Os dados estatísticos do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), mostram que os maiores incêndios em Portugal continental estão concentrados em três anos: 2003, 2017 e agora 2025. Desde 2000, foram registados 37 fogos com mais de 10 mil hectares de área ardida, sendo que nos períodos com informação mais detalhada, a principal causa identificada é o fogo posto.
Segundo análise do Observador, entre 2011 e 2020, foram contabilizados 17 mega-incêndios, oito deles com origem em incêndios intencionais. O vandalismo e queimadas ilegais surgem como explicações mais comuns, mas também foram identificadas outras causas como reacendimentos, fenómenos naturais (raios) e acidentes. O incêndio de Pedrógão Grande, em junho de 2017, teve origem numa descarga elétrica, tal como o da Lousã em outubro do mesmo ano. Já em Tavira, em 2012, as chamas deflagraram devido à projeção de partículas de sobrantes em combustão junto a um parque eólico.
O ano de 2017 permanece como o mais trágico, com 560 mil hectares queimados, 12 fogos com mais de 10 mil hectares e 109 vítimas mortais. Nesse ano, o fogo posto esteve por trás de alguns dos maiores desastres, como os dois incêndios da Sertã, que juntos devastaram mais de 60 mil hectares, e o de Alvaiázere, que consumiu quase 23 mil hectares. Também os grandes fogos da Figueira da Foz, Vouzela e Seia em outubro de 2017 foram atribuídos a incêndios intencionais.
Um relatório independente sobre esse “outubro negro” concluiu que 40% dos fogos analisados tiveram origem intencional. O documento sublinhou a dificuldade em compreender ou antecipar este tipo de ignições, uma vez que os motivos raramente são conhecidos, exceto em casos de captura e confissão dos responsáveis. Já em 2020, o incêndio de Proença-a-Nova, que devastou quase 15 mil hectares, foi igualmente atribuído a fogo posto, confirmando a prevalência deste fator nos maiores episódios.
Este padrão repete-se em 2025, que já é o quarto pior ano do século em área ardida. Só em agosto, o país enfrentou dois dos maiores incêndios de sempre: o de Arganil, com mais de 64 mil hectares, e o de Trancoso, com 49.324 hectares. Até 23 de agosto, já tinham sido registados seis mega-incêndios com mais de 10 mil hectares e 25 fogos acima dos mil hectares. Quase 250 mil hectares foram consumidos pelas chamas, dos quais 114 mil correspondem a povoamentos florestais.
A concentração destes anos críticos não é por acaso. Segundo o ICNF, os grandes incêndios surgem em contextos de muitas ignições simultâneas e condições climatéricas extremas, como ondas de calor (2003), secas prolongadas (2017) ou a combinação destes fatores com vento forte, como acontece em 2025. Estes cenários obrigam à dispersão dos meios de combate, dificultam o controlo das ocorrências e prolongam o tempo de vida dos incêndios.
Uma análise do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, com base nos mapas do European Forest Information System (EFFIS), mostra que os cinco maiores incêndios de 2025 destruíram 72,4 mil hectares de floresta, sendo o pinheiro-bravo a espécie mais afetada. A média de área ardida por fogo este ano é já a mais alta da última década, com 36,7 hectares por ocorrência, superando o valor de 2017.




