Luís Duarte Costa demitiu-se da direção da urgência do Amadora-Sintra

O presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Luís Duarte Costa, demitiu-se no final de fevereiro do cargo de diretor do Serviço de Urgência Geral (SUG) da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, revelou hoje o médico à Lusa.

Executive Digest com Lusa

O presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Luís Duarte Costa, demitiu-se no final de fevereiro do cargo de diretor do Serviço de Urgência Geral (SUG) da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, revelou hoje o médico à Lusa.

A decisão resultou da impossibilidade de concretizar o plano para reduzir o número de doentes internados no serviço de urgência no Hospital Fernando Fonseca, uma das principais causas da pressão sobre as urgências, explicou em entrevista à agência Lusa.

“Demiti-me exatamente por isso. Fui para lá em maio de 2025 com a promessa de que íamos conseguir tirar de lá [do SUG] os doentes internados”, afirmou, reconhecendo que era “uma promessa difícil de resolver”.

O grande problema daquela urgência, explicou o médico, é que não consegue drenar os doentes ali internados para as enfermarias.

“As equipas de urgência, em vez de estarem a tratar dos doentes que se inscrevem naquele dia para serem observados pelo serviço de urgência, estão presas aos 75 doentes que estão lá permanentemente internados”, afirmou.

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O médico internista explicou que uma parte significativa do problema se deve aos chamados casos sociais — utentes que se mantêm internados por questões sociais, apesar de já terem alta clínica -, que representavam 25% dos internamentos.

E isso acontece porque o hospital não tem dimensão suficiente para a “população imensa a que tem de responder”.

Entre as soluções discutidas estavam a criação de respostas específicas para os casos sociais, eventualmente um hospital social, e a utilização das 60 camas do Hospital de Sintra.

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“Isso não se conseguiu fazer”, afirmou, acrescentando que essa foi uma das razões da sua saída, “passados 10 meses de pressão”.

Na sequência da sua saída, a ULS Amadora-Sintra nomeou em 09 de março uma Comissão de Gestão do Serviço de Urgência, constituída por oito médicos, que se mantém em funções até à nomeação de um novo diretor, disse à Lusa fonte oficial da instituição.

Questionado se a pressão sobre a urgência também de deve à falta de profissionais, Luís Duarte Costa afirmou: “Se pensássemos nos recursos humanos só para a urgência, o número de médicos que estavam no serviço de urgência geral do Amadora-Sintra eram suficientes”.

O problema, explicou, é que “a maior parte dos médicos que estão no Serviço de Urgência, sobretudo os mais diferenciados, ficam presos aos doentes que estão lá internados”.

“Esse é o drama. Isto acontece há 30 anos. Há 30 anos que médicos e enfermeiros trabalham sob esta pressão tremenda”, afirmou.

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De acordo com Luís Duarte Costa, esta situação leva à saída de muitos profissionais e dificulta a captação de novos médicos.

“Muitos vão-se embora. É muito difícil cativar alguém para trabalhar naquele serviço de urgência. E muitos dos que vão acabam por desistir, porque percebem que não há uma luz ao fundo do túnel para reverter este problema dramático, que é estrutural, da falta de camas”.

O presidente da Sociedade de Medicina Interna ressalvou que esta realidade não é exclusiva da urgência do Amadora-Sintra e “acontece na grande maioria dos hospitais em que há uma falta de drenagem de doentes e falta de resposta dos cuidados de saúde primários”.

Defendeu que muitos dos doentes que recorrem às urgências poderiam ser atendidos em três ou quatro dias nos cuidados primários.

Para o especialista, o problema da pressão nas urgências hospitalares não se resolve apenas com mais profissionais, mas com alterações estruturais na organização hospitalar e na resposta fora do hospital.

“A solução não é pôr mais médicos na urgência. É tirar de lá os doentes”, vincou.

Luís Duarte Costa defendeu também um reforço do papel da medicina interna na organização hospitalar, face ao aumento da multimorbilidade e ao envelhecimento da população.

“Cada vez mais os doentes são idosos e com múltiplas patologias. Não se enquadram numa única especialidade”, afirmou.

Segundo o médico, a gestão hospitalar deveria ser centrada em equipas multidisciplinares e na medicina interna.

“Defendemos uma enfermaria grande de medicina e doentes tratados em equipas multidisciplinares, como acontece no resto da Europa”, disse.

Criticou a fragmentação por especialidades como fator de ineficiência, uma vez que a maioria dos doentes “precisa de várias especialidades”.

Para o responsável, “os hospitais funcionam em torno das especialidades e não do doente. Isso tem de mudar”.

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