Menos de um ano após demissão, ex-secretário de estado da Economia trabalha agora em empresa da área que tutelou

Cilínio, que deixou o Governo em 2023, encontra-se agora a atuar numa empresa privada que presta precisamente serviços de consultoria no acesso a fundos comunitários, fusões e aquisições, e financiamento de projetos de investimento, de acordo com as informações disponíveis no site da Craftgest.

Revista de Imprensa

Pedro Cilínio, antigo secretário de Estado da Economia no governo de António Costa, está agora a exercer funções numa empresa que opera na área dos fundos europeus, um setor que tutelou enquanto governante. Menos de um ano após ter apresentado a sua demissão do cargo, Cilínio está a trabalhar na Craftgest Consulting, uma empresa de consultoria especializada em candidaturas a fundos comunitários, incluindo o Compete 2020, um programa operacional temático de competitividade e internacionalização que foi da sua responsabilidade enquanto estava no Governo.

Cilínio, que deixou o Governo em 2023, encontra-se agora a atuar numa empresa privada que presta precisamente serviços de consultoria no acesso a fundos comunitários, fusões e aquisições, e financiamento de projetos de investimento, de acordo com as informações disponíveis no site da Craftgest. Esta situação levanta questões sobre o cumprimento da lei de combate às chamadas “portas giratórias” entre o setor público e o privado, especialmente quando envolve áreas tuteladas por antigos governantes.

Confrontado com a sua ligação à Craftgest Consulting, Pedro Cilínio defendeu-se afirmando que não teve qualquer contacto com a empresa enquanto ocupava o cargo de secretário de Estado, nem durante o período em que esteve no IAPMEI, o Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação, tanto antes como depois de ter deixado o Governo. “Eu não tive nenhum contacto com esta empresa no IAPMEI e também enquanto fui governante”, declarou, citado pelo Correio da Manhã.

Para além disso, o ex-secretário de Estado sublinhou que, antes de aceitar a posição na Craftgest, avaliou cuidadosamente se haveria algum conflito de interesse ou impedimento legal que o impedisse de ingressar na empresa. “Antes de entrar, avaliei se havia algum impedimento ou conflito de interesses e concluí que não há nenhum impedimento”, afirmou. Questionado diretamente sobre se, enquanto governante, realizou algum ato relacionado com a Craftgest, Cilínio foi claro: “Não pratiquei nenhum ato. Esta empresa é bastante recente.”

Cilínio também explicou que as suas funções atuais na empresa estão mais focadas na área de aquisições e fusões de empresas, e não diretamente nos fundos comunitários, uma tentativa de afastar as suspeitas de qualquer tipo de conflito com a sua anterior função de secretário de Estado.

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A legislação que regula o exercício de funções em empresas privadas por antigos governantes é clara: a Lei 25/2024, de 20 de fevereiro, impõe um período de três anos, conhecido como “período de nojo”, durante o qual ex-governantes estão impedidos de trabalhar em empresas que tenham sido alvo de privatização ou que tenham beneficiado de incentivos financeiros ou fiscais sob a sua tutela.

Esta legislação visa evitar que ex-responsáveis políticos utilizem os seus conhecimentos e contactos privilegiados em benefício de interesses privados, prevenindo assim possíveis situações de conflitos de interesse. O artigo 10.º da referida lei proíbe, durante esse período, que os ex-governantes assumam cargos em empresas que tenham sido direta ou indiretamente influenciadas por decisões tomadas durante o seu mandato.

Caso se verifique uma violação desta lei, os antigos titulares de cargos políticos podem ser impedidos de exercer funções políticas e cargos públicos entre três e cinco anos. A legislação foi reforçada com o objetivo de aumentar a transparência e a ética no exercício de funções públicas.

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Este caso de Pedro Cilínio não é o primeiro a levantar questões sobre a transição de ex-governantes para o setor privado. No final de 2023, a ex-secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, esteve envolvida numa polémica semelhante ao aceitar uma posição na The Fladgate Partnership, a empresa responsável pelo World of Wine (WOW), à qual tinha concedido o estatuto definitivo de utilidade turística enquanto governante. Face às críticas e à controvérsia pública, Rita Marques acabou por renunciar ao convite, citando a intenção de evitar qualquer suspeita de conflito de interesses.

Estes episódios têm reacendido o debate sobre a necessidade de uma regulamentação mais rígida e eficaz no combate às “portas giratórias”, para garantir que os interesses públicos não sejam comprometidos por decisões tomadas em prol de interesses privados.

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