Mais de 800 organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais vão sair à rua este domingo, em Bruxelas e noutras cidades europeias, para contestar os planos de rearmamento da União Europeia e da NATO. A mobilização é promovida pela coligação Stop ReArm Europe, em colaboração com a plataforma belga Stop Militarisation, sob o lema “Welfare not Warfare”, defendendo que o dinheiro público deve ser canalizado para o bem-estar social e não para a guerra.
A ação acontece poucos dias antes do Conselho Europeu de 18 e 19 de junho, no qual os chefes de Estado e de Governo da União Europeia deverão negociar o próximo orçamento de longo prazo do bloco, o Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034. A coligação alerta que este orçamento está a ser redesenhado para canalizar dezenas de milhares de milhões de euros para a indústria de armamento.
Em Bruxelas, os manifestantes vão concentrar-se às 15 horas na estação Brussels-North, antes de seguirem em marcha em direção às instituições europeias associadas à agenda de rearmamento. A partir das 18 horas, está prevista uma assembleia aberta na Biblioteca Real da Bélgica, junto à estação Central, para definir os próximos passos da campanha a nível europeu.
Organizações falam em orçamento “redesenhado para a guerra”
A Stop ReArm Europe opõe-se ao plano ReArm Europe, anunciado em março de 2025, que prevê mobilizar 800 mil milhões de euros para armamento. Para a coligação, estes recursos deveriam ser canalizados para áreas como saúde, educação, ação climática, habitação e proteção social.
A proposta da Comissão Europeia para o próximo orçamento inclui cerca de 131 mil milhões de euros para a área de defesa, segurança e espaço no novo Fundo Europeu de Competitividade. Segundo a coligação, trata-se de um aumento de pelo menos 100 mil milhões de euros em sete anos face ao envelope atualmente destinado à defesa e ao espaço.
Os organizadores argumentam que este montante poderia financiar os salários de cerca de 300 mil enfermeiros ou permitir a construção de aproximadamente meio milhão de casas sociais. A coligação considera que, num contexto de orçamento europeu praticamente estagnado, o reforço da despesa militar representa uma transferência direta de verbas civis para fins militares.
“Bruxelas descobriu que não há limite para o que a Europa pode pedir emprestado, desde que seja para armas. As regras do défice que esvaziam os nossos hospitais e congelam os nossos salários desaparecem no momento em que a indústria de armamento se senta à mesa. Dizem à Europa para apertar o cinto e pegar numa arma ao mesmo tempo. Recusamos ambas”, afirma Amir Kiyaei, coordenador de políticas da DiEM25.
Críticas ao peso da indústria de armamento
A coligação alerta para o risco de a Europa entrar numa economia de guerra permanente, que, segundo os organizadores, pode agravar conflitos em vez de os resolver, alimentar uma corrida global ao armamento e normalizar a militarização da vida pública.
Entre as preocupações apontadas estão o eventual regresso ou reforço da conscrição, a expansão de reservas militares, o aumento da vigilância e a redução do espaço democrático. A Stop ReArm Europe critica ainda a crescente influência da indústria de armamento junto das instituições europeias.
De acordo com a coligação, a Comissão Europeia reuniu 89 vezes com representantes da indústria de armamento em 2025, até outubro, sobre temas ligados ao rearmamento. No mesmo período, terá realizado apenas 15 reuniões com organizações não-governamentais, sindicatos ou cientistas sobre os mesmos assuntos.
Os organizadores defendem também que recorrer a dívida para financiar armamento é uma má decisão económica. Argumentam que a despesa militar cria menos emprego por euro investido do que alternativas civis, como cuidados de saúde, educação ou habitação, e deixa as gerações futuras endividadas sem criar ativos produtivos duradouros.
“Vendem-nos o rearmamento como segurança, mas a única coisa que ele realmente segura são os lucros da indústria das armas. Uma sociedade com hospitais em ruína e um clima desestabilizado não é segura. Gastar milhares de milhões em armamento enquanto se comprimem os cuidados, a educação e a coesão torna a Europa mais pobre e mais perigosa, não mais segura”, afirma Katerina Anastasiou, porta-voz da Stop ReArm Europe.
Coligação pede investimento em saúde, habitação e transição climática
A Stop ReArm Europe apela aos decisores europeus e nacionais para que priorizem o investimento em saúde, educação, trabalho digno, habitação e transição climática justa, em vez da militarização da sociedade.
A coligação defende ainda o respeito pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas, a defesa dos direitos humanos e laborais, a aposta no diálogo e na diplomacia, o reforço da solidariedade internacional e a promoção do controlo de armas e do desarmamento nuclear.
Além disso, os organizadores pedem aos eurodeputados que recusem dar consentimento a qualquer orçamento europeu de longo prazo que canalize 131 mil milhões de euros para defesa, segurança e espaço enquanto limita o financiamento social e de coesão.
A mobilização de 14 de junho não é apresentada como um ponto final, mas como um momento comum de uma campanha europeia mais ampla. Estão previstas manifestações, reuniões públicas e ações coordenadas ao longo do mês em países como Bélgica, Países Baixos, Áustria, Espanha, Finlândia, Alemanha e Itália.
Em Bruxelas, a mobilização nacional belga será organizada pela plataforma Stop Militarisation, sob o lema “Por justiça social, contra a guerra”, com o apoio de cerca de 40 organizações, incluindo sindicatos, organizações ambientais, humanitárias, pacifistas e de defesa dos direitos humanos.



