A corrida presidencial americana de 2028 ainda está distante, mas a sucessão de Donald Trump já começou a mexer com o Partido Republicano. E Marco Rubio, atual secretário de Estado, surge cada vez mais como um possível rival de peso para JD Vance, o vice-presidente que até agora parecia ocupar a posição natural de herdeiro político de Trump.
O nome de Rubio ganhou força depois de uma aparição na sala de imprensa da Casa Branca, a 5 de maio último, quando substituiu a secretária de imprensa Karoline Leavitt. A prestação alimentou rumores em Washington e levou a imprensa americana a falar numa espécie de “Marcomentum”, expressão usada para descrever o novo entusiasmo em torno do antigo senador da Florida. Segundo o ‘Washington Post’, Rubio e a Casa Branca tentaram afastar publicamente as conversas sobre 2028, mas a especulação intensificou-se após essa intervenção.
A resposta que soou a campanha
Durante a conferência de imprensa, Rubio foi questionado sobre se tinha esperança nos Estados Unidos. A resposta, descrita pelo ‘ABC’ como um mini-discurso com tom de comício, juntou temas clássicos da retórica presidencial americana: esperança, liberdade, prosperidade, patriotismo, mérito e excecionalismo nacional.
“Que continuemos a ser o lugar onde qualquer pessoa, de qualquer lugar, possa alcançar qualquer coisa”, afirmou Rubio, defendendo uma América onde ninguém é limitado “pelas circunstâncias do nascimento, pela cor da pele ou pela etnia”.
A intervenção circulou rapidamente nos meios políticos e nas redes sociais. No dia seguinte, o próprio Rubio partilhou um vídeo com o áudio da resposta, acompanhado por imagens patrióticas das Forças Armadas, famílias americanas, Ronald Reagan, Donald Trump e dele próprio.
Para muitos observadores, o resultado parecia menos uma simples comunicação institucional e mais o embrião de um anúncio de campanha.
Rubio soma funções e ganha visibilidade
Rubio tornou-se uma das figuras mais úteis do novo Governo Trump. Além de secretário de Estado, tem assumido funções de elevado perfil em áreas de segurança nacional e política externa, acumulando responsabilidades que se tornaram tema de comentários e memes em Washington.
A sua capacidade de circular entre diferentes papéis reforçou a perceção de que é um dos membros mais politicamente hábeis do gabinete. Ao mesmo tempo, manteve uma relação sólida com a base MAGA, apesar de o seu percurso ser mais convencional, moderado e intervencionista do que o de muitos apoiantes mais duros de Trump.
A evolução é politicamente significativa. Em 2016, Trump ridicularizava-o nas primárias republicanas com a alcunha “Pequeno Marco”. Agora, Rubio surge como uma das figuras que melhor se adaptou ao universo trumpista.
Vance continua na frente, mas já sente concorrência
JD Vance continua a ser visto como o sucessor natural de Trump. O vice-presidente tem ligações fortes ao movimento MAGA, aproximou-se de figuras influentes da direita americana e consolidou uma imagem de convertido ao trumpismo.
Mas Rubio está a crescer no momento em que Vance enfrenta dificuldades. O vice-presidente ficou associado às negociações com o Irão para tentar travar a guerra, uma missão politicamente delicada e impopular em alguns setores da base republicana.
A diferença também surge nas sondagens. Uma sondagem ‘Washington Post/ABC News’ citada pelo ‘ABC’ dá a Vance uma aprovação de 35% e a Rubio de 33%, valores próximos. Mas Vance tem uma taxa de desaprovação mais elevada: 48%, contra 40% de Rubio.
Noutra sondagem, da ‘Reuters/Ipsos’, Rubio enfrenta ainda um problema de notoriedade: 19% dos inquiridos dizem não saber quem é, contra 9% no caso de Vance.
Mercados de apostas mostram subida de Rubio
Nos mercados de previsão, porém, o avanço de Rubio tem sido expressivo.
Segundo projeções da Kalshi citadas pelo ‘ABC’, no verão passado apenas 4% dos apostadores acreditavam numa vitória de Rubio em 2028, contra 29% para Vance.
Desde o final de fevereiro, as probabilidades inverteram-se: Rubio passou para 21%, enquanto Vance caiu para 17%.
Estes mercados não substituem sondagens nem campanhas reais, mas ajudam a medir o sentimento político de determinados círculos. E, nesse campo, Rubio parece ter deixado de ser apenas uma hipótese remota.
O risco de voar perto de Trump
Trump ainda não escolheu sucessor. Segundo o ‘ABC’, o presidente tem perguntado a amigos e convidados quem deveria herdar o seu lugar político: Rubio ou Vance.
Publicamente, limitou-se a dizer que os dois “formariam uma equipa imbatível” numa corrida à Casa Branca.
O problema de Rubio pode estar precisamente no seu sucesso. Quanto mais visível se torna, mais se aproxima do centro gravitacional do Partido Republicano: Donald Trump.
E, no universo trumpista, voar demasiado alto pode ser perigoso. Como Ícaro, Rubio pode ganhar altitude, mas também arrisca ver as asas derreterem se parecer demasiado ambicioso perante o homem que continua a ser o verdadeiro sol do Partido Republicano.




