“Maior interrupção da história”: guerra no Médio Oriente corta oferta de petróleo para mínimos de 2022

Produção global de petróleo deverá situar-se em 98,8 milhões de barris por dia neste mês, fazendo com que o volume disponível no mercado volte para níveis semelhantes aos registados no primeiro trimestre de 2022

Francisco Laranjeira

A guerra no Médio Oriente está a provocar a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), que alerta para um choque sem precedentes nos mercados energéticos globais.

Num relatório citado pelo ‘El Economista’, a agência sediada em Paris afirma que o encerramento do Estreito de Ormuz, provocado pelo conflito com o Irão, poderá reduzir a oferta mundial de petróleo em cerca de oito milhões de barris por dia em março. Esta quebra representa uma perturbação significativa no mercado energético internacional e obrigou a AIE a rever as suas previsões para o resto do ano.

De acordo com a análise divulgada pelo ‘El Economista’, a produção global de petróleo deverá situar-se em 98,8 milhões de barris por dia neste mês, fazendo com que o volume disponível no mercado volte para níveis semelhantes aos registados no primeiro trimestre de 2022.

Face à crise, a AIE também reduziu a previsão de oferta mundial de petróleo para 2026. A estimativa passou de 108,6 milhões para 107,2 milhões de barris por dia, refletindo o impacto prolongado da instabilidade no Médio Oriente. Ao mesmo tempo, a agência reviu em baixa a previsão de crescimento da procura global de petróleo em 2026, que passa de 850 mil para 640 mil barris por dia.

A guerra com o Irão está a provocar uma turbulência sem precedentes nos mercados energéticos, afetando cerca de 7,5% da oferta global de petróleo e uma parcela ainda maior das exportações mundiais.

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Um dos principais fatores desta disrupção é o colapso do tráfego petrolífero no Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo. A AIE estima que o fluxo de petróleo através deste corredor estratégico, que movimentou cerca de 20 milhões de barris por dia no último ano, caiu mais de 90% desde o início da escalada militar.

O aumento da tensão também teve impacto direto nos preços. O petróleo Brent voltou a ultrapassar 100 dólares por barril (cerca de 92 euros) depois de vários ataques iranianos contra navios e infraestruturas marítimas na região.

Segundo o ‘El Economista’, nas últimas horas foram atacadas até seis embarcações no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, incluindo dois petroleiros em águas iraquianas e quatro navios mercantes. No total, já são 16 navios atingidos desde o início do conflito.

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A Guarda Revolucionária Iraniana reforçou entretanto as ameaças de bloquear as exportações de petróleo destinadas aos Estados Unidos, Israel e aos seus aliados, enquanto responsáveis militares alertam que, caso o conflito se agrave, o preço do petróleo poderá ultrapassar 200 dólares por barril (cerca de 184 euros).

Este choque de oferta levou a AIE a reduzir também a estimativa de excedente global de petróleo para 2026 em mais de um terço, para cerca de 2,4 milhões de barris por dia. Antes da crise, a agência previa um excedente recorde no mercado, graças ao aumento da produção nas Américas, sobretudo nos Estados Unidos, Canadá, Guiana e Brasil.

Parte das perdas de produção no Médio Oriente está a ser compensada por países fora da OPEP e pelos aumentos de produção de alguns membros da OPEP+, como o Cazaquistão e a Rússia.

Além da produção de crude, o bloqueio do Estreito de Ormuz coloca também em risco a capacidade de refinação da região, estimada em quatro milhões de barris por dia. As dificuldades de abastecimento de matéria-prima podem provocar problemas adicionais no fornecimento de combustíveis como diesel e querosene de aviação.

Perante a gravidade da situação, os 32 países membros da AIE anunciaram uma libertação conjunta de reservas estratégicas de petróleo para tentar estabilizar o mercado. A mobilização anunciada representa mais do dobro do volume libertado após o início da guerra na Ucrânia em 2022.

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Apesar disso, vários analistas alertam que esta medida pode apenas aliviar temporariamente a pressão sobre os mercados. Especialistas da BCA Research consideram que a libertação de reservas “apenas ganha tempo”, uma vez que não resolve o problema estrutural causado pelo bloqueio no Estreito de Ormuz.

Se o trânsito marítimo continuar limitado e as infraestruturas petrolíferas permanecerem sob ameaça, os analistas acreditam que os preços continuarão sob pressão.

Entre os países que já detalharam a sua contribuição para a operação internacional está os Estados Unidos, que planeiam libertar 172 milhões de barris de petróleo da sua reserva estratégica ao longo de cerca de 120 dias.

Em Espanha, o governo anunciou que irá libertar 11,5 milhões de barris, o equivalente a pouco mais de 12 dias de consumo nacional, segundo dados citados pelo ‘El Economista’. Este volume corresponde a cerca de 13% das reservas estratégicas do país, atualmente suficientes para 92 dias de consumo.

Já Itália contribuirá com nove milhões de barris, enquanto a Alemanha planeia libertar cerca de 18 milhões de barris, integrando o esforço conjunto que prevê colocar no mercado 400 milhões de barris de petróleo para mitigar os efeitos da maior interrupção de abastecimento alguma vez registada.

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