Portugal registou 157 casos de intoxicação por monóxido de carbono desde 2021, dos quais 34 envolveram vítimas em risco de vida ou com sintomas graves, segundo dados do Centro de Informação Antivenenos (CIAV) do INEM. No mesmo período, 30 crianças foram afetadas. Só no espaço de um ano morreram, pelo menos, nove pessoas devido à inalação deste gás invisível e inodoro, frequentemente associado ao uso de lareiras, braseiros, esquentadores e aquecedores a gás.
De acordo com o Jornal de Notícias (JN), as ocorrências reportadas ao CIAV resultam maioritariamente da combustão incompleta de substâncias com carbono, sobretudo em ambientes mal ventilados. A médica do CIAV Fátima Rato explica que estas intoxicações continuam a ocorrer apesar dos alertas sucessivos, sublinhando que “continuam a existir intoxicações, por muitos alertas que se façam, porque as pessoas continuam a utilizar as lareiras, as braseiras e não ventilam bem as casas ou não têm alguma janela aberta para garantir que há alguma circulação de ar”. A especialista acrescenta que, nos últimos anos, diminuíram os casos associados a esquentadores devido à proibição da instalação destes equipamentos nas casas de banho.
Em 2025 foram registados 32 casos, sendo Lisboa o distrito com maior número de ocorrências (10). Fátima Rato observa que, apesar de Lisboa ser um distrito populoso e incluir zonas rurais como Mafra e Torres Vedras, “curiosamente, nos distritos mais rurais não existem muitos casos. Talvez, porque as pessoas já estão despertas para os cuidados a ter”. Ainda que o CIAV não tenha registado vítimas mortais nos últimos cinco anos, ocorreram pelo menos cinco mortes em 2025: em janeiro, um casal e dois filhos morreram em Almeida devido a um braseiro no quarto; em abril, um homem de 76 anos perdeu a vida na Covilhã, também por causa de um braseiro. Já este ano, registaram-se pelo menos quatro mortes: duas pessoas morreram nas Caldas no primeiro dia do ano, igualmente associadas a um braseiro sem ventilação; a 12 de fevereiro, uma cidadã norte-americana residente em Monte Gordo morreu na sequência de uma fuga de gás de um esquentador, ficando o marido e a filha gravemente feridos; e, no início do mês, um idoso de 74 anos morreu em Leiria devido à utilização de um gerador.
As recentes tempestades agravaram o problema, com múltiplos casos ligados ao uso de geradores para suprir falhas de energia elétrica. Em Segodim, na União de Freguesias de Monte Real e Carvide, concelho de Leiria, um homem de 74 anos morreu na madrugada de 1 de fevereiro por intoxicação associada a um gerador. Na noite anterior, nove pessoas, entre os 22 e os 65 anos, ficaram intoxicadas em Fervença, Alcobaça, após manterem um gerador dentro de casa, cinco das quais em estado grave. Também na freguesia de Ortigosa, em Leiria, outras nove pessoas, com idades entre os dois e os 64 anos, foram hospitalizadas por exposição ao mesmo gás.
Perante sintomas como dores de cabeça ou náuseas, Fátima Rato é categórica: “Quando as pessoas começam com alguma sintomatologia (…) devem, imediatamente, abrir as janelas e ir para a rua. É o passo mais importante para a recuperação e para não ter consequências mais graves”. A médica reforça ainda que, sempre que exista uma lareira acesa ou vários bicos do fogão ligados, “tem que se manter alguma coisa aberta, para garantir a passagem do ar. Nunca pode estar tudo fechado”, salientando que a ventilação adequada é determinante para prevenir novas intoxicações por monóxido de carbono.










