A sustentabilidade já não vive apenas no discurso das marcas de beleza. A atenção para uma vida mais consciente está a entrar nas fórmulas, nas embalagens, nos processos de produção e até na forma como os consumidores compram e reutilizam produtos. Da forte aposta nas green sciences ao crescimento dos formatos refill, passando por grandes investimentos em inovação sustentável, a L’Oréal está a acelerar uma transformação estrutural do sector.
Nesta entrevista, Ana Sofia Amaral, Scientific & Regulatory Affairs director e Sustainability Leader da L’Oréal Portugal, fala de projectos inovadores, como o L’Oréal for the Future ou o Fundo de Inovação Circular, partilha metas como o facto de o Grupo ter atingido o objectivo de utilizar 100% de energia renovável nas suas fábricas, e explica como pretendem reduzir ainda mais o plástico virgem, combater o greenwashing e tornar a circularidade parte integrante da experiência de beleza.
Os critérios ESG passaram a influenciar decisões estratégicas e de negócio. Como é que a L’Oréal integra, à data de hoje, essa visão no dia-a-dia da operação?
Os critérios ESG deixaram de ser uma dimensão meramente reputacional para se assumirem como um pilar estruturante do modelo de negócio da L’Oréal, reflectindo a convicção de que o desempenho económico e a responsabilidade ambiental e social são inseparáveis. Esta visão materializa-se globalmente através do programa L’Oréal for the Future, que estabelece metas concretas para 2030, em áreas como a transição climática, a protecção da natureza ou a circularidade.
No dia-a-dia da operação, esta estratégia ganha tracção porque os principais custos e investimentos relacionados com a sustentabilidade estão integrados nos lucros e perdas transversais do Grupo, o que evidencia tratar-se de um investimento estratégico e não de um encargo isolado. Este nível profundo de integração reflecte-se em marcos práticos, como, por exemplo, o facto de o Grupo ter atingido o objectivo de utilizar 100% de energia renovável nas suas fábricas, centros operacionais e rede de lojas próprias. O reconhecimento desta gestão rigorosa e enraizada é evidenciado pela conquista, por 10 anos consecutivos, da classificação Triple A do Carbon Disclosure Project (CDP), sendo a L’Oréal a única empresa no mundo a atingir este marco histórico na luta contra o clima, a escassez de água e a protecção florestal.
A sustentabilidade na beleza enfrenta um desafio: como conciliar inovação, performance e desejo com responsabilidade ambiental? Como se trabalha este equilíbrio sem comprometer a experiência premium associada às marcas?
Para a L’Oréal, o equilíbrio entre a inovação, a performance e a responsabilidade ambiental alcança- -se colocando a ciência e a tecnologia no centro do desenvolvimento. O Grupo investe massivamente em Investigação e Inovação, tendo alocado 1.380,6 milhões de euros em 2025 (cerca de 3,1% das suas vendas totais), contando com uma estrutura baseada em mais de 4300 investigadores em todo o mundo. Este forte compromisso tecnológico traduz- -se na adopção das Green Sciences, uma via de investigação que combina a química verde e a biotecnologia para criar fórmulas seguras e de elevada performance, substituindo progressivamente matérias-primas de origem fóssil por alternativas sustentáveis e circulares.
Adicionalmente, a L’Oréal recorre à inovação aberta e à Beauty Tech para acelerar o equilíbrio desta transição. Para garantir que este equilíbrio acelera rumo à escala global, o Grupo lançou, em 2025, o Acelerador de Inovação Sustentável, um programa intensivo dotado de 100 milhões de euros para os próximos cinco anos, focado inteiramente em identificar, testar e expandir soluções tecnológicas disruptivas, do desenvolvimento de ingredientes baseados na natureza a novos materiais circulares de baixo carbono.
O refill tem vindo a ganhar protagonismo para uma “beleza sustentável”. Quando deixou de ser uma tendência de consumo para passar a ser uma prioridade estratégica?
Os modelos de recarga deixaram de ser uma simples alternativa de consumo para se assumirem como uma prioridade económica e ambiental central, sendo uma das ferramentas cruciais para atingir o compromisso de reduzir em 50% o uso absoluto de plástico virgem (comparado com 2019) em toda a empresa até 2030 e para diminuir substancialmente as emissões geradas pela cadeia de valor.
Actualmente, a L’Oréal assume o desafio de converter o refill no novo padrão da indústria ao adaptar estruturalmente e de forma significativa os seus centros de fabrico internacionais, como a fábrica de Burgos, um investimento que permitiu um expressivo aumento de 17 vezes no número de opções recarregáveis disponibilizadas ao mercado entre 2019 e 2024. Esta poderosa transformação estratégica é especialmente visível na Divisão L’Oréal Luxe, onde foi definido o objectivo central de que as soluções de recarga passem a representar 30% do total do catálogo no decurso do último ano.
Até que ponto o sucesso de uma estratégia de refill/recarga depende menos da embalagem e mais da educação do consumidor para novos hábitos de consumo?
O sucesso a longo prazo desta estratégia de circularidade depende da transformação sustentada de mentalidades do público em geral, uma vez que a adopção instintiva das opções de recarga ainda não se constituiu como a norma absoluta de consumo, exigindo por isso um esforço contínuo e assertivo de consciencialização suportado activamente pelas marcas de beleza. Embora cerca de 78% dos consumidores manifestem já um interesse concreto em adquirir bens e soluções de forma mais sustentável, subsistem ainda falhas de literacia que levam a que muitos desconheçam a disponibilidade da alternativa do refill ou que não assimilem a verdadeira escala dos seus benefícios e impacto ecológico a médio e longo prazo.
Com o objectivo primordial de elevar a mentalidade colectiva e transmutar a percepção da recarga de uma simples opção funcional ou de poupança para um ritual de beleza e estilo verdadeiramente aspiracional, a L’Oréal activou a campanha global #JoinTheRefill- Movement. Esta mobilização sem precedentes agregou 12 das marcas mais influentes de todas as grandes divisões de negócio do Grupo e funcionou com o objectivo de capacitar os consumidores para a importância de escolhas mais sustentáveis, tentando assim promover activamente a expansão de uma comunidade de circularidade sustentável na indústria.
A L’Oréal reforçou a aposta em circularidade e eco-design. Como se transforma esse compromisso em decisões de produto e packaging?
O compromisso com a circularidade e com a vanguarda do ecodesign manifesta-se através de ferramentas práticas integradas no desenvolvimento de produto, como a metodologia de avaliação interna SPOT (Sustainable Product Optimization Tool), que analisa de forma preventiva 14 diferentes critérios de exigência e impacto ambiental e social logo a partir da fase inicial da concepção e lançamento de todos os produtos. Assim, em 2025, 44% de todos os materiais utilizados nas embalagens dos nossos produtos são de origem reciclada, ou de base biológica, e 67% dos ingredientes utilizados nas nossas fórmulas eram oriundos da natureza ou de materiais reciclados, sabendo que o nosso compromisso é atingir os 50% em 2030.
O processo criativo do packaging foca-se também na eliminação estrutural dos pesos excessivos de acondicionamento por embalagem primária e secundária, medida sistémica que já se materializou no registo notório de uma diminuição de 12% (em 2025) na intensidade do uso de materiais por produto consolidado em toda a linha de mercadorias no comparativo com os resultados base de 2019.
Adicionalmente, criámos o Fundo de Inovação Circular, programa financeiro com mais de 50 milhões de euros para financiamento de novos modelos de gestão disruptiva, de tecnologias alternativas de separação de resíduos de plástico complexos e de inovadoras soluções no design de embalagens.
O projecto “Reciclar em Beleza” mostra que sustentabilidade também passa por literacia. Ainda existe um défice de informação do consumidor quando falamos de reciclagem e consumo consciente?
A informação e formação nestas áreas, junto de todos os stakeholders, é muito importante se visamos uma alteração de comportamento, no sentido do consumo de produtos mais sustentáveis. Os desafios específicos no contexto nacional incluem a sensibilização contínua dos consumidores para práticas mais sustentáveis. É exactamente por isso que, através da campanha “Reciclar em Beleza”, em parceria com a Sociedade Ponto Verde, a L’Oréal incentiva o consumidor a separar correctamente as embalagens de cosmética, transformando a intenção em acção.
A ciência e as green sciences são apontadas como pilares do futuro da beleza. De que forma a inovação científica está a acelerar soluções mais sustentáveis e eficientes?
A L’Oréal tem já um longo caminho na transformação dos seus processos científicos através das Green Sciences, uma abordagem que junta biotecnologia, química verde e princípios de sustentabilidade para criar fórmulas mais eficazes, seguras e com menor impacto ambiental. Na prática, em 2025, 67% dos ingredientes das fórmulas do Grupo já tinham origem de base biológica ou de materiais reciclados. Adicionalmente, componentes como o ácido hialurónico, as ceramidas e a Vitamina C utilizados nos produtos já são totalmente produzidos por biotecnologia.
Num mercado mais atento ao greenwashing, como se comunica sem cair numa lógica promocional?
Para a L’Oréal, as campanhas e programas na área da sustentabilidade acabam por reforçar uma mensagem de transparência face às preocupações ambientais. É importante realçar que os relatórios ESG da L’Oréal são auditados externamente, sendo reconhecidos por obter classificações de sustentabilidade de entidades creditadas, como a CDP e a EcoVadis.
Para garantir a confiança do consumidor, o Grupo fez parte da fundação do EcoBeautyScore, um sistema de rotulagem usado por mais de 70 empresas da indústria cosmética, que avalia 16 factores ambientais e classifica cada produto numa escala de A a E, garantindo transparência no processo de avaliação.
Que áreas têm hoje maior prioridade para a L’Oréal quando falamos de inclusão, empregabilidade e impacto nas comunidades?
Na L’Oréal, procuramos actuar ao nível social, porque acreditamos que só juntos podemos continuar a criar a beleza que faz avançar o mundo. Entre as várias áreas presentes no nosso apoio às comunidades, o empoderamento das mulheres assume um papel central e, nesse âmbito, em 2020, criámos o Fundo L’Oréal para Mulheres. Em Portugal, através deste Fundo, a empresa já apoiou mais de 5705 pessoas em situação de vulnerabilidade (com um financiamento de 522.700 euros), trabalhando com associações como a APAV, Ajuda de Mãe e Girl Move.
No plano educativo e de empregabilidade, destaca-se o programa L’Oréal for Youth, que oferece 25 mil oportunidades de emprego anuais para jovens com menos de 30 anos.
Como se garante que fornecedores, retalho e stakeholders acompanham estas exigências de ESG?
A L’Oréal trabalha com a cadeia de valor, para que esta se comprometa com os padrões ambientais e sociais do Grupo através de um trabalho exaustivo nas fontes de abastecimento e comunidades locais. Por norma, a L’Oréal partilha com os seus parceiros e fornecedores as suas regras e práticas acompanhando e exigindo o seu cumprimento. Além disso, a empresa trabalha de perto com fornecedores e parceiros industriais, apoiando-os na adopção de práticas de baixo impacto através de programas de formação e partilha de boas práticas. A L’Oréal aplica, ainda, junto dos clientes de retalho, o “Green Joint Business Plan”, um plano de negócio focado em metas ambientais partilhadas entre nós e esses mesmos parceiros.
Que métricas fazem hoje mais sentido para medir sucesso em ESG?
As métricas de impacto mais relevantes estão ancoradas nos compromissos do programa L’Oréal for the Future. Ao nível do pilar da transição climática, destacam-se a redução de 57% nas emissões directas e de 28% nas emissões indirectas, e a utilização de electricidade 100% renovável nos centros de operações e rede de lojas próprias. Na circularidade, podemos evidenciar a redução de plástico virgem nas nossas embalagens. Na componente social, o sucesso mede-se pelo alcance: em 2025, mais de cinco milhões de pessoas beneficiaram de programas de compromisso social, a nível global, desenvolvidos pelas nossas marcas.
A inovação sustentável exige tempo, mas o mercado quer resultados rápidos. Como se equilibra essa pressão com a necessidade de transformação estrutural?
A L’Oréal equilibra esta pressão integrando os custos e investimentos relacionados com a sustentabilidade nos lucros e perdas transversais do Grupo, assumindo-os como estratégicos para o negócio. Os investimentos em transformação sustentável são parte do modelo de negócio e funcionam como factores críticos para diferenciar a L’Oréal da concorrência e acrescentar valor à marca, impulsionando a sua competitividade. Para acelerar soluções, o Grupo tem criado fundos de impacto, como o Acelerador de Inovação Sustentável (100 milhões de euros ao longo de cinco anos).
Como é que a L’Oréal está a planear o futuro da beleza?
A L’Oréal tem vindo a preparar- -se com uma estratégia proactiva integrada, que se reflecte no programa L’Oréal for the Future. Essa rotatividade e abordagem holística traduz-se em não esperar pela regulamentação, mas liderar pelo exemplo através de compromissos sustentáveis integrados. É desta forma que procuramos antecipar as exigências do mercado e reduzir desperdícios estruturais, de forma a continuar a criar a beleza que faz avançar o mundo.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “ESG”, publicado na edição de Junho (n.º 243) da Executive Digest.














