Mercado imobiliário chinês enfrenta mudança geracional, afirma economista

 A crise imobiliária na China provocou uma mudança geracional que pode travar a recuperação do mercado, com os jovens a perderem interesse na compra de habitação e o imobiliário a deixar de ser visto como investimento, defendeu um economista.

Executive Digest com Lusa

A crise imobiliária na China provocou uma mudança geracional que pode travar a recuperação do mercado, com os jovens a perderem interesse na compra de habitação e o imobiliário a deixar de ser visto como investimento, defendeu um economista.

Em entrevista com a Agência Lusa, o economista Zhu Ning, professor de Finanças do Shanghai Advanced Institute of Finance, afirmou que os recentes sinais de estabilização em cidades como Pequim, Xangai ou Shenzhen não devem ser interpretados como o início de uma recuperação sustentada.

“Há alguma estabilização e recuperação em determinadas zonas de certas cidades, mas não acho que isso deva ser interpretado de forma desproporcionada”, explicou.

Autor do livro “China’s Guaranteed Bubble”, publicado em 2016, Zhu considerou que os problemas do setor resultam de fatores estruturais, incluindo excesso de oferta, envelhecimento demográfico e uma alteração profunda das atitudes das gerações mais jovens.

“Existe um enorme excesso de oferta e uma séria má afetação de recursos”, descreveu.

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Segundo o economista, muitos chineses adquiriram habitações nas últimas duas décadas não para viver, mas porque o imobiliário era visto como o investimento mais rentável e seguro.

“Muitas pessoas compravam apartamentos não para viver neles, mas porque os apartamentos eram a melhor e mais rápida forma de ganhar dinheiro”, explicou.

Zhu argumentou que a procura genuína por habitação é significativamente menor do que se supunha durante o auge do mercado.

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“Se retirarmos a procura especulativa, não existe assim tanta procura real”, afirmou.

Em 2020, o Governo chinês introduziu novas restrições ao endividamento do setor, impondo um limite de 70% na relação entre passivos e ativos das promotoras imobiliárias, bem como um teto de 100% da dívida líquida sobre o património líquido. As medidas levaram ao colapso de grandes construtoras, como a Evergrande, cujo passivo se aproxima dos 330 mil milhões de dólares (285 mil milhões de euros).

Segundo um estudo da Asia Society Policy Institute, desde o pico em 2021, o investimento imobiliário caiu quase para metade.

Dados divulgados hoje pelo Gabinete Nacional de Estatísticas da China revelaram também que os preços das habitações novas no país caíram em maio pelo 36.º mês consecutivo.

O economista considerou que o colapso dos preços nos últimos anos abalou a confiança dos investidores num dos pilares tradicionais da acumulação de riqueza na China.

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“As pessoas estão a perder a fé na habitação como um bom investimento”, disse.

A mudança é particularmente visível entre os jovens.

“Os jovens realmente não têm muito interesse em possuir apartamentos”, afirmou Zhu, acrescentando que muitos pertencem à geração dos filhos únicos e herdarão património imobiliário dos pais e avós.

Além disso, ao contrário das gerações anteriores, não viveram a forte valorização dos imóveis e associam a habitação sobretudo a custos elevados.

“Tudo o que viram foi que a habitação pode ser muito cara ou fazer perder muito dinheiro”, realçou.

O economista considerou que esta transformação está a pôr fim ao ciclo que sustentou durante duas décadas a valorização do imobiliário chinês.

“O medo de ficar de fora desapareceu”, afirmou.

A correção do mercado imobiliário teve também impacto no consumo interno, um dos principais objetivos das autoridades chinesas para sustentar o crescimento económico.

Zhu considerou que a desaceleração do consumo resulta de uma combinação entre a perda de riqueza associada à habitação, a deterioração das expectativas económicas e mudanças mais profundas nos padrões de comportamento da população.

“Há uma mudança sísmica nas expectativas”, resumiu.

Apesar dos avanços da China em setores como inteligência artificial, semicondutores, veículos elétricos e energias limpas, o economista não acredita que estes consigam substituir o papel desempenhado pelo imobiliário na economia chinesa.

Segundo Zhu, os novos setores tecnológicos representam atualmente entre 1% e 2% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o imobiliário chegou a representar cerca de 25% da economia chinesa no seu auge.

“Em termos de dimensão, está longe do que a habitação representou para a economia chinesa”, afirmou.

O académico rejeitou ainda comparações simplistas entre a situação atual da China e o Japão pós-rebentamento da bolha imobiliária no início dos anos 1990.

“É um problema estrutural e de longo prazo, mas não acredito que a China vá repetir o que aconteceu ao Japão”, afirmou.

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