Lula gigante filmada viva pela primeira vez na natureza. Veja as imagens deste marco na exploração dos oceanos

Cem anos após a sua identificação científica, cientistas documentam finalmente em vídeo uma lula colossal viva no seu habitat natural. Descoberta foi feita por acaso nas profundezas do Atlântico Sul.

Pedro Zagacho Gonçalves

Pela primeira vez desde que foi identificada há um século, uma lula gigante foi filmada viva no seu habitat natural, marcando um momento histórico para a ciência marinha. O feito aconteceu durante uma expedição científica em março de 2025, levada a cabo a bordo do navio Falkor (também), do Instituto Oceânico Schmidt, ao largo das ilhas Sandwich do Sul, nas águas geladas do Atlântico Sul.

A lula registada era um exemplar juvenil, com apenas 30 centímetros de comprimento — uma fração do tamanho que esta espécie pode atingir. O animal foi filmado a 600 metros de profundidade através de um veículo operado remotamente (ROV), revelando uma silhueta translúcida e fantasmagórica, típica desta fase da vida do cefalópode.
“É emocionante ver as primeiras imagens in situ de uma lula gigante juvenil, e ao mesmo tempo comovente pensar que estes animais nem sequer têm noção da existência humana”, afirmou a bióloga marinha Kat Bolstad, da Universidade de Tecnologia de Auckland (Nova Zelândia), uma das especialistas independentes que validou as imagens.
Uma descoberta acidental no fundo do oceano

O aparecimento da lula gigante foi, na verdade, um acaso. De acordo com o Instituto Oceânico Schmidt, o objetivo da missão era identificar novas formas de vida marinha e não especificamente encontrar este enigmático cefalópode. No entanto, a natureza revelou-se generosa.

Apesar de terem sido encontradas lulas gigantes mortas, muitas vezes nos estômagos de cachalotes ou aves marinhas, e ocasionalmente capturadas por pescadores, nunca tinha sido registada em vídeo uma lula viva desta espécie no seu ambiente natural. “Durante 100 anos, encontrámo-las principalmente como restos de presas no sistema digestivo de baleias e aves, ou como predadoras de peixes como a merluza-negra”, acrescentou Bolstad.

Estima-se que a lula gigante adulta possa atingir os sete metros de comprimento e pesar até 500 quilos, o que faz desta espécie o maior invertebrado do planeta. À medida que crescem, os juvenis perdem a aparência translúcida e adquirem uma coloração avermelhada.

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Duas novas espécies registadas em três meses
Esta não foi a única descoberta notável feita pela equipa do Instituto Oceânico Schmidt em 2025. Já em janeiro, durante uma expedição ao Oceano Antártico, os investigadores captaram pela primeira vez imagens de uma lula de vidro glacial — outra espécie nunca antes observada viva no seu habitat natural.

Tanto a lula gigante juvenil como a lula de vidro glacial partilham algumas características anatómicas, como o corpo transparente e ganchos afiados nas extremidades dos seus dois tentáculos mais longos. A principal diferença, segundo Bolstad e o biólogo Aaron Evans — também envolvido na verificação dos registos —, é que a segunda não possui ganchos nos oito braços centrais, ao contrário da sua “prima” gigante.

O avistamento da lula de vidro glacial ocorreu no mar de Bellingshausen, numa área revelada por um icebergue de proporções gigantes — do tamanho de Chicago — que se desprendeu da plataforma de gelo George VI. Esta separação expôs o fundo do mar, onde os cientistas identificaram um ecossistema até então desconhecido, salientando como o degelo causado pelas alterações climáticas pode abrir novas janelas para a compreensão dos oceanos polares.

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“A observação de duas espécies de lulas diferentes, em expedições consecutivas, é extraordinária e demonstra o quão pouco ainda conhecemos sobre os magníficos habitantes do Oceano Antártico”, declarou Jyotika Virmani, diretora executiva do Instituto Oceânico Schmidt.

A missão continua nas profundezas desconhecidas
A expedição de 35 dias que permitiu o registo da lula gigante integra um esforço de colaboração internacional entre o Instituto Oceânico Schmidt, o Censo dos Oceanos da Fundação Nippon-Nekton e o projeto VaiSul, liderado pela Universidade de Plymouth (Reino Unido), pelo Centro Helmholtz GEOMAR para Investigação Oceânica (Alemanha) e pelo Estudo Antártico Britânico.

De acordo com os dados disponíveis, apenas 240 mil espécies marinhas foram até hoje identificadas. Estima-se que milhões ainda estejam por descobrir, o que torna este tipo de missões científicas absolutamente cruciais. O veículo subaquático SuBastian, operado remotamente pelo instituto, já registou imagens inéditas de pelo menos quatro espécies de lulas em estado selvagem — incluindo a gigante e a lula de vidro glacial — e há ainda uma quinta descoberta a aguardar confirmação.

“Estes momentos inesquecíveis continuam a lembrar-nos que os oceanos estão repletos de mistérios por desvendar”, concluiu Virmani.

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