Os mercados de capitais enfrentam um início de segundo trimestre marcado por turbulência, depois de um começo de ano relativamente calmo. A Allianz Global Investors (AllianzGI) alerta que as tensões geopolíticas no Médio Oriente estão a atingir uma economia global que já mostrava sinais de perda de momentum, embora os motores estruturais de crescimento permaneçam intactos.
Segundo Hans-Jörg Naumer, diretor de Global Capital Markets & Thematic Research da AllianzGI, a situação atual é complexa. “Muitos indicadores económicos continuam robustos, mas o aumento dos preços da energia cria incerteza. Regiões como a Europa e partes da Ásia, altamente dependentes de importações energéticas, podem enfrentar pressões inflacionárias e impactos no crescimento”, explica.
O especialista sublinha que a economia global mantém-se resiliente, mas com crescimento mais vulnerável a choques externos. “O mundo ainda pode lidar com preços do petróleo entre 90 e 110 dólares por barril, mas os níveis atuais são superiores. Se se mantiverem por um período prolongado, enfrentaremos desafios significativos”, alerta Naumer.
A AllianzGI destaca que a intensidade energética – quantidade de energia necessária para produzir uma unidade de PIB – diminuiu significativamente desde os anos 1960, com países como os EUA e Alemanha a produzirem muito mais por unidade de energia consumida, um fator que pode mitigar parcialmente o impacto dos preços elevados da energia.
Quanto aos mercados de capitais, a análise histórica sugere que choques geopolíticos provocam inicialmente quedas de preços, mas a estabilização tende a ocorrer ao fim de alguns meses, desde que não se desencadeiem recessões nem aumentos extremos de preços energéticos. A atenção está agora voltada para a evolução dos preços da energia, potenciais rupturas nas cadeias de abastecimento e o impacto sobre o sentimento de empresas e consumidores, especialmente em relação ao conflito no Irão e ao estreito de Ormuz, vital para 20% do fornecimento global de petróleo.
No plano estrutural, a AllianzGI sublinha a crescente transição para uma “geo-economia”, em que instrumentos económicos são usados para fins políticos, e um aumento dos gastos públicos, especialmente em defesa e infraestruturas, que funcionam como suporte à economia mas pressionam a dívida no longo prazo. Este cenário cria um dilema para a política monetária, dividida entre controlar a inflação e sustentar o crescimento.
Em termos de estratégias de investimento, a AllianzGI mantém otimismo nas ações globais, embora com cautela no curto prazo, defendendo uma abordagem flexível e a importância da liquidez para responder rapidamente a movimentos de mercado. Mercados europeus e asiáticos surgem como mais atrativos face aos EUA, enquanto a inteligência artificial e a eletrificação continuam a criar oportunidades em setores como energia, redes elétricas e semicondutores. Nos mercados de obrigações, a inflação e as incertezas monetárias poderão levar a curvas de rendimento mais inclinadas, tornando títulos públicos europeus e gilts britânicos relativamente atraentes. Por fim, os investimentos alternativos, incluindo commodities e ouro, mantêm-se como instrumentos de estabilidade em tempos de tensão geopolítica.





