Lisboa está entre as cinco cidades europeias mais poluídas pelos cruzeiros, revela novo estudo

Lisboa é uma das cinco cidades portuárias europeias mais afetadas pela poluição causada pelas emissões de cruzeiros, revela um estudo da Transport & Environment, uma organização ambientalista europeia, referente a 2023.

Revista de Imprensa
Setembro 5, 2024
10:22

Lisboa é uma das cinco cidades portuárias europeias mais afetadas pela poluição causada pelas emissões de cruzeiros, revela um estudo da Transport & Environment, uma organização ambientalista europeia, referente a 2023. Depois de Barcelona, Civita Vecchia (Roma), Pireu (Atenas) e Palma de Maiorca, a capital portuguesa surge com uma das maiores concentrações de óxidos de enxofre (NO2) e partículas finas, diretamente ligadas a doenças respiratórias, cancro do pulmão, problemas cardiovasculares e até a transtornos mentais, como ansiedade e depressão.

Estes elevados níveis de poluição levaram o Tribunal de Justiça da União Europeia a mover uma ação contra Portugal em 2023, alertando para os impactos prejudiciais à saúde pública.

Falta de eletrificação agrava problema
O Porto de Lisboa tem registado um aumento significativo da atividade de cruzeiros nos últimos anos, mas a ausência de infraestruturas elétricas para alimentar os navios atracados agrava a situação. Enquanto permanecem no porto, os navios continuam a queimar combustível para se manterem operacionais, contribuindo para a poluição atmosférica.

Carlos Correia, presidente da Administração do Porto de Lisboa (APL), revela em entrevista ao Diário de Notícias (DN) que a eletrificação do porto, essencial para reduzir as emissões, só deverá estar concluída em 2029. O prazo para a conclusão desta obra coincide com a meta estabelecida por Bruxelas, que obriga à eletrificação dos portos europeus até 2030, no âmbito do regulamento comunitário AFFIR, destinado a reduzir em 50% as emissões de gases com efeito de estufa até esse ano.

Correia garantiu, no entanto, que “os níveis de gases com efeito de estufa na zona do Porto de Lisboa estão dentro dos limites legais ou mesmo abaixo”. Contudo, Pedro Nunes, da organização ambientalista ZERO, alerta que os “limites máximos permitidos são quatro vezes superiores ao que a Organização Mundial de Saúde considera seguro para a saúde humana”. Nesse sentido, o especialista critica o atraso na eletrificação dos portos, sublinhando a urgência de medidas mais eficazes.

Recorde de passageiros em 2023
A atividade de cruzeiros no Porto de Lisboa atingiu o seu melhor registo de sempre em 2023, com mais de 750 mil passageiros, um aumento de 54% face ao ano anterior. O terminal de cruzeiros da capital acolheu um total de 347 navios, dos quais 107 fizeram escalas turnaround, que envolvem operações de embarque e desembarque de passageiros.

Correia salienta ao DN o impacto económico positivo da atividade, indicando que cada euro investido gera um retorno de 3,70 euros, com um impacto direto de 83 milhões de euros. Segundo entrevistas realizadas aos turistas, os gastos variam entre 82 e 400 euros, dependendo se estão apenas em trânsito ou se desembarcam na cidade.

Apesar do contributo económico, a pegada ambiental desta atividade é pesada. Em 2022, os cruzeiros emitiram 509 toneladas de óxidos de enxofre na Europa, mais do que o equivalente à poluição causada por mil milhões de automóveis. O estudo da Transport & Environment destaca que, em comparação com 2019, as emissões de óxidos de enxofre aumentaram em 20%, refletindo o agravamento do problema.

Cruzeiros cada vez maiores, poluição crescente
O aumento da poluição provocada pelos cruzeiros está também relacionado com a crescente popularidade deste meio de transporte e com o aumento da dimensão das embarcações. Atualmente, os maiores navios de cruzeiro são o dobro do tamanho dos que operavam no ano 2000, e a frota mundial passou de 21 navios na década de 1970 para 515 em 2023. A organização ambientalista prevê que, se o crescimento continuar a este ritmo, em 2050 os cruzeiros serão oito vezes maiores que o Titanic e transportarão cerca de 11 mil passageiros.

A Transport & Environment questiona ainda a razão pela qual os cruzeiros continuam isentos de impostos sobre combustíveis, sugerindo que uma taxa de 50 euros por bilhete poderia gerar 1,6 mil milhões de euros a nível global, com 410 milhões arrecadados na Europa, fundos que poderiam ser utilizados para projetos de mobilidade sustentável.

Cidades europeias reagem à poluição dos cruzeiros e tomam medidas
Face aos elevados níveis de poluição e aos impactes negativos na qualidade de vida, várias cidades europeias começaram a limitar a presença de cruzeiros nos seus centros. Veneza foi pioneira ao proibir, em 2021, a atracagem de grandes navios, o que resultou numa redução de 80% das emissões de óxidos de enxofre.

Amesterdão seguiu o exemplo, com a decisão de transferir os cruzeiros para Roterdão até 2035 e reduzir para metade o número de embarcações permitidas no terminal de passageiros. Também Barcelona, o porto mais poluído da União Europeia, está a considerar limitar a entrada de cruzeiros, com a presidente da Câmara, Ada Calau, a defender que a cidade “não beneficia economicamente com as curtas paragens de navios, mas sofre com os problemas de mobilidade e poluição”.

Embora algumas cidades estejam a implementar medidas restritivas, em Lisboa o cenário parece ser diferente. O presidente da APL considera que não há alternativas viáveis para a localização do terminal de cruzeiros e que o investimento recente de 31 milhões de euros ainda não foi amortizado.

Investimento em eletrificação poderá reduzir emissões em 77%
Carlos Correia mostrou-se otimista quanto ao futuro, sublinhando que a eletrificação do terminal de cruzeiros de Lisboa, prevista para 2029, deverá reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 77%, além de diminuir o ruído e as vibrações causadas pelos navios.

A primeira fase do projeto, que prevê a ligação do terminal à rede elétrica, já está em andamento, com um financiamento comunitário de 14 milhões de euros. A segunda fase, que permitirá a ligação dos navios à rede elétrica, será da responsabilidade dos concessionários.

O projeto está a ser acompanhado por um grupo de trabalho criado em 2022, composto por várias entidades, entre as quais a Câmara Municipal de Lisboa e o Ministério do Ambiente, e visa acelerar a implementação das obras.

Apesar dos desafios, Correia acredita que os operadores de cruzeiros têm interesse em reforçar a sustentabilidade da atividade, investindo em navios menos poluentes e promovendo uma economia mais circular no setor.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.