A ambição de alargar a União Europeia a novos Estados-membros, incluindo a Ucrânia, está a enfrentar resistências crescentes dentro do próprio bloco, num contexto marcado pelo receio de reações populistas, riscos eleitorais internos e divisões estratégicas entre capitais europeias.
De acordo com o Politico, que cita nove diplomatas e responsáveis europeus, o receio de alimentar forças populistas, a perspetiva de referendos nacionais potencialmente explosivos e a experiência acumulada com a Hungria desde a sua adesão em 2004 estão a contribuir para uma relutância generalizada em várias capitais quanto à abertura formal do debate sobre o alargamento. Desde a entrada da Croácia, em 2013, nenhum novo país aderiu à União.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem sido uma das principais impulsionadoras do processo de alargamento, defendendo uma União mais vasta que inclua a Ucrânia. Contudo, a inclusão do tema na agenda de uma cimeira europeia prevista para este mês em Nicósia, no Chipre, tornou-se improvável, sinalizando a ambivalência de vários líderes quanto à oportunidade política de avançar.
O ministro delegado francês para os Assuntos Europeus, Benjamin Haddad, afirmou que “o alargamento deve manter-se exigente e baseado no mérito para garantir o seu sucesso e credibilidade”, sublinhando a necessidade de respeitar critérios rigorosos.
Receio de reação eleitoral
Segundo diplomatas envolvidos no processo, o principal receio prende-se com o potencial custo político interno para os líderes que coloquem a adesão de novos países no centro do debate nacional. A evocação do chamado “canalizador polaco” — expressão que marcou o debate prévio à adesão da Polónia em 2004, quando se temia que mão-de-obra mais barata substituísse trabalhadores da Europa Ocidental — é apontada como exemplo do tipo de retórica que poderá ressurgir.
Um diplomata de um país de média dimensão alertou que “os mesmos argumentos semi-populistas e semi-xenófobos que ouvimos sobre os polacos são suscetíveis de surgir em relação aos ucranianos e a qualquer outro candidato”, acrescentando: “Quem são estas pessoas? O que vão fazer no nosso clube? Vêm tirar os nossos empregos?”
Em França, a questão é particularmente sensível, uma vez que a legislação nacional exige a realização de referendo para admitir novos Estados-membros. Uma eventual consulta sobre a Ucrânia poderá influenciar a campanha presidencial de 2027, onde as sondagens indicam que Jordan Bardella, líder do partido União Nacional, poderá vencer a primeira volta contra o candidato de centro-direita Edouard Philippe.
Mas a França não está isolada. Diplomatas referem que Alemanha, Países Baixos e Itália defendem que o processo, descrito como “baseado no mérito”, deve ser respeitado sem exceções por razões geopolíticas, ainda que reconheçam a pressão enfrentada por países como a Ucrânia e a Moldávia.
Um diplomata sénior de um grande país europeu declarou: “Claro que não queremos enfraquecer [o Presidente ucraniano] Zelenskyy… mas a larga maioria dos Estados-membros não tem apetite para este debate neste momento.”
O precedente húngaro e o risco de novos vetos
A recente derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria renovou expectativas de que Budapeste possa suavizar a sua oposição à adesão da Ucrânia. Contudo, o vencedor das eleições, Péter Magyar, afirmou numa conferência de imprensa que não pretende “acelerar” o processo de adesão de Kiev.
A experiência com a Hungria é frequentemente citada como exemplo das dificuldades associadas ao alargamento. Desde a sua adesão em 2004, Budapeste enfrentou acusações reiteradas de restrições democráticas e manteve posições consideradas obstrucionistas, nomeadamente bloqueando apoios europeus à Ucrânia e mantendo proximidade com a Rússia.
Este historial alimenta receios quanto à entrada de novos Estados que possam exercer poder de veto. A Comissão Europeia tem defendido a necessidade de “imunizar” o processo de alargamento contra situações semelhantes, por exemplo limitando temporariamente os direitos de veto de novos membros após a adesão.
Na sequência da derrota de Orbán, von der Leyen manifestou-se favorável ao fim da regra da unanimidade na União, que atualmente permite a qualquer Estado bloquear o processo de adesão de novos membros.
Montenegro e Ucrânia enfrentam bloqueios
Mesmo Montenegro, considerado o candidato mais avançado no processo de adesão, enfrenta obstáculos. Apesar de ter concluído praticamente todas as etapas técnicas, os Estados-membros ainda não deram luz verde para iniciar a redação do tratado de adesão. “Ainda está em negociações”, indicou um diplomata europeu.
Três responsáveis montenegrinos, sob anonimato, manifestaram frustração com a falta de progressos, apontando a França como possível entrave — acusação que Paris rejeita, defendendo a necessidade de um debate mais amplo sobre o futuro do alargamento.
Para a Ucrânia, a adesão à União é vista como uma garantia de segurança face a futuras agressões russas. Um eventual acordo de paz poderá incluir a perspetiva de adesão já em 2027 como incentivo político interno. No entanto, em março, vários embaixadores europeus rejeitaram uma abordagem acelerada durante um jantar informal, travando um calendário mais ambicioso.
Países como Suécia e Dinamarca continuam a pressionar para que as negociações possam estar concluídas até ao final do próximo ano. Contudo, iniciar a fase de elaboração do tratado exige aprovação dos grandes Estados-membros — um cenário que, segundo um alto responsável europeu, ainda não está próximo: “Ainda não estamos lá.”




