Os mercados financeiros preparam-se para reagir a um novo choque geopolítico depois de os Estados Unidos e Israel terem lançado uma ofensiva aérea contra alvos militares iranianos no sábado, 28 de fevereiro, numa operação que marcou uma escalada significativa no Médio Oriente. A morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, entretanto confirmada, aumenta a incerteza quanto à estabilidade interna do país e eleva os riscos de contágio regional.
Segundo a análise de Christian Schulz, economista-chefe da Allianz Global Investors, os mercados enfrentam “um choque significativo, mas ainda não desestabilizador”. A reação inicial deverá traduzir-se numa reavaliação dos chamados riscos extremos (“tail risks”), com subida do petróleo, queda dos ativos de risco e valorização de ativos considerados refúgio.
Antes dos ataques, a AllianzGI trabalhava com quatro cenários possíveis para a evolução das tensões entre Washington e Teerão: medidas não militares, intervenção militar sem mudança de regime, mudança de regime ou guerra regional alargada. O cenário atual situa-se entre a intervenção militar e uma potencial mudança de regime, mas com risco real de escalada regional.
A morte de Khamenei aumenta a probabilidade de transição política, algo que, paradoxalmente, pode ser visto de forma positiva pelos mercados a longo prazo, caso reduza o risco de conflito regional e abra caminho a um Irão mais moderado. Ainda assim, o processo poderá ser marcado por instabilidade prolongada, com riscos de guerra civil ou colapso económico.
Petróleo: prémio de risco volta a subir
Mesmo após o ajustamento recente do prémio de risco, a AllianzGI antecipa nova subida dos preços do petróleo, à medida que os mercados eliminam cenários mais benignos.
Um corte direto nas exportações iranianas teria impacto limitado, uma vez que estas já estão sujeitas a sanções, mas os envios para a China — principal destino do crude iraniano — poderão ser afetados. Mais relevante será a possibilidade de disrupções associadas a instabilidade interna, sabotagem ou agravamento das tensões regionais.
O encerramento prolongado do Estreito de Ormuz permanece improvável no imediato, mas constitui um risco extremo relevante, dada a importância estratégica deste ponto de passagem para os fluxos globais de petróleo e gás natural liquefeito (GNL).
No curto prazo, o cenário mais provável aponta para maior volatilidade, mas não necessariamente para níveis de preços compatíveis com uma guerra regional alargada.
Gás com reação contida, mas riscos aumentam
Ao contrário do petróleo, o mercado global de gás deverá reagir de forma mais moderada numa fase inicial, uma vez que a oferta de GNL não foi diretamente afetada. Ainda assim, a retórica iraniana sobre “resistência regional” e a incerteza quanto ao posicionamento de potências como Rússia ou China podem levar os investidores a incorporar maior risco nas rotas de abastecimento.
Os riscos de picos de preços no GNL aumentam, embora o cenário central permaneça relativamente contido.
Fuga para ativos de refúgio e pressão nas bolsas
Fora do setor energético, o sentimento de risco deverá deteriorar-se, sobretudo se se intensificarem os contra-ataques iranianos, surgirem protestos internos ou Teerão sinalizar intenção de alargar o conflito.
Neste contexto, ativos como o franco suíço e o ouro poderão beneficiar de uma procura acrescida. Historicamente, as obrigações do Tesouro norte-americano e o dólar também tenderiam a valorizar, embora o papel da moeda norte-americana como ativo-refúgio esteja hoje menos linear do que em crises anteriores.
As bolsas poderão registar uma correção acentuada, ainda que potencialmente de curta duração, à semelhança do observado noutros episódios de ataques militares cirúrgicos por parte dos EUA. O aperto das condições financeiras afetaria de forma desproporcional economias mais dependentes dos mercados de capitais, como a norte-americana.
Bancos centrais enfrentam novo dilema
A subida dos preços da energia complica o enquadramento da política monetária. Um aumento de 5% a 10% no petróleo pode acrescentar entre 0,1 e 0,3 pontos percentuais à inflação total nos EUA e na Europa quase de imediato.
A Reserva Federal norte-americana poderá adotar um tom mais acomodatício se as condições financeiras se agravarem significativamente. Contudo, com a inflação subjacente ainda próxima dos 3% e divergências no seio do comité de política monetária, um corte de taxas exigiria sinais mais claros de deterioração do crescimento e do mercado de trabalho.
Já o Banco Central Europeu e o Banco de Inglaterra poderão manter uma postura prudente, sobretudo se os preços do gás acompanharem a subida do petróleo. O Banco Nacional Suíço poderá ser forçado a intervir caso o franco se valorize excessivamente face ao euro.
Na Ásia, os bancos centrais deverão enfrentar maior volatilidade cambial, mas sem alterações imediatas na política monetária.







