O ex-presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança do país, Dmitry Medvedev, afirmou esta quarta-feira que a União Europeia (UE) se transformou num inimigo declarado da Rússia e representa agora uma ameaça direta à sua segurança nacional. Em declarações publicadas na sua conta oficial no Telegram, Medvedev declarou que Moscovo se opõe firmemente à entrada da Ucrânia na UE, alertando para o risco de consequências graves.
“Bruxelas é hoje um verdadeiro inimigo da Rússia. Na sua forma atual e distorcida, a União Europeia não é menos uma ameaça para nós do que a Aliança do Atlântico Norte”, escreveu Medvedev, num ataque feroz ao bloco europeu. Segundo o antigo presidente russo, a UE deixou de ser um projeto económico centrado na paz para se tornar “uma organização politizada, globalista e fervorosamente russófoba”, que ambiciona, nas suas palavras, uma “vingança contra a Rússia”.
A posição assumida por Medvedev representa uma inversão significativa face à retórica oficial do Kremlin em anos anteriores. Em junho de 2022, o presidente Vladimir Putin declarou que Moscovo não tinha “nada contra” a eventual adesão da Ucrânia à União Europeia, e em fevereiro deste ano o Kremlin reafirmou que essa era uma decisão soberana do Estado ucraniano.
Contudo, Medvedev sustenta agora que essa narrativa não se aplica mais: “A UE, repleta de armas… é uma ameaça direta à Rússia. É exatamente assim que ela deve ser tratada. Pelo menos até que mude a sua abordagem em relação a nós”, defendeu.
Segundo o político russo, já não é legítimo afirmar que “a Ucrânia deve ser livre para aderir a qualquer coisa que quiser” para além da NATO. Na sua opinião, a adesão da Ucrânia à UE constituiria uma provocação grave contra a Rússia: “A chamada ideia da Ucrânia na UE é um perigo para o nosso país.”
A entrada da Ucrânia e o “sonho europeu”
A Ucrânia apresentou formalmente o seu pedido de adesão à União Europeia pouco depois da invasão russa em fevereiro de 2022. Em dezembro desse ano, o Conselho Europeu concedeu a Kiev o estatuto de país candidato. Desde então, o processo tem avançado lentamente, com Bruxelas a reiterar a necessidade de reformas estruturais profundas antes de qualquer alargamento.
Medvedev, por sua vez, acredita que essa ambição deve ser travada. Segundo o antigo chefe de Estado, a ameaça pode ser “completada” de duas formas: “a) ou a própria UE compreenderá que não precisa do ‘quasi-Estado’ de Kiev, b) ou, o que seria certamente mais preferível, simplesmente não haverá ninguém para aderir à UE…”, insinuando a possível destruição ou desintegração da Ucrânia.
Apesar do tom hostil, Medvedev admitiu que a cooperação bilateral entre Moscovo e alguns Estados-membros da União Europeia poderá continuar. Sem mencionar nomes, é provável que se referisse à Hungria e à Eslováquia, países da Europa Central que têm adotado posturas mais conciliadoras em relação ao Kremlin desde o início da guerra.
As declarações de Medvedev surgem num contexto de crescente tensão entre a Rússia e o Ocidente, num momento em que Bruxelas discute novas iniciativas de defesa comum e reforço militar, e numa altura em que se aproxima o debate sobre uma eventual expansão da UE.
Com a retórica a escalar e os canais diplomáticos cada vez mais fragilizados, os comentários de Medvedev sublinham o aprofundamento da hostilidade entre Moscovo e a União Europeia — e deixam claro que a possível entrada da Ucrânia no bloco será, para o Kremlin, interpretada como uma linha vermelha.














