Perante uma nova tempestade nos mercados financeiros, provocada por um conjunto de tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano Donald Trump, regressa ao centro do debate um mecanismo de emergência criado para travar colapsos bolsistas: os disjuntores, também conhecidos pela designação anglo-saxónica circuit breakers.
Estes disjuntores são interrupções automáticas e temporárias das negociações nas bolsas, acionadas quando um índice regista quedas abruptas num curto espaço de tempo. O objetivo é conter o pânico e evitar que uma espiral de vendas em cadeia cause danos ainda maiores, ao permitir um momento de pausa para que os investidores assimilem a situação.
A discussão sobre estes mecanismos reacendeu-se após Trump ter revelado, no passado dia 2 de abril, uma nova política de tarifas alargadas, com impacto imediato nos mercados. O índice norte-americano S&P 500 afundou mais de 10% em apenas duas sessões, anulando mais de 6 biliões de dólares em capitalização bolsista. A instabilidade manteve-se esta segunda-feira, com oscilações violentas provocadas por notícias relacionadas com a política comercial dos EUA.
Um mecanismo criado após o ‘crash’ de 1987
Os disjuntores foram implementados pelas autoridades reguladoras norte-americanas após o colapso bolsista de 1987, conhecido como a “Segunda-feira Negra”. Pretendem ser uma válvula de segurança, limitando a propagação do pânico entre investidores.
No caso do S&P 500, o mecanismo segue uma escala de três níveis:
Nível 1: ativa-se quando o índice cai 7% face ao fecho do dia anterior, suspendendo as negociações por 15 minutos, exceto se ocorrer depois das 15h25 (hora de Nova Iorque), altura em que o mercado já não é interrompido.
Nível 2: entra em ação com uma queda de 13%, também com uma paragem de 15 minutos, seguindo as mesmas regras.
Nível 3: aciona-se com uma descida de 20%, interrompendo todas as negociações até ao final da sessão.
Durante a crise pandémica de 2020, os disjuntores foram acionados quatro vezes ao atingir o limiar dos 7%, à medida que os mercados reagiam às incertezas económicas provocadas pela Covid-19.
“Crise autoinfligida”
A mais recente vaga de quedas nos mercados fez ressurgir os receios de uma nova crise comercial e desencadeou alertas sobre a possível ativação dos disjuntores.
Para Jay Woods, estratega-chefe global da Freedom Capital Markets, esta é uma crise evitável. “Quando olhamos para a história dos mercados e outras crises, nenhuma foi tão evitável e autoinfligida como esta”, escreveu numa nota publicada esta segunda-feira. E recordou que, desde a pandemia, não se registavam quedas suficientemente acentuadas para ativar o disjuntor dos 7%.
O impacto das novas tarifas fez-se sentir também nas bolsas asiáticas. Esta segunda-feira, o índice Nikkei 225, do Japão, registou uma queda superior a 8%, ativando um disjuntor local. Também na Coreia do Sul, o Kospi 200, e ações individuais cotadas em Taiwan viram as suas negociações suspensas por mecanismos semelhantes.
Estes sistemas existem em diversas praças financeiras do mundo, ajustando-se às realidades locais, mas com um princípio comum: interromper temporariamente o mercado em situações de stress extremo, dando tempo aos investidores para reagirem de forma racional e informada.
Os investidores estão agora particularmente atentos à evolução da política económica e comercial norte-americana, receando que uma nova guerra comercial possa prejudicar o crescimento económico global.




