Mais de 3.500 famílias pediram ajuda à DECO (só nos últimos três meses) por não conseguirem pagar o crédito da casa

Em entrevista à Executive Digest, Natália Nunes, Coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da Deco, relata casos de famílias que já estão a vender a casa onde vivem para se mudarem para uma mais pequena, e assim conseguirem dar resposta ao aumento da pressão sobre os orçamentos familiares.

Pedro Zagacho Gonçalves

A Deco registou em 2022 um recorde absoluto de pedidos de ajuda mas, este ano, afiguram-se novos máximos à vista. Em entrevista à Executive Digest, Natália Nunes, Coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da Deco, explica que só nos primeiros 3 meses deste ano já recorreram à Deco mais de 7 mil pessoas desesperadas com o aumento do custo de vida, e sem conseguirem fazer face às despesas.

A “grande maioria” dos pedidos de ajuda, ou seja, mais de 3.500, segundo a Deco, são de famílias com crédito à habitação que se veem com dificuldades a pagar as prestações, devido ao aumento das taxas de juro, que levou em alguns casos a pagamentos mensais que duplicaram de valor. As medidas do Governo, não só no setor da habitação, como a bonificação de juros, mas também nos apoios às famílias, “podem ser insuficientes”.

A Deco relata casos de famílias que estão a vender a casa onde vivem para se mudarem para uma mais pequena, e assim conseguirem dar resposta ao aumento da pressão sobre os orçamentos familiares: “Existem muitas famílias com muitas dificuldades em pagar a prestação do crédito habitação, há situações em que a prestação duplicou e os rendimentos não são suficientes para fazer face a todo os seus encargos”, refere Natália Nunes.

A Associação diz que ainda não tem registo de famílias que se viram obrigadas a entregar a casa ao banco por não ter como suportar as elevadas prestações, mas isso não quer dizer que não existam pessoas nessa situação, dado que a DECO só tem registos dos processos que tem em mãos.

O aumento do custo de vida, provocado pela inflação e pelo aumento das taxas de juro é “a principal causa” do agravamento das condições financeiras destas famílias que recorreram aos serviços da DECO nos primeiros três meses deste ano. Para além da Habitação, outro aspeto que tem motivado muitos pedidos de ajuda é a subida das despesas com Alimentação. Nesse sentido, a DECO partilha também alguns conselhos de poupança nos gastos em supermercados (ver em baixo).

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– Qual é o perfil de quem vos procura por já não conseguir pagar as prestações da casa ou a renda? Houve alguma alteração nas tendências?

Natália Nunes – As famílias dos distritos do Porto e de Lisboa são as que mais pedem aconselhamento e orientação financeira, 59%, esta é uma realidade com maior incidência nos grandes meios urbanos. Atualmente, 42% dos pedidos de aconselhamento são feitos por cidadãos casados ou que vivem em união de facto (em 2012 eram 55%). Já a percentagem de cidadãos desempregados é de cerca de 16%, uma tendência decrescente face aos números de 2012, quando se situavam nos 29%. As famílias pretendem, em regra, obter aconselhamento sobre como renegociar as suas responsabilidades de crédito (52%) com o objetivo de tentar reequilibrar o seu orçamento familiar.

– Registam casos de pessoas que tenham trocado para casas mais pequenas, para conseguir enfrentar as despesas com a habitação?

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Natália Nunes – Sim. Temos acompanhado situações em que os consumidores/famílias colocaram as suas casas no mercado para venda com intenção de posteriormente adquirirem outra de menor valor.

– Na vossa perspectiva, as medidas dos apoios às rendas e bonificação dos juros nos créditos à habitação servirão para solucionar alguns problemas, ou pelo menos atenuá-los?

Natália Nunes – Até 31 de dezembro de 2023 estão em vigor medidas excecionais para mitigar os efeitos do aumento das taxas de juro nos contratos de crédito. Estas medidas passam, nomeadamente, pelo:

  • Acompanhamento do risco de incumprimento de contratos de crédito;
  • Suspensão temporária da comissão de reembolso antecipado;
  • Resgate antecipado de planos de poupança sem penalização
  • Possibilidade de descontar menos IRS todos os meses para aumentar o rendimento disponível.

Este ano, 2023, foi criado um regime extraordinário de apoio às famílias no pagamento de rendas ou da prestação do crédito à habitação

Mas estas medidas podem ser insuficientes para famílias com rendimentos mais baixos ou com taxas de esforço elevadas. As referidas medidas deveriam ser mais alargadas, designadamente por via fiscal, para abrangerem outras situações igualmente muito difíceis, privilegiando a criação de uma linha de financiamento passível de ser utilizada pelas famílias no pagamento de parte da prestação, solução já utilizada por exemplo em 2009.

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– Quantos casos desde o início do ano já vos chegaram de famílias que não conseguem mesmo pagar as prestações da casa/rendas?

Natália Nunes – Em 2023 mais de sete mil famílias já nos pediram aconselhamento, 44% identificou o aumento do custo de vida como a principal causa das suas dificuldades financeiras. A grande maioria destas famílias tem um crédito habitação com taxa varável indexada à Euribor e está com dificuldades no pagamento das suas responsabilidades de crédito (em média existem 5 créditos, um habitação, dois pessoais e dois cartões de crédito].

As famílias em causa esperam algum alívio com as medidas que começarão a ser pagas no próximo mês?

Natália Nunes – Para quem está numa situação financeira muito difícil os apoios poderão revelar-se insuficientes. Dai que a DECO defenda a criação de uma linha de crédito extraordinária, medida de reforço da proteção concedida em 2009 destinada à proteção da habitação própria permanente, impedindo, assim, as famílias de entrarem em incumprimento. Esta medida deverá possuir critérios equitativos de acesso e que possibilitem aos consumidores aderir às mesmas em função da sua fragilidade social e económica.

– Que outros comportamentos os portugueses em dificuldades têm adotado? O corte na alimentação é uma realidade? 

Natália Nunes – Os gastos com a alimentação pesam cada vez mais no orçamento dos consumidores. E temos assistido, em momentos de crise, as famílias a reduzirem os gastos com a alimentação.  Existem comportamentos que devem ser adotados pelos consumidores e que lhe permitem gastar menos:

Organizar e planear as refeições

  • Elabore um Plano semanal de refeições, confirme os produtos que tem no frigorifico e na despensa.
  • Certifique-se que planeia refeições que permitam reaproveitar as sobras.
  • Conservar os alimentos de forma a preservar as suas qualidades.
  • Consuma primeiro os alimentos com prazo de validade mais próximo.
  • Sempre que possível prepare as refeições em casa.

Organizar e planear as compras

  • Confira o que tem e o que falta: Veja o que tem nos armários e no frigorifico para ver o que já tem e o que realmente precisa.
  • Todos devem participar na elaboração da lista de compras: todos escrevem o que se vão apercebendo o que falta em casa.
  • Não se esqueça de definir o valor a gastar: Quando estiver a preparar a lista de compras, coloque à frente o preço médio de determinado produto, visto que assim saberá em média quanto irá gastar.
  • Separe os produtos por categoria: Permite-lhe poupar tempo – visto que assim encontra o mesmo tipo de produtos em determinados locais.
  • Na hora de comprar preste atenção aos prazos de validade: é frequente vermos espaços com os produtos com prazos de validade quase a terminar e com desconto que pode ultrapassar os 50%. Avalie, se for para consumir dentro do prazo indicado, compre.
  • Não deve ir ao supermercado com fome: se for vai comprar alimentos que não estão na sua lista.
  • Evite levar as crianças: Se puder não leve as crianças consigo ao supermercado, porque é a garantia de que vai gastar mais do que é suposto.
  • Leve os sacos reutilizáveis: Além da vertente económica contribui para diminuir a quantidade de plástico que usamos.

Alguns cuidados para gastar menos

  • Esteja atento aos anúncios publicitários: estes podem ser folhetos muito úteis para perceber o valor real dos produtos e os que se encontram em promoção.
  • Mas evite comprar quantidades acima das suas necessidades: Traga apenas o que necessita.
  • Analise os produtos de marca própria: podem ser uma boa opção em termos de preço e qualidade.
  • Compare os preços ao litro e quilo: os produtos devem ter afixado o preço unitário, mas também o preço por quilo/litro é mais fácil na hora de comparar preços.
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