Meio milhão de quilómetros sem ligar à tomada: o caso que mostra como não usar um híbrido plug-in

Mitsubishi Outlander PHEV é um dos modelos mais conhecidos desta categoria e construiu reputação de robustez mecânica

Automonitor

Um proprietário de um Mitsubishi Outlander PHEV percorreu mais de 500 mil quilómetros com recargas mínimas ou inexistentes, num caso invulgar divulgado pela ‘L’Automobile Magazine’ a partir de um teste da revista holandesa ‘Autoweek’. A história é extrema, mas ajuda a explicar uma das maiores contradições dos híbridos plug-in: a tecnologia pode reduzir consumos e emissões, mas depende quase sempre de um detalhe simples — o condutor tem de carregar o carro.

O Mitsubishi Outlander PHEV é um dos modelos mais conhecidos desta categoria e construiu reputação de robustez mecânica. Mas o caso analisado pela ‘Autoweek’ chama a atenção não pela resistência do SUV, mas pelo uso que lhe foi dado. O proprietário admitiu que praticamente nunca carregava o veículo e chegou mesmo a explicar que, no início, nem sabia que tinha comprado um híbrido com bateria recarregável.

“Fui atraído principalmente pela aparência e pelo conforto. Não entendo muito de carros, pois não sou um entusiasta”, disse o condutor, citado pela publicação. O problema é que um híbrido plug-in foi concebido precisamente para ser carregado com frequência, de preferência em casa, de modo a maximizar a utilização elétrica e reduzir o consumo de combustível.

O resultado desta utilização ficou visível no estado da bateria. O teste de saúde indicou apenas 64%, um valor que coloca a bateria numa fase avançada de desgaste, agravada pela quilometragem elevada e pelo carregamento insuficiente. A ‘L’Automobile Magazine’ sublinha que o SUV poderá mesmo deixar de funcionar se a bateria descarregar totalmente.

O proprietário admitiu que chegou a tentar carregar em postos públicos, mas desistiu devido aos custos. Ainda assim, os fabricantes têm insistido que a utilização correta de um híbrido plug-in passa pelo carregamento regular, sobretudo em casa, onde o processo tende a ser mais previsível e económico.

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O caso ilustra uma discussão mais ampla que tem acompanhado os PHEV na Europa. Estes modelos prometem consumos baixos nos testes de homologação, mas os valores reais podem ser muito superiores quando os condutores não os carregam. Ao contrário de um escândalo como o ‘dieselgate’, em que a responsabilidade recaía sobre os fabricantes, neste caso a discrepância resulta muitas vezes da diferença entre a utilização prevista e a utilização real.

A União Europeia passou a acompanhar mais de perto estes consumos com a obrigatoriedade do OBFCM, o sistema de monitorização do consumo de combustível a bordo, nos veículos novos a partir de 1 de janeiro de 2023. O Outlander em causa, por ser anterior a essa obrigação, não entra nessas estatísticas, mas mostra bem o tipo de comportamento que pode distorcer a imagem dos híbridos plug-in.

Os críticos destes modelos argumentam que, na prática, muitos PHEV emitem mais CO2 do que o anunciado e podem ser piores do que alguns veículos exclusivamente a combustão quando circulam quase sempre sem carga elétrica. O problema é particularmente evidente em frotas empresariais, onde a escolha destes modelos foi muitas vezes motivada por vantagens fiscais, sem garantir que fossem carregados no dia a dia.

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Ainda assim, a conclusão não é que todos os híbridos plug-in sejam inúteis. Usados corretamente, com carregamentos frequentes e deslocações curtas feitas em modo elétrico, podem reduzir de forma significativa o consumo de combustível. O ponto fraco, como sugere o caso deste Outlander, nem sempre está na tecnologia: muitas vezes está entre o volante e o banco do condutor.

A discussão ganha nova atualidade com a chegada de veículos elétricos com extensor de autonomia, uma solução que vários fabricantes, sobretudo chineses, têm promovido como alternativa aos PHEV tradicionais. Mas, na prática, a lógica de utilização continua próxima: há um motor a combustão, há uma bateria e há uma tomada. Se o condutor não carregar o carro, o benefício elétrico volta a desaparecer.

O episódio dos 500 mil quilómetros sem carregar mostra, por isso, a diferença entre comprar tecnologia e usá-la corretamente. Um híbrido plug-in pode ser uma ponte útil para a mobilidade elétrica, mas só cumpre essa promessa se o cabo de carregamento não ficar esquecido na bagageira.

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