O debate não é novo, mas ganhou um peso inesperado quando, na semana passada, Michel Mompontet, amigo do fotógrafo suíço René Robert, denunciou no Twitter a sua morte – depois de ter caído desmaiado num passeio, em Paris, onde esteve horas sem que ninguém tivesse parado para o ajudar. O caso, aponta uma reflexão feita pelo diário espanhol El País, põe mais do que em evidência a crise do atual modelo de coexistência. Sobretudo porque, como sublinha o texto, trouxe à luz algo que não desconhecemos, mas continuamos sem conseguir ver: há centenas de milhares pessoas – milhares! – a sobreviver nas ruas. Há um ano, segundo a então recém-lançada Nova Plataforma Europeia de Combate à Situação de Sem-Abrigo, eram pelo menos 700 mil em toda a União Europeia. Qualquer coisa como mais 70 por cento do que há uma década.
Seguem-se uma série de perguntas sem resposta: porque é que a morte de Robert nos afetou mais do que qualquer uma daquelas 700 mil pessoas? Porque tinha onde de dormir? A resposta, avançada pelo El País, parece clara: os problemas de cada um impedem-nos de ver os problemas dos outros. Ou seja, vivemos juntos, mas isolados na nossa bolha. Afinal, como é que chegámos aqui? É que, embora haja uma resolução aprovada no Parlamento Europeu, ainda em 2020, a decretar a erradicação dos problemas dos sem-abrigo até 2030, essa pedida “atuação robusta” dos Estados-membros está longe de ser uma realidade. E revela que são cada vez mais longínquos os tempos da Grécia antiga, onde quem não se preocupava com o bem comum era considerado desprovido de razão.
Além dos números gritantes de pessoas sem direito a uma habitação digna em toda a UE, outros detalhes bem nossos conhecidos apontam para o que pode ser considerado já um retrocesso: nas nossas cidades há cada vez menos bancos porque é mais rentável ocupar os passeios com esplanadas – e também já não se dorme debaixo de muitas pontes, porque estas foram preenchidas por pilaretes. Além disso, também muitas agências bancárias fecharam as suas caixas automáticas cobertas, porque estas eram frequentemente utilizadas por sem-abrigo, à procura de calor e segurança durante a noite.
Progresso e (falta de…) qualidade cívica
Segundo conta ainda o El País, há um outro fenómeno que ocorre em Madrid e se repete em muitas outras capitais europeias: filas de gente à espera de comida, na porta dos locais que a fornecem. Um cenário digno dos livros de Oliver Twist, romance escrito por Charles Dickens, no final do século XIX. Em 1961, o agora clássico Morte e Vida das Grandes Cidades, da ativista americana Jane Jacobs, já defendia a necessidade de “recolher aqueles que caem na rua” porque ” o progresso não podia ser progresso se não considerasse estes gestos”. O último ensaio do sociólogo Eric Klinenberg – “Palácios do povo”, numa tradução à letra, publicado em 2018 – adverte igualmente para este grande problema da humanidade: bem podemos fiar-nos nas redes sociais, mas estas não são redes de segurança nem espaço de encontro. Pelo contrário, colocam-nos muito mais uns contra os outros, observa o americano, especialista em estudos urbanos, cultura e media.
Assim, o Estado Providência, esse tipo de organização política, económica e sócio-cultural que coloca o Estado como agente da promoção social e organizador da economia – nascido há mais de cem anos na Alemanha de Bismarck, o estadista então mais importante daquele país – apresenta-se hoje cada vez mais em risco, lê-se ainda no El País. A culpa, acrescenta a autora do texto, é do que se pode chamar a “perversão das políticas habitacionais”, que se instalou na grande maioria das capitais europeias, empurrando os seus habitantes para a periferia.
Agora, inverter esse cenário, como remata, Anatxu Zabalbeascoa, historiadora especializada em arquitetura que escreve regularmente naquele diário espanhol, passa por tornar os sem-abrigo uma exceção e não a norma. Sob o risco de transformarmos definitivamente estas urbes onde vivemos em locais de absoluta e total desumanização. Porque morrer na rua, como aconteceu com o fotógrafo René Robert, 84 anos, sem que ninguém reparasse, é também, quer queiramos quer não, uma medida da nossa (falta de…) qualidade cívica.


