA e a crescente procura por energia e matérias-primas, impulsionada também pelo reforço do investimento em defesa e segurança energética.













