Literacia “financeira-cognitiva-emocional”

Por Sandra Maximiano, Professora Associada do ISEG

A Semana Mundial do Investidor é uma campanha promovida pela IOSCO (International Organization Of Securities Commissions) com o objetivo de sensibilizar os investidores e a sociedade civil em geral para a importância da literacia financeira e proteção dos investidores. Em Portugal, a CMVM em colaboração com vários parceiros está desenvolver diversas iniciativas, num evento que ocorre pelo quinto ano consecutivo, este ano, entre 6 e 12 de Outubro.

A literacia financeira é um pilar fundamental para uma economia estável e saudável, na qual os cidadãos têm uma participação ativa e informada. É necessário que os indivíduos desenvolvam, desde a infância e ao longo da vida, competências que lhes permitam quer compreender os conceitos de dinheiro, de gestão de orçamento familiar, de consumo consciente, de crédito, investimento e poupança quer saber lidar com a crescente complexidade dos mercados e instrumentos financeiros. A nível individual, a literacia financeira permite melhorar a situação financeira dos indivíduos e das famílias, no presente e no futuro, reduzindo estados de ansiedade e preocupações quotidianas relacionadas com dívidas, aplicações financeiras, cartões de crédito, empréstimos, reformas. A nível macroeconómico, e de acordo com relatórios da OCDE, de uma forma geral, o rendimento nacional per capita está positivamente associado ao desempenho médio em literacia financeira.

Educar financeiramente não passa apenas por ensinar o que são juros compostos, taxa de inflação, diversificação, derivados, bolsa de valores e mercado de balcão, entre outros conceitos e estratégias de investimento. É preciso aprender que os mercados financeiros funcionam com agentes económicos, sejam eles investidores, aforradores ou consumidores, que não são hiper-racionais, e que, mesmo dotados de muita informação relevante e conhecimentos técnicos, frequentemente não fazem as melhores escolhas. Os indivíduos não são só limitados racionalmente como também percecionam as suas capacidades de raciocínio e de decisão de forma enviesada. Este excesso de confiança dos investidores na sua capacidade cognitiva, leva a um maior volume de transações e à detenção de carteiras menos diversificadas.

Há outros enviesamentos cognitivos que, se não forem reconhecidos, levam a más decisões. Por exemplo, como os indivíduos são avessos a perdas, o que significa que sentem maior insatisfação na realização de perdas do que satisfação com uma realização de ganhos idêntica, os investidores acabam por vender as ações que estão a incorrer em perdas demasiado tarde e vender as que estão a incorrer em ganhos demasiado cedo. Mais, a dissonância cognitiva, que consiste na tendência para ignorar informações que contrariem as convicções e ideias pré-existentes, pode agravar o efeito de aversão a perdas e reduzir a diversificação da carteira. O enviesamento da ancoragem, por sua vez, consiste na atribuição de demasiada importância a uma dada informação, por exemplo, ao preço-alvo definido por especialistas de mercado. O enviesamento da representatividade é responsável pela tendência para se interpretar a informação disponível, que consiste apenas numa pequena amostra, como sendo representativa de toda a informação. Este enviesamento pode levar os investidores a extrapolar rendibilidades passadas recentes para rendibilidades futuras. O enviesamento da representatividade está também relacionado com o enviesamento do conservadorismo, onde se atribui demasiada importância a informação passada relativamente a nova informação, o que pode levar à inércia na recomposição da carteira.

Estes são alguns exemplos de uma lista longa de enviesamentos cognitivos que não afetam todos os indivíduos da mesma forma. Investidores mais jovens e menos experientes estão em maior risco de fazerem escolhas mais enviesadas. Para além de se aprender sobre enviesamentos cognitivos é preciso também aprender sobre o papel das emoções nas decisões financeira. Por exemplo, a perceção do risco e as decisões dos investidores são influenciadas quer por estados de alma individuais, quer pelo o que se passa na sociedade, ou seja, pelo chamado estado de espírito social.

Em outubro de 2020, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aprovou a Recomendação sobre Literacia Financeira, que tem por objetivo apoiar governos, autoridades públicas e outros stakeholders relevantes, na implementação e na avaliação de estratégias nacionais de literacia financeira. Nesta recomendação pode dizer-se que existem três ingredientes essenciais para a literacia financeira: conhecimentos técnicos, motivação e confiança, em si e no sistema financeiro, para que na prática se apliquem os conhecimentos e se tomem as melhores decisões. A meu ver, falta ainda a literacia cognitiva e emocional.

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