Marine Le Pen lança campanha presidencial entre aplausos, vaias e uma condenação ainda por fechar

Tribunal da Relação manteve a condenação por utilização indevida de fundos do Parlamento Europeu para pagar funcionários do partido, mas reduziu a proibição de candidatura a cargos públicos

Francisco Laranjeira

Marine Le Pen lançou oficialmente a sua campanha presidencial em La Flèche, no oeste de França, apenas um dia depois de o Tribunal da Relação de Paris ter confirmado a sua condenação por desvio de fundos europeus, mas encurtado a pena de inelegibilidade, abrindo caminho a uma nova candidatura ao Eliseu.

Segundo o ‘The Independent’, a líder da União Nacional foi recebida num mercado de rua com uma mistura de aplausos e protestos. Apoiantes gritaram “Marine, presidente!”, enquanto opositores responderam com palavras de ordem como “devolve o dinheiro” e “vai para a prisão”, num arranque de campanha que expôs a forte divisão em torno da sua candidatura.

Le Pen, de 57 anos, já concorreu três vezes à presidência francesa e lidera sondagens para as eleições do próximo ano. Desta vez, entra na corrida com uma vantagem política relevante, mas também com um problema judicial que continuará a acompanhá-la durante a campanha.

O Tribunal da Relação manteve a condenação por utilização indevida de fundos do Parlamento Europeu para pagar funcionários do partido, mas reduziu a proibição de candidatura a cargos públicos. A decisão reabriu a possibilidade de Le Pen disputar as presidenciais de 2027, embora o processo ainda possa chegar ao Tribunal de Cassação, a mais alta instância judicial francesa.

A justiça francesa ordenou ainda que Le Pen use pulseira eletrónica durante um ano. No entanto, o recurso anunciado para o Tribunal de Cassação suspende, para já, a aplicação dessa medida, permitindo-lhe iniciar a campanha sem essa limitação imediata.

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Em La Flèche, Le Pen procurou recentrar a mensagem no tema da “renovação” de França. A sua equipa lançou um site de campanha com o slogan “Por França, Renascimento”, enquanto a candidata prometeu recuperar soberania, justiça, segurança e educação.

A escolha da cidade teve leitura política. La Flèche era tradicionalmente um bastião de esquerda, mas elegeu em março um presidente de câmara de 25 anos ligado à União Nacional, sinal que Le Pen apresentou como prova da expansão territorial do partido.

Questionada repetidamente sobre a decisão judicial, a líder da extrema-direita francesa mostrou irritação e disse que não pretende passar a campanha a analisar assuntos legais. A aposta parece ser clara: transformar o caso num episódio de resistência política e confiar que a base eleitoral se mantenha fiel, apesar da condenação.

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A estratégia tem um paralelo evidente com Donald Trump, que conseguiu mobilizar eleitores apesar dos seus problemas judiciais. Em França, porém, a incógnita é saber se Le Pen conseguirá ir além do eleitorado fiel e conquistar novos votantes, sobretudo entre os que dizem valorizar honestidade e probidade na presidência.

A União Nacional chegou a preparar o cenário de substituição por Jordan Bardella, de 30 anos, caso Le Pen ficasse impedida de concorrer. Com a decisão judicial a permitir-lhe avançar, as ambições presidenciais imediatas de Bardella ficam adiadas. Le Pen já disse que, se chegar ao Eliseu, o jovem líder será o seu primeiro-ministro.

Sondagens citadas pela imprensa francesa continuam a apontar Le Pen como provável candidata à segunda volta das presidenciais de 2027. Ainda assim, o processo judicial mantém uma sombra sobre a campanha: se o Tribunal de Cassação confirmar a decisão antes das eleições, a candidata poderá enfrentar as últimas semanas da corrida sob restrições judiciais.

O arranque em La Flèche deixou claro o tom da campanha. Le Pen apresenta-se como vítima de um sistema que tentou afastá-la; os adversários insistem que uma condenação por desvio de fundos não pode ser tratada como detalhe. Entre o entusiasmo dos apoiantes e as vaias dos opositores, a extrema-direita francesa entra na corrida presidencial com força eleitoral, mas também com uma vulnerabilidade política difícil de ignorar.

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