Portugal assinala hoje o Dia Internacional da Mulher com um retrato que revela avanços significativos na representação feminina na sociedade, mas também a persistência de desigualdades em áreas como o emprego, os salários e as condições de vida. As mulheres são atualmente maioria da população residente, reforçaram a sua presença no ensino superior e aumentaram a participação em cargos de liderança política e empresarial, embora continuem a enfrentar assimetrias estruturais.
Os dados, compilados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos através da base estatística Pordata, mostram que vivem em Portugal mais de 5,6 milhões de mulheres, que representam 52,2% da população residente, num retrato que abrange áreas como demografia, educação, emprego, estrutura familiar, maternidade, saúde, rendimentos e risco de pobreza.
Mulheres são maioria demográfica
Segundo os números mais recentes, existem em Portugal 5.609.359 mulheres. Este grupo representa mais de metade da população residente e a diferença torna-se cada vez mais evidente com o avançar da idade.
De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística referentes a janeiro de 2024, a partir do grupo etário dos 35 aos 39 anos as mulheres passam a ser maioritárias em todos os escalões etários, com uma predominância crescente à medida que a idade aumenta. Nos grupos etários mais avançados, a diferença é particularmente expressiva: entre as pessoas com 100 ou mais anos, as mulheres representam cerca de 82% da população.
Entre a população estrangeira residente em Portugal, a distribuição por sexo apresenta um padrão diferente. A percentagem de mulheres entre cidadãos estrangeiros é cinco pontos percentuais inferior à verificada entre cidadãos de nacionalidade portuguesa, um padrão semelhante ao observado no conjunto da União Europeia. A maior diferença surge no grupo etário dos 25 aos 34 anos, em que se regista um rácio de quatro mulheres para seis homens entre a população estrangeira.
Crescimento histórico na educação
Foi no campo da educação que se registou uma das transformações mais marcantes da presença feminina na sociedade portuguesa ao longo das últimas décadas.
Em 1960, pouco mais de 3% das raparigas com 15 e 16 anos estavam inscritas no ensino secundário, representando cerca de 37% do total de alunos nesse nível de ensino. A grande mudança ocorreu entre 1972 e 1977, período em que se verificou o maior salto na escolarização feminina e se atingiu a paridade entre rapazes e raparigas.
Nas décadas seguintes, a presença feminina no ensino secundário continuou a crescer até se tornar praticamente universal antes de 2007, ano em que a escolaridade obrigatória foi alargada até aos 18 anos. Esse nível de universalização não foi alcançado entre os rapazes.
No ensino superior, as mulheres assumem atualmente uma posição dominante entre os diplomados. Representam cerca de 58% do total de diplomados em Portugal e são maioria expressiva em várias áreas académicas.
Mais de três quartos dos diplomados nas áreas da Educação, Saúde e Proteção Social são mulheres. Nas Ciências Sociais, Jornalismo e Informação representam mais de 70% dos diplomados, enquanto nas áreas de Ciências Naturais, Matemática e Estatística rondam os 60%.
A situação é diferente nas áreas tradicionalmente associadas à engenharia e à tecnologia. Nas áreas de Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção, as mulheres representam cerca de 32% dos diplomados. Nas Tecnologias da Informação e Comunicação, a presença feminina é ainda mais reduzida, ficando nos 20%.
Participação no mercado de trabalho
Apesar da forte presença na educação, as mulheres continuam a estar em minoria no mercado de trabalho em todos os grupos etários entre os 25 e os 64 anos.
As diferenças tornam-se particularmente evidentes a partir dos 35 anos, quando a taxa de emprego feminina fica mais de cinco pontos percentuais abaixo da registada entre os homens. Entre trabalhadores com menor nível de escolaridade — aqueles que têm apenas o ensino básico — a diferença pode ultrapassar os 15 pontos percentuais.
Entre os trabalhadores mais qualificados, a disparidade é significativamente menor, mantendo-se abaixo dos quatro pontos percentuais.
Quanto ao regime de trabalho, cerca de 90% das mulheres com 25 ou mais anos trabalham a tempo inteiro. Este valor está 18 pontos percentuais acima da média da União Europeia, que se situa nos 72%. Ainda assim, continua a ser inferior ao registado entre os homens, onde a percentagem atinge os 95%.
Setores de atividade e profissões
No mercado de trabalho português existem cerca de 2,5 milhões de mulheres empregadas. Mais de metade concentra-se em quatro grandes áreas de atividade: Saúde e Apoio Social, Educação, Comércio e Indústrias Transformadoras.
Nos últimos anos, tem-se verificado também um aumento da presença feminina em profissões tradicionalmente dominadas por homens.
Nas forças policiais, por exemplo, a percentagem de mulheres passou de 6% em 2008 para 10% em 2023, embora este valor permaneça abaixo da média da União Europeia, que ronda os 25%.
Também na magistratura judicial se registou uma evolução significativa. Em 2000, as mulheres representavam cerca de 39% dos magistrados judiciais. Em 2024, esse valor subiu para 67%, tornando-se claramente maioritárias neste setor.
Liderança empresarial e política
Portugal tem também registado progressos na representação feminina em cargos de liderança.
Desde 2022 que o país supera as metas estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas no que diz respeito à presença de mulheres em estruturas de topo das empresas.
Em 2024, cerca de 34,8% dos cargos de direção — executivos e não executivos — nas empresas cotadas em bolsa eram ocupados por mulheres, ultrapassando a meta internacional de 33%. Nos cargos de direção não executivos, a presença feminina atingia 44,2%, acima da meta de 40%.
Na esfera política, os níveis de participação feminina também superam a média europeia. Em 2025, as mulheres representavam 38,8% dos membros do Governo e 36,5% dos deputados no Parlamento português. No conjunto da União Europeia, os valores médios situam-se nos 31,9% nos governos e nos 33,6% nos parlamentos.
Estrutura familiar e maternidade
No plano das condições de vida, os dados mostram uma diversidade significativa nas estruturas familiares em que vivem as mulheres adultas.
Mais de dois milhões vivem em agregados familiares sem composição padronizada — ou seja, com filhos adultos, ascendentes ou pessoas sem laços familiares diretos — o que corresponde a cerca de 45% do total.
Cerca de 1,2 milhões vivem em casal sem outros membros no agregado familiar, representando aproximadamente 24%. Outras 690 mil mulheres vivem sozinhas, o equivalente a cerca de 15%.
Há ainda 685 mil mulheres que vivem em casal com crianças ou jovens menores de idade, cerca de 14%, enquanto cerca de 114 mil vivem apenas com filhos menores.
Em termos de natalidade, em 2024 nasceram 83.772 bebés em Portugal, tendo dado à luz o mesmo número de mulheres. Entre estas, 1.190 tiveram gémeos.
Quase um terço das mães tinha mais de 34 anos, enquanto apenas cerca de 12% tinham menos de 25 anos.
A idade média das mulheres que foram mães em 2024 foi de 31,7 anos. Este valor representa uma ligeira descida face ao máximo registado em 2020, quando a idade média atingiu os 32,2 anos. Após décadas de aumento progressivo da idade da maternidade — que cresceu mais de cinco anos entre 1990 e 2020 — os anos mais recentes revelam sinais de inversão dessa tendência.
Outro fenómeno relevante é o aumento da proporção de bebés nascidos de mães estrangeiras. Em 2020, representavam cerca de 13% dos nascimentos. Em 2024, essa proporção duplicou para 26%.
Fecundidade e esperança de vida
A taxa de fecundidade mais elevada continua a verificar-se entre as mulheres dos 30 aos 34 anos. Em 2024, em cada mil mulheres desse grupo etário, 94 tiveram filhos.
Este grupo etário ocupa a primeira posição desde 2004, quando ultrapassou pela primeira vez o grupo dos 25 aos 29 anos.
No entanto, o crescimento mais significativo da última década ocorreu entre as mulheres dos 35 aos 39 anos. Neste grupo, a taxa de fecundidade passou de 46 nascimentos por mil mulheres em 2014 para 64 em 2024.
Em termos de esperança média de vida, as mulheres continuam a viver mais do que os homens. Em 2024, a esperança média de vida à nascença era de 85,4 anos para as mulheres e de 79,8 anos para os homens.
Estes valores são superiores à média da União Europeia, que se situa nos 84,4 anos para as mulheres e nos 79,2 anos para os homens.
Desde 2015 tem-se verificado, contudo, uma aproximação entre os dois valores, devido a um crescimento mais rápido da esperança média de vida masculina. Em média, esta aumentou cerca de 62 dias por ano, enquanto a esperança média de vida feminina cresceu cerca de 35 dias anuais.
Anos de vida saudável e desigualdades sociais
Apesar de viverem mais anos, as mulheres passam uma parte significativa da vida com problemas de saúde.
Em 2024, a expectativa era de que apenas 58,3 dos 84,4 anos de esperança média de vida fossem vividos sem limitações de saúde. Este valor é 2,7 anos inferior ao previsto para os homens.
No conjunto da União Europeia verifica-se o padrão inverso: as mulheres podem esperar viver mais anos de vida saudável do que os homens, com médias de 63,3 anos e 62,8 anos, respetivamente.
No mercado de trabalho, as desigualdades também persistem. Em 2024, os salários das mulheres nos setores da indústria, construção e serviços — excluindo administração pública e defesa — eram cerca de 7% inferiores aos dos homens.
Este valor representa a segunda menor disparidade salarial registada desde 2006. A diferença máxima foi atingida em 2015, quando chegou aos 16%, enquanto o valor mínimo foi observado em 2022, com 6,3%.
Desde 2018, a diferença salarial tem permanecido sempre abaixo dos dois dígitos.
Ainda assim, as desigualdades sociais continuam a refletir-se no risco de pobreza e exclusão social. Em todos os grupos etários, a percentagem de mulheres em situação de risco é superior à registada entre os homens.
A diferença torna-se particularmente significativa entre a população com 75 ou mais anos. Neste grupo, cerca de 29,3% das mulheres encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social, comparando com 22,3% dos homens.














