Mercados de capitais entre resiliência e turbulência: o que esperar nos próximos meses?

Os mercados de capitais enfrentam um início de segundo trimestre marcado por turbulência, depois de um começo de ano relativamente calmo. A Allianz Global Investors (AllianzGI) alerta que as tensões geopolíticas no Médio Oriente estão a atingir uma economia global que já mostrava sinais de perda de momentum, embora os motores estruturais de crescimento permaneçam intactos.

André Manuel Mendes

Os mercados de capitais enfrentam um início de segundo trimestre marcado por turbulência, depois de um começo de ano relativamente calmo. A Allianz Global Investors (AllianzGI) alerta que as tensões geopolíticas no Médio Oriente estão a atingir uma economia global que já mostrava sinais de perda de momentum, embora os motores estruturais de crescimento permaneçam intactos.

Segundo Hans-Jörg Naumer, diretor de Global Capital Markets & Thematic Research da AllianzGI, a situação atual é complexa. “Muitos indicadores económicos continuam robustos, mas o aumento dos preços da energia cria incerteza. Regiões como a Europa e partes da Ásia, altamente dependentes de importações energéticas, podem enfrentar pressões inflacionárias e impactos no crescimento”, explica.

O especialista sublinha que a economia global mantém-se resiliente, mas com crescimento mais vulnerável a choques externos. “O mundo ainda pode lidar com preços do petróleo entre 90 e 110 dólares por barril, mas os níveis atuais são superiores. Se se mantiverem por um período prolongado, enfrentaremos desafios significativos”, alerta Naumer.

A AllianzGI destaca que a intensidade energética – quantidade de energia necessária para produzir uma unidade de PIB – diminuiu significativamente desde os anos 1960, com países como os EUA e Alemanha a produzirem muito mais por unidade de energia consumida, um fator que pode mitigar parcialmente o impacto dos preços elevados da energia.

Quanto aos mercados de capitais, a análise histórica sugere que choques geopolíticos provocam inicialmente quedas de preços, mas a estabilização tende a ocorrer ao fim de alguns meses, desde que não se desencadeiem recessões nem aumentos extremos de preços energéticos. A atenção está agora voltada para a evolução dos preços da energia, potenciais rupturas nas cadeias de abastecimento e o impacto sobre o sentimento de empresas e consumidores, especialmente em relação ao conflito no Irão e ao estreito de Ormuz, vital para 20% do fornecimento global de petróleo.

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No plano estrutural, a AllianzGI sublinha a crescente transição para uma “geo-economia”, em que instrumentos económicos são usados para fins políticos, e um aumento dos gastos públicos, especialmente em defesa e infraestruturas, que funcionam como suporte à economia mas pressionam a dívida no longo prazo. Este cenário cria um dilema para a política monetária, dividida entre controlar a inflação e sustentar o crescimento.

Em termos de estratégias de investimento, a AllianzGI mantém otimismo nas ações globais, embora com cautela no curto prazo, defendendo uma abordagem flexível e a importância da liquidez para responder rapidamente a movimentos de mercado. Mercados europeus e asiáticos surgem como mais atrativos face aos EUA, enquanto a inteligência artificial e a eletrificação continuam a criar oportunidades em setores como energia, redes elétricas e semicondutores. Nos mercados de obrigações, a inflação e as incertezas monetárias poderão levar a curvas de rendimento mais inclinadas, tornando títulos públicos europeus e gilts britânicos relativamente atraentes. Por fim, os investimentos alternativos, incluindo commodities e ouro, mantêm-se como instrumentos de estabilidade em tempos de tensão geopolítica.

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