O setor português do material elétrico cresceu quase 13% em 2025, desempenho que superou largamente a evolução da economia nacional e confirma o papel cada vez mais estratégico desta indústria na transição energética e digital do país.
Segundo o mais recente estudo da AGEFE – Associação Portuguesa da Indústria Eletrodigital –, o mercado interno ultrapassou os 1,4 mil milhões de euros, as exportações superaram os 855 milhões e o emprego continuou a crescer, refletindo a dinâmica de um setor cada vez mais associado à inovação, à eficiência energética e à modernização das infraestruturas.
Em entrevista à Executive Digest, Daniel Ribeiro, diretor-geral da AGEFE, analisa os fatores que impulsionaram este crescimento, os desafios que persistem e as oportunidades que poderão marcar a evolução do setor nos próximos anos.
De acordo com o estudo de mercado apresentado em Ílhavo, o sector do Material Elétrico cresceu quase 13% e ultrapassou os 1,41 mil milhões de euros no mercado interno em 2025. Este ritmo reflete um pico temporário associado aos fundos da transição energética ou é um patamar para manter a longo prazo?
Os números são, de facto, expressivos: o mercado interno fechou 2025 em 1 410,7 milhões de euros, com um crescimento de 12,7%, claramente acima do crescimento da economia portuguesa. Mesmo com o cuidado de referir que estamos a falar de crescimento nominal, ainda que descontemos a evolução dos preços, o crescimento real foi consistentemente positivo, como o estudo sublinha. Há de facto intensificação da procura em resultado da crescente eletrificação da economia, em todos os seus domínios, desde a crescente digitalização dos edifícios e da vida em sociedade, que é necessariamente elétrica, eletrodigital, aos investimentos nos centros de dados para IA, à mobilidade elétrica, à produção solar e eólica, à domótica e automatização de processos industriais… tudo isto, ao que se junta uma acentuada dinâmica na construção e remodelação de edifícios, tanto no terciário como residencial, requer infraestruturas mais robustas e mais sofisticadas e soluções mais complexas e com maior valor acrescentado.
O que os dados nos mostram com clareza é que há categorias estruturalmente ligadas à modernização da economia a puxar pelo mercado: a Distribuição de Energia cresceu 19,5%, os Cabos e Condutores 13,7%, e a Intercomunicação, Segurança e Domótica 21,9%. Não ignoramos que os fundos europeus podem ter contribuído para uma aceleração em dado momento, mas estas são áreas cuja procura não se esgota com um ciclo de fundos.
Certo é que a dinâmica que a transição energética e transição digital induzem na eletrificação e nos demais sectores da economia, permite antever continuidade no crescimento. A nossa expectativa é que parte do ritmo atual se mantenha, mas seria precipitado afirmar hoje que os 13% se irão repetir de forma linear nos próximos anos.
As exportações subiram 11,5% (mais de 855 milhões de euros) num período de forte abrandamento industrial na Europa. Como é que as empresas portuguesas estão a conseguir contrariar a crise europeia e ganhar quota de mercado?
As exportações cresceram em 2025 a um ritmo de 11,5%. É um desempenho assinalável, mas que por si só não nos permite concluir por ganhos ou perdas de quotas de mercado, face sobretudo à crescente interpenetração das economias e à globalização do comércio.
Certo é que o estudo nos mostra que os principais destinos das exportações deste sector são tanto os mercados mais desenvolvidos da Europa, entre os quais se destacam Espanha, França e Bélgica, como mercados dos Países de língua oficial portuguesa, com Angola, Moçambique e Cabo Verde à cabeça.
É este caráter dual que importa assinalar e que espelha bem a centralidade deste sector e de Portugal no comércio internacional. Se, por um lado, se confirma a atualidade e sofisticação de portefólio de várias das empresas exportadoras que potencia a sua integração em cadeias europeias, por outro lado tem-se desenvolvido um posicionamento inteligente, sobretudo por parte de várias empresas distribuidoras grossistas, que aproveita a língua e cultura portuguesas, a que juntam qualidade na oferta, para ganhar posição no abastecimento dos principais países de língua oficial portuguesa.
Os números mostram que a internacionalização deixou de ser um exercício de algumas empresas para passar a ser uma característica estrutural do sector.
Com o emprego a crescer 4,6% no setor, o relatório aponta para um rejuvenescimento e aumento de qualificações. Numa altura em que o país sofre com a fuga de cérebros, qual tem sido o vosso argumento para fixar estes jovens?
Os dados do estudo são, de facto, animadores. O emprego no sector cresceu 4,6%, atingindo 7 098 trabalhadores na amostra. E quando comparamos a evolução entre 2023 e 2025, há três tendências claras: empregados mais jovens, empregados com maiores qualificações e mais empregados do sexo feminino, que já representam 29% do total. Olhando para a estrutura etária, 25,8% dos trabalhadores têm até 34 anos, e nas qualificações, 30,5% têm ensino superior e 46,9% ensino secundário ou pós-secundário. São indicadores que mostram um sector em transformação.
Este crescimento do emprego traduz afinal o crescimento do mercado e da relevância deste sector como elemento essencial e infraestruturante da economia. Embora o estudo não documente as políticas específicas de retenção de talento que cada empresa estará a adotar, certo é que não me parecem ser fatores menores a modernização das empresas e da sua gestão, bem como a perceção sólida da relevância do sector e da atualidade tecnológica dos seus produtos e serviços.
Que barreiras — fiscais ou regulatórias — é que o Governo precisa de levantar urgentemente para que as empresas associadas da AGEFE possam acelerar ainda mais a eletrificação da economia?
Devo dizer que este estudo é um retrato quantitativo do mercado e não inclui análise das barreiras fiscais ou regulatórias do sector. No entanto, essa é uma matéria que tem merecido grande atenção da nossa parte. Limito-me aqui a três áreas de intervenção que temos sugerido:
- Existência de um quadro fiscal e de incentivos para a dupla transição e valorização do trabalho qualificado: – um regime integrado que combine estabilidade fiscal com incentivos diretos e à adoção de soluções eletrodigitais (eficiência energética, eletrificação, digitalização, cibersegurança), que reduza custos estruturais e valorize o capital humano qualificado;
- Simplificação de processos de licenciamento e implementação de certificação que promova e acelere a execução: – Estabelecer tramitação simplificada e prazos vinculativos para retrofit energético, smart-buildings, smart-grid e infraestruturas digitais; – Desacoplar os regimes contratuais das empreitadas técnicas da empreitada geral de construção civil.
- Evolução de um quadro de contratação pública pelo menor preço para adjudicação com base em critérios de desempenho com avaliação do Custo do Ciclo de Vida e requisitos técnicos e de qualidade mínimos nos cadernos de encargos, alinhados com diretivas europeias.
Quais são as vossas previsões para 2026? Acredita que o sector vai conseguir manter este ritmo de crescimento ou antecipa um abrandamento devido à conjuntura económica?
O estudo que apresentámos não inclui previsões numéricas para 2026. No entanto, há razões para um otimismo prudente. Em resposta ao Barómetro da Indústria Eletrodigital que efetuamos, as empresas manifestam apreensão quanto ao contexto geopolítico e aos correspondentes riscos logísticos, de abastecimento e de custos, mas, ao mesmo tempo, não se revelam pessimistas e manifestam na sua larga maioria a expetativa de que o crescimento da economia nacional alinhará pela projeções oficiais quanto à evolução do PIB, estimando ainda que o sector venha a ter este ano um desempenho superior, ou seja melhor do que a média da economia nacional.





