Maior massa de gelo em 15 anos paralisa portos russos e ameaça as exportações de petróleo de Putin

A maior massa de gelo marinho registada em 15 anos em torno dos principais portos russos no Báltico está a comprometer o vasto programa de exportação do país, devido à escassez de navios preparados para navegar nestas condições extremas

Francisco Laranjeira

O comércio externo de petróleo russo enfrenta uma nova ameaça num momento particularmente sensível. O ‘El Economista’ relata que, além das sanções ocidentais e dos constrangimentos logísticos provocados por ataques de drones ucranianos, o gelo no Mar Báltico está a tornar-se um obstáculo sério às exportações energéticas de Moscovo, fundamentais para financiar o esforço de guerra na Ucrânia.

A maior massa de gelo marinho registada em 15 anos em torno dos principais portos russos no Báltico está a comprometer o vasto programa de exportação do país, devido à escassez de navios preparados para navegar nestas condições extremas. De acordo com a ‘Bloomberg’, os terminais petrolíferos de Primorsk e Vysotsk determinaram que as embarcações sem capacidade de navegação em gelo só poderão operar com escolta individual de quebra-gelos.

O Golfo da Finlândia, por onde passa cerca de 40% das exportações marítimas de petróleo russo, encontra-se praticamente coberto de gelo, numa situação semelhante à verificada em fevereiro de 2010 e 2011. As dificuldades estão a afetar não apenas o crude, mas também combustíveis e outras matérias-primas exportadas a partir da região do Báltico.

Para mitigar o problema, Moscovo está a deslocar quebra-gelos do Ártico — nomeadamente o ‘Sibir’ e o ‘Murmansk’ — elevando para seis o número de embarcações deste tipo no Golfo da Finlândia até ao final do mês. Ainda assim, os tempos de espera aumentaram significativamente. Segundo dados citados pelo ‘El Economista’, os navios podem aguardar entre cinco e sete dias para integrar comboios com escolta até aos portos do Báltico.

O impacto nos fluxos de exportação já é visível. As exportações a partir de Primorsk caíram para 490.000 barris por dia na primeira quinzena de fevereiro, uma quebra de cerca de um terço face ao mesmo período do ano passado e de 50% em comparação com o mesmo período de 2024. Ao mesmo tempo, cerca de 140 milhões de barris de crude permanecem retidos em navios-tanque, que têm sido obrigados a realizar viagens mais longas até à China devido à desaceleração das refinarias indianas.

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A pressão acumula-se num contexto já adverso. As sanções ocidentais, a valorização do rublo e a descida dos preços internos do crude estão a reduzir margens. Desde o período pré-Natal, os embarques russos diminuíram cerca de 500.000 barris por dia. Paralelamente, o fornecimento por oleoduto para a Hungria e a Eslováquia foi interrompido após danos numa estação de bombagem no oeste da Ucrânia.

Os descontos oferecidos pelo petróleo russo face ao Brent aumentaram para cerca de 15 dólares por barril (aproximadamente 13,8 euros por barril), quando em novembro eram de apenas 3 dólares (cerca de 2,8 euros). Esta redução de preços ajudou a impulsionar as exportações para a China, que ultrapassaram os dois milhões de barris por dia este mês, acima dos 1,7 milhões registados em janeiro.

Ainda assim, o cenário pode complicar-se. Caso a espessura do gelo atinja entre 30 e 50 centímetros — apenas cinco centímetros acima dos níveis atuais — os portos de Ust-Luga, Primorsk e Vysotsk poderão proibir a entrada de navios sem classificação específica para gelo a partir de 1 de março, independentemente da disponibilidade de escolta.

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No plano internacional, a concorrência intensifica-se. A Arábia Saudita reduziu os preços oficiais de venda para clientes asiáticos para o nível mais baixo em mais de cinco anos e prepara-se para aumentar significativamente os volumes enviados para a China. Segundo estimativas citadas pelo ‘El Economista’, Riade poderá fornecer entre 56 e 58 milhões de toneladas de crude no próximo mês, acima das 48 milhões de toneladas do mês anterior.

Analistas admitem que a Rússia poderá ser forçada a reduzir produção se não encontrar compradores alternativos para compensar a menor procura indiana. Em fevereiro, a Índia deverá importar cerca de 1,16 milhões de barris por dia de petróleo russo, mas estes volumes poderão diminuir nos próximos meses.

Entre sanções, descontos crescentes, gargalos logísticos e agora o gelo no Báltico, o setor petrolífero russo enfrenta uma conjugação de fatores que pode tornar ainda mais difícil sustentar os atuais níveis de exportação.

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