Mais de 20 ataques em dois meses: Procurador de Bruxelas exige ação contra escalada de tiroteios ligados ao narcotráfico

Bruxelas atravessa um verão marcado pela violência armada, com mais de 20 tiroteios registados apenas nos últimos dois meses, que resultaram em duas mortes e oito feridos, segundo dados da procuradoria da capital belga.

Pedro Gonçalves
Agosto 14, 2025
17:00

Bruxelas atravessa um verão marcado pela violência armada, com mais de 20 tiroteios registados apenas nos últimos dois meses, que resultaram em duas mortes e oito feridos, segundo dados da procuradoria da capital belga. O aumento dos ataques, ligados a gangues do narcotráfico, levou o procurador-geral, Julien Moinil, a criticar duramente a classe política por, na sua visão, se manter passiva perante a escalada da criminalidade.

“É hora de despertar e limpar estes bairros infestados de drogas”, afirmou Moinil esta terça-feira, durante uma conferência de imprensa. O magistrado, que se encontrava sob proteção policial devido a ameaças de traficantes, destacou a falta de meios para combater a violência que, segundo ele, resulta da disputa entre redes criminosas pelo controlo de territórios. “Vamos esperar que morram civis inocentes para conseguirmos os recursos necessários?”, questionou.

Em 2025, Bruxelas contabilizou 57 tiroteios, sendo sete apenas na primeira semana de agosto. Os distritos de Anderlecht, Molenbeek-Saint-Jean e Schaerbeek concentram grande parte destes incidentes. Moinil citou o ataque de 5 de agosto em Molenbeek, quando um projétil atravessou o para-brisas de um carro em que seguiam uma mulher e o filho de nove anos. “Poderia ter sido uma tragédia”, sublinhou.

A violência armada não é um fenómeno novo na capital. Em 2024, registaram-se 92 tiroteios, com nove mortos e 48 feridos. As autoridades associam este aumento à entrada de cocaína e outras substâncias em Europa pelo porto de Antuérpia, a 55 quilómetros de Bruxelas, que consolidou a Bélgica como ponto estratégico do narcotráfico.

Apesar da procuradoria ter reforçado a equipa com novos magistrados, a polícia judicial federal enfrenta uma grave escassez de pessoal. Moinil pediu também uma política de saúde pública mais eficaz para combater o consumo de drogas e reforçar a segurança nas prisões, onde muitos reclusos continuam a gerir atividades ilícitas através de telemóveis. O procurador apontou ainda que a falta de funcionamento ou a insuficiência de câmaras de vigilância em determinados bairros dificulta significativamente as investigações.

A situação é agravada pela crise institucional: a região de Bruxelas cumpre mais de 400 dias sem governo, desde as eleições regionais de junho de 2024, que não permitiram formar uma coligação viável.

A nível nacional, o executivo liderado pelo nacionalista flamengo Bart De Wever comprometeu-se a fundir as seis zonas policiais da cidade num único corpo e a aplicar uma política de “tolerância zero” ao narcotráfico em estações de metro e comboio. Contudo, a reestruturação só deverá estar concluída em 2027.

Coletivos de moradores têm denunciado a insegurança noturna em várias áreas de Bruxelas, exigindo maior presença policial. O Ministério da Justiça assegurou que parte dos fundos aprovados em abril será destinada a reforçar a luta contra o narcotráfico e a dotar o sistema judicial de mais meios.

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