Francisco Teixeira da Mota, um dos advogados do hacker português Rui Pinto, revelou que a Polícia Judiciária (PJ) tem em sua posse o disco rígido com mais de 715 mil ficheiros com informação relativa à investigação «Luanda Leaks», que foi entregue ao consórcio de jornalistas.

«Ele tem cerca de 10 discos rígidos, que estão na posse da Polícia Judiciária, mas também das autoridades francesas e belgas. Tal como este disco que entregou a esta plataforma, foram entregues também às autoridades francesas de combate fiscal», disse o advogado à “RTP”.

Os discos rígidos estão encriptados, adiantou Teixeira da Mota, dando a entender que o seu conteúdo ainda não foi desbloqueado. «Até este momento, as autoridades portuguesas só pediram a Rui Pinto para desencriptar para o poderem acusar de mais crimes. Não que pretendessem de alguma forma utilizar a informação que pudesse lá estar. Esta é a única colaboração que até esta data foi solicitada.»

O advogado afirmou que Rui Pinto «não tinha a noção exacta do que tinha em seu poder». «Ele entregou um disco rígido, com muita informação, que sabia que era grave, que revelava factos criminosos, mas não tinha noção exactamente daquilo que veio a aparecer», continuou, referindo que o grosso da informação já lá estaria, mas que teve de ser trabalhada. «Isto é um trabalho que levou um ano e tal e estava completamente fora do controlo de Rui Pinto», que entregou os dados à plataforma de apoio dos whistleblowers de África.

«Ele ficou satisfeito por ver que aquilo que tinha entregue representava a denúncia de factos muito graves tanto em Angola como em Portugal e que desmascarou aquilo que é uma rede de cumplicidades muito grande, que não é só da família dos Santos, é todo o resto que está à volta» acrescentou.

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O marido de Isabel dos Santos, Sindika Dokolo, apontou desde logo o dedo a Rui Pinto, acusando-o de ser «o braço armado deste complô [Luanda Leaks]”.  Em entrevista à rádio “RFI Afrique” disse ainda que várias empresas tinham sido alvo de ataques informáticos realizados por «um hacker português».

O Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa, recorde-se, decidiu levar a julgamento Rui Pinto, criador do Football Leaks, por 93 crimes de acesso ilegítimo, acesso indevido, violação de correspondência, sabotagem informática e tentativa de extorsão. Por decisão da juíza de instrução do processo, caem 54 crimes da acusação do Ministério Público. Também outro dos advogados do hacker, Aníbal Pinto, vai ser levado a julgamento por um crime de extorsão, mas com atenuante.

Teixeira da Mota admite que isto representa «alguma forma de contribuição pública do mérito do trabalho de Rui Pinto». Nega, contudo, que o momento do anúncio seja uma estratégia da defesa. «Rui Pinto foi uma pessoa extremamente corajosa e forte. (…) Não tenho dúvida nenhuma que é um denunciante e que para muita gente, suponho em Angola mas mesmo cá, não deixa de ser um herói independentemente de ter praticado factos mais ou menos lícitos», disse ainda.

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