O presidente francês, Emmanuel Macron, considera que a União Europeia (UE) atravessa um momento crucial que vai definir o seu futuro na luta contra a pandemia da Covid-19, sendo por isso necessário que exista «solidariedade económica», caso contrário a organização pode «não aguentar», disse em entrevista ao ‘Financial Times’.
«Estamos no momento da verdade em que vamos decidir se a União Europeia é um projecto político ou só um projecto de mercado. Eu acho que é um projecto político. São necessárias medidas financeiras e solidariedade, só assim é que a UE vai aguentar», refere o líder político.
O presidente francês tece duras criticas aos argumentos populistas considerando que «Quando temos uma epidemia, dizem para resolver. São a favor da Europa quando isso significa poderem exportar os bens que produzem, são a favor da União Europeia quando significa comprar as partes dos carros que já não produzem, mas não são a favor quando isso significa partilhar o fardo», defende.
Macron mostra-se totalmente contra a posição de alguns governos que têm anunciado a suspensão total da democracia, nomeadamente a Hungria. «Não podemos aceitar isso, não podemos abandonar o nosso ADN só porque temos uma crise de saúde».
A incógnita sobre o futuro do combate à Covid-19 é referida pelo presidente francês que admite não saber em que fase da crise o mundo se encontra, sendo por isso necessário inovar. «Enfrentamos a necessidade profunda de inventar algo novo, é tudo o que podemos fazer. Não sei se estamos no início ou a meia desta crise, ninguém sabe. Há muita incerteza e isso deveria tornar-nos muito humildes», refere.
Relativamente ao impacto económico sem precedentes que a crise causou nos vários países do mundo, o responsável considera tratar-se de «um profundo choque antropológico. Paramos metade do mundo para poder salvar vidas, não há registo disto na nossa história».
O presidente francês admite que as medidas aplicadas para travar a propagação da Covid são «brutais», contudo sublinha que não vai hesitar em tomá-las se isso implicar salvar vidas.
«Ninguém hesita ao tomar uma medida profunda e brutal quando se trata de salvar vidas. Estas grandes pandemias respiratórias costumavam parecer sempre muito distantes, porque aconteciam sempre na Ásia. O impacto das alterações climáticas também parecem sempre muito distantes, porque afecta mais a África e o Pacífico. Mas quando chega até ti, é hora de acordar», afirma.
O líder francês acredita que a pandemia vai alterar a «natureza da globalização com a qual vivemos nos últimos 40 anos. Achávamos que já não existiam fronteiras. Tudo se resumia a circulação mais rápida e acumulação», diz.
«A globalização teve os seus grandes sucessos. Acabou com os totalitaristas, houve a queda do muro de Berlim e tirou milhões de pessoas da pobreza. No entanto, nos últimos anos começaram a aumentar as desigualdades nos países desenvolvidos. Era claro que este tipo de globalização estava a chegar a um fim de ciclo, porque estava a minar a democracia», refere.
Macron acredita que na China «Há coisas que não sabemos»
Têm sido muitas as criticas ao governo chinês, apontadas por diversos países, sobretudo os Estados Unidos, que consideram que a China encobriu os números reais de casos e mortes por Covid-19.
Esta sexta-feira, Wuhan – epicentro da pandemia da Covid-19 – reviu os critérios de contabilização dos óbitos pela doença, subindo os números de 2.579 para 3.869.
Também o presidente francês considera agora que na China «há claramente coisas que aconteceram que não sabemos».
«Dadas as diferenças [regime político], as escolhas que a China tomou e o que o país é hoje, que eu respeito, não podemos ser ingénuos e achar que foram muito melhores a lidar com a situação. Não sabemos, há claramente coisas que aconteceram e que nós não sabemos delas», afirma.




