Lisboa amanheceu esta quinta-feira, com mais uma intervenção artística de forte carga política e social. O autor é o conhecido artista urbano português Bordalo II, que surpreendeu os transeuntes ao instalar, em plena Praça do Comércio, um cartaz com a frase “Lisbon For Sale”, numa crítica aberta à crescente mercantilização da cidade e à crise da habitação em Portugal.
A instalação, colocada numa das zonas mais turísticas e movimentadas da capital, simula um anúncio das grandes agências imobiliárias, provocando diretamente os responsáveis pelo aumento do custo de vida e pela escassez de habitação acessível. A ação foi divulgada pelo próprio artista, de 38 anos, através das suas redes sociais, onde partilhou a imagem nos stories do Instagram.
Embora breve, a intervenção não passou despercebida. Esta é a mais recente de uma série de ações do artista nos últimos meses, sempre com uma mensagem crítica subjacente. Em maio, Bordalo II transformou a Praça Duque da Terceira, no Cais do Sodré, num gigantesco tabuleiro de Monopólio, numa instalação intitulada “Provoc”, onde os elementos do jogo refletiam o panorama atual do mercado imobiliário.
“O direito à habitação, presente na Constituição, está agora à mercê da sorte ou do azar”, escreveu na altura. “Alguns jogadores trocam casas por hotéis, uns hipotecam os imóveis à banca, outros são a banca.”
A instalação foi rapidamente removida pela Câmara Municipal de Lisboa, que, em declarações ao jornal Observador, considerou tratar-se de uma “instalação não autorizada” e um “atentado ao património da cidade”, alegando ainda que a obra danificou a calçada portuguesa do local.
Em 2023, uma das intervenções mais comentadas do artista foi a obra “Desalojamento Local”, uma crítica ao excesso de alojamento turístico em Lisboa. Nessa ocasião, Bordalo II instalou no Miradouro de São Pedro de Alcântara quatro tendas pintadas como casas, dando à rua o nome fictício de “Rua das Angústias”. Num sinal de proibição afixado no local, podia ler-se: “Exceto turistas, nómadas digitais e vistos gold”.
A mensagem era clara: denunciar a expulsão dos residentes permanentes das zonas centrais das cidades. “Não critico os turistas, os estrangeiros e muito menos os imigrantes, mas sim a falta de medidas que consigam equilibrar a balança e parar de expulsar as pessoas que realmente vivem nas cidades, transformando-as em gigantes parques de diversões sem alma”, escreveu então o artista nas suas redes sociais.
A nova intervenção “Lisbon For Sale” dá continuidade à abordagem crítica de Bordalo II, que utiliza o espaço público para questionar os modelos de desenvolvimento urbano e o impacto das políticas habitacionais. As reações ainda estão a surgir, mas o impacto visual e simbólico da obra já relançou o debate sobre o acesso à habitação e a identidade das cidades portuguesas.














