Por Frederico Venâncio, responsável de Micromobilidade da Bolt em Portugal, Espanha e Itália
Lisboa voltou a fazer aquilo que tantas cidades europeias ainda hesitam em fazer: investir. Investir com convicção e investir com sentido.
O anúncio recente da Câmara Municipal, liderada por Carlos Moedas, de avançar com mais 8 km de ciclovias até 2027, com uma visão mais ampla de expansão da rede, não é apenas mais uma obra pública. É uma decisão estratégica que molda o futuro da cidade. E os dados mostram, de forma quase desconfortavelmente clara, que este é o caminho certo.
Antes de qualquer opinião, vamos aos factos. Com base nos dados operacionais mais recentes, estima-se que Lisboa registe cerca de 11 milhões de viagens anuais de micromobilidade, distribuídas entre operadores de micromobilidade, com aproximadamente 8 milhões de viagens, e o sistema Gira, com cerca de 2,9 milhões.
Quando analisamos a distribuição por freguesia, o padrão é evidente. Existe uma forte concentração nas zonas mais bem servidas de infraestrutura. Mas o mais interessante não é o total. É onde estas viagens acontecem.
É simples: onde há ciclovias, há mobilidade.
As freguesias com maior utilização incluem Avenidas Novas, Arroios, Santa Maria Maior, Misericórdia, Santo António, Parque das Nações e Belém. Estas zonas coincidem com a maior concentração dos principais eixos cicláveis da cidade, incluindo o corredor ribeirinho e o eixo central, que juntos somam várias dezenas de quilómetros de infraestrutura contínua.
Não é por acaso que concentram mais de 60% das viagens de micromobilidade em Lisboa, apesar de representarem uma fração muito inferior do território. A razão é simples: estas zonas reúnem aquilo a que gosto de chamar os três C’s das ciclovias: continuidade, conectividade e condições.
Em contraste, freguesias como Beato, Santa Clara e Ajuda, que contam com menor cobertura de ciclovias, apresentam níveis de utilização significativamente mais baixos. A conclusão é clara: a infraestrutura não segue a procura. A infraestrutura cria a procura.
Lisboa segue a linha de cidades como Amesterdão, Copenhaga, Bruxelas ou Londres, onde o investimento consistente em infraestrutura ciclável está diretamente associado ao aumento da utilização de modos de transporte sustentáveis.
Claro que esta evolução nos leva ao eterno elefante na sala: a segurança. Mas também neste ponto, e segundo dados da PSP e da GNR, foram registados 531 acidentes com trotinetes em 2025. Em perspetiva, com cerca de 11 milhões de viagens num único ano, estamos perante aproximadamente um acidente por cada 20.700 viagens.
Importa ainda referir que estes números incluem diferentes tipologias de utilização e não se limitam necessariamente à micromobilidade partilhada.
Mas mais importante, nem toda a micromobilidade é igual. A micromobilidade privada está a crescer rapidamente, mas sem mecanismos de controlo como limitação de velocidade, geofencing ou gestão de zonas. E, nos dados partilhados pelas autoridades, verificamos que distritos sem operadores de micromobilidade partilhada já apresentam números relevantes de acidentes, o que demonstra que a ausência de regulação tecnológica não elimina o risco. Exemplo prático deste facto é Aveiro, que representa 8,3% dos dados apresentados pelas autoridades.
Por outro lado, os operadores partilhados dispõem de ferramentas que permitem um maior controlo operacional, incluindo limitação de velocidade, definição de zonas permitidas e monitorização contínua.
Talvez por isso, Lisboa, que representa uma parte muito significativa das viagens de micromobilidade do país, concentra apenas cerca de 15% dos acidentes registados, ou seja, 80 acidentes em milhões de viagens anuais, reflectindo um ecossistema mais regulado e profissionalizado.
O ponto essencial é este: quando a infraestrutura não acompanha a procura, o crescimento acontece de forma desordenada, aumentando os riscos. A decisão de expandir a rede ciclável em Lisboa é não só positiva como necessária.
Os dados mostram que onde há infraestrutura, há utilização. Onde há utilização, há impacto real. E onde há impacto, há descarbonização.
O verdadeiro risco não é investir. É não investir.
Lisboa já começou. Agora precisa de acelerar.



