Os huthis do Iémen assumiram o controlo de uma ilha-chave no estreito de Bab el-Mandeb, anunciou hoje uma fonte governamental, confirmando o domínio dos rebeldes pró-Irão da passagem estratégica que liga a Europa à Ásia.
Com a guerra no Médio Oriente e o bloqueio iraniano do estreito de Ormuz, outra via estratégica, a importância de Bab el-Mandeb aumentou para a navegação marítima internacional.
O avanço dos huthis em direção ao estreito no mar Vermelho e os ataques norte-americanos e iranianos nas águas do golfo Pérsico fizeram disparar os preços do petróleo nos últimos dias.
O barril de Brent, referência para a Europa, ultrapassou na quinta-feira os 100 dólares e mantinha-se hoje de manhã em torno dos 106 dólares.
“Barcos com combatentes huthis armados chegaram à ilha de Mayun [também conhecida como Perim] após a retirada das forças governamentais” na quinta-feira, disse a fonte governamental iemenita à agência francesa AFP.
A ilha divide o estreito em dois corredores marítimos.
“Os huthis concluíram a tomada de controlo da zona de Bab el-Mandeb e da ilha de Mayun”, acrescentou a mesma fonte, que falou à AFP na condição de não ser identificada.
Uma testemunha disse à agência de notícias francesa que homens armados se estavam a desdobrar “ao longo da costa de Bab el-Mandeb em veículos militares”.
Os petroleiros e navios comerciais oriundos da Ásia utilizam o estreito de Bab el-Mandeb para aceder ao mar Vermelho, ao canal do Suez e ao Mediterrâneo, fazendo o percurso inverso em direção ao oceano Índico.
Em caso de bloqueio, a única alternativa, muito mais longa e dispendiosa, é contornar África pelo cabo da Boa Esperança.
Os huthis já tinham tomado na quinta-feira o controlo da cidade de Moka, no mar Vermelho, no âmbito da ofensiva que lançaram na semana passada.
Testemunhas relataram ter visto combatentes a entrar na cidade portuária, situada a 70 quilómetros a norte do estreito, com palavras de ordem contra os Estados Unidos e Israel, inimigos declarados de Teerão.
Em comunicado, o comandante das forças governamentais do Iémen que controlavam Moka, Tarek Saleh, disse tratar-se de uma ofensiva “planeada e apoiada pelo Irão”.
A mesma fonte anunciou que os rebeldes também tomaram a ilha de Zuqar, a norte de Mayun.
Para tentar travar o avanço, a Arábia Saudita, país vizinho e aliado do Governo iemenita, realizou dezenas de ataques aéreos desde quarta-feira “com caças F-15 e Typhoon”, disseram os rebeldes.
Os huthis controlavam grande parte do norte do Iémen, incluindo a capital, Sana, e a cidade portuária de Hodeida, a cerca de 200 quilómetros a norte de Moka, mas não dispunham de posições com acesso direto a Bab el-Mandeb.
Após anos de acalmia, o Iémen voltou a mergulhar na guerra em julho, arrastado pelo conflito regional desencadeado no final de fevereiro pela ofensiva norte-americana e israelita contra o Irão.
Na sequência da guerra, os huthis anunciaram um bloqueio marítimo à Arábia Saudita, o maior exportador mundial de crude.
O estreito de Bab el-Mandeb tinha-se tornado uma rota alternativa vital para a Arábia Saudita desde o fecho do estreito de Ormuz
O grupo xiita visou igualmente navios petroleiros e infraestruturas do reino saudita, incluindo uma refinaria.
Os confrontos da última semana causaram centenas de mortos em ambos os lados, maioritariamente combatentes, e cerca de 20.000 deslocados, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações.
Os rebeldes lançaram ainda um ataque de grande escala contra a Arábia Saudita, disparando na quarta-feira vários mísseis balísticos e drones contra cidades no sul do país vizinho.
A situação motivou uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU na quinta-feira.
O enviado especial das Nações Unidas para o Iémen, Hans Grundberg, apelou ao envolvimento ativo” dos membros do conselho”para afastar o país daquele que pode ser o precipício para um conflito ainda mais perigoso”.














