Marques Mendes recusa explicar 709 mil euros ganhos na Abreu Advogados em dois anos

Luís Marques Mendes, de 68 anos, candidato à Presidência da República com o apoio dos partidos do Governo, recusa esclarecer como ganhou 709 mil euros líquidos nos últimos dois anos enquanto “consultor externo” da Abreu Advogados.

Revista de Imprensa

Luís Marques Mendes, de 68 anos, candidato à Presidência da República com o apoio dos partidos do Governo, recusa esclarecer como ganhou 709 mil euros líquidos nos últimos dois anos enquanto “consultor externo” da Abreu Advogados. Em causa estão €413.247,58 recebidos em 2023 e €296.309,37 em 2024, valores que o próprio não explica quanto à natureza concreta do trabalho desenvolvido, aos clientes angariados ou aos contactos institucionais realizados, apesar de sucessivas perguntas sobre sectores, países e eventuais diligências junto de membros do Governo.

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A revista Sábado confrontou o candidato com insistência sobre a origem exata dos honorários e sobre possíveis conflitos de interesses, sem obter respostas substantivas. Através da assessoria, Marques Mendes limitou-se a dizer que “são questões a que só a Abreu Advogados pode responder, se o entender fazer”, enquanto a sociedade de advogados afirmou genericamente que não comenta vencimentos nem matérias cobertas por segredo profissional, acrescentando apenas que disponibiliza informação “objetiva e transparente” no seu site.

Especialistas ouvidos pela publicação explicam que um consultor externo, sobretudo com forte exposição pública e rede de contactos, é normalmente pago para angariar trabalho e “abrir portas” — desde reuniões com CCDR, autarcas ou governantes até pareceres necessários a projetos de investimento — recebendo, em regra, uma percentagem da faturação. Três advogados de outras firmas consideram que 709 mil euros em dois anos é um patamar mais comum entre sócios seniores das maiores sociedades do país e que, no caso de Marques Mendes, só se justifica pelo desbloqueio de grandes clientes, estatuto que recusou quando lhe foi proposto.

Também permanece sem esclarecimento a lista de clientes da empresa familiar LS2MM, entretanto dissolvida devido à candidatura, apesar de uma promessa pública de divulgação. Ainda assim, documentos consultados pela Sábado identificam um cliente: o grupo de construção civil liderado por Alberto Couto Alves. Marques Mendes confirmou contratos de consultoria não jurídica, primeiro celebrado em 2020 por quatro anos e depois renovado por um ano, ambos no valor de cinco mil euros mensais mais IVA, explicando tratar-se de “análises sobre a situação nacional e internacional, na perspetiva de um investidor”, acrescentando que “não foi o único para quem fiz o mesmo tipo de análises”.

A falta de transparência levanta potenciais conflitos de interesses caso venha a ser eleito Presidente da República, ainda que o cargo não tenha funções executivas. O tema ganha peso à luz da chamada “pegada judicial” do candidato, que nunca foi condenado nem constituído arguido, mas cujo nome surgiu em investigações marcantes: desde o caso da Câmara da Amadora, em 2003, passando por pedidos de diligências a governantes então intercetados em escutas, até à Operação Labirinto/Vistos Gold, onde justificou contactos para acelerar processos “parados há mais de um ano”. Em 2014, foi ainda associado a suspeitas fiscais e empresariais, das quais se demarcou publicamente, afirmando que “nenhum facto me diz respeito pessoalmente”.

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Ao longo dos anos, Marques Mendes tem respondido às críticas sublinhando a legalidade da sua atuação e a normalidade de uma vasta rede de contactos. Essa perceção foi resumida pelo sócio-gerente da Abreu Advogados, Miguel Castro Pereira, que já afirmara que o agora candidato “dá confiança aos clientes” — uma característica que ajuda a explicar rendimentos elevados, mas que não dissipa as dúvidas políticas e éticas que a candidatura a Belém voltou a colocar no centro do debate público.

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