A Bulgária volta às urnas este domingo num contexto de profunda instabilidade política, com muitos analistas a questionarem se o chamado “efeito Budapeste” – associado à Hungria – poderá ter impacto no futuro do país.
De acordo com a Euronews, trata-se da oitava eleição legislativa em apenas cinco anos, um sinal claro da crise persistente que tem impedido a formação de governos estáveis.
O grande protagonista destas eleições é Rumen Radev, antigo presidente da República, que abandonou o cargo em janeiro para lançar o partido “Bulgária Progressista”.
Segundo a Euronews, a nova formação política lidera as sondagens com cerca de 33% das intenções de voto, posicionando-se como peça central num parlamento que deverá voltar a ser fragmentado.
A ascensão de Radev surge após meses de contestação social. Protestos em massa no final de 2025, motivados inicialmente por um orçamento polémico, evoluíram rapidamente para uma contestação generalizada ao sistema político e às elites no poder.
Crise política prolongada e desconfiança pública
Nos últimos anos, a Bulgária tem vivido uma sucessão de governos frágeis, coligações instáveis e administrações interinas. Nenhum executivo conseguiu completar um mandato completo.
Este cenário levou a uma quebra significativa da confiança dos cidadãos nas instituições democráticas, refletida numa participação eleitoral cada vez mais baixa.
Paradoxalmente, durante este período de instabilidade, o país avançou no processo de integração europeia, aderindo ao espaço Schengen e adotando o euro, mesmo sem governos plenamente funcionais.
Comparações com a Hungria dividem opiniões
O crescimento político de Radev tem gerado comparações com Viktor Orbán, mas essas leituras são ambivalentes.
Por um lado, alguns observadores veem na recente mobilização eleitoral na Hungria – que demonstrou que mudanças políticas são possíveis – um incentivo à participação dos eleitores búlgaros.
Por outro lado, críticos alertam para semelhanças ideológicas. Declarações de aliados de Radev sugerem uma visão pró-europeia mais alinhada com interesses nacionais, aproximando-se do modelo político de Orbán.
Posições controversas sobre UE e guerra na Ucrânia
Durante o seu mandato presidencial, Radev assumiu posições divergentes da maioria dos governos búlgaros, especialmente no que diz respeito à guerra na Ucrânia.
O líder político opôs-se ao envio de ajuda militar a Kiev e defendeu o diálogo com Moscovo. Chegou mesmo a afirmar que a Crimeia era “legalmente russa”, o que gerou forte polémica internacional.
Mais recentemente, criticou duramente a União Europeia, acusando Bruxelas de privilegiar ideologia em detrimento do pragmatismo económico. Também contestou a adoção do euro sem consulta popular, defendendo a realização de um referendo.
Fragmentação política dificulta soluções
Apesar da liderança nas sondagens, é improvável que Radev consiga governar sozinho. O cenário aponta para mais negociações complexas entre partidos com linhas vermelhas bem definidas – ainda que historicamente flexíveis.
Figuras como Boyko Borissov continuam a desempenhar um papel relevante, enquanto outras forças políticas mantêm posições divergentes sobre o futuro do país.
Além disso, partidos nacionalistas com discurso anti-União Europeia continuam a ganhar terreno, refletindo uma crescente polarização.
Eleições decisivas para o futuro europeu da Bulgária
O resultado destas eleições terá impacto não só na estabilidade interna da Bulgária, mas também na sua posição dentro da União Europeia.
Segundo a Euronews, Bruxelas acompanha de perto o processo eleitoral, preocupada com o risco de maior instabilidade num Estado-membro.
No final, os eleitores terão de decidir entre diferentes caminhos: reforçar a integração europeia ou abrir espaço a modelos políticos alternativos inspirados noutros países da região.
A resposta poderá definir o rumo da Bulgária nos próximos anos.



