Em menos de três meses à frente do Ministério da Administração Interna, Luís Neves determinou o afastamento de 44 elementos das forças de segurança, numa ofensiva disciplinar que atinge 30 militares da GNR e 14 agentes da PSP, em processos que envolvem propostas de expulsão ou suspensão. Em causa estão crimes de elevada gravidade, incluindo peculato, violência doméstica, burla, ofensas à integridade física, abuso sexual de pessoa incapaz de resistência, branqueamento de capitais, corrupção, tráfico de influências, tráfico de seres humanos, sequestro e abuso de poder, num sinal claro de endurecimento da tutela face a comportamentos desviantes no seio das polícias.
Segundo o Público, esta vaga de afastamentos surge num contexto particularmente sensível para as forças de segurança, marcado por sucessivos escândalos, denúncias de violência policial e investigações criminais envolvendo agentes da PSP e militares da GNR. Desde que tomou posse, a 23 de Fevereiro, Luís Neves, antigo director nacional da Polícia Judiciária, assumiu uma linha de “tolerância zero” perante irregularidades internas, prometendo agir com firmeza sempre que fossem detetadas condutas incompatíveis com a missão e os valores das forças de autoridade.
A atualização dos números coincide com o agravamento de um dos casos mais mediáticos dos últimos tempos: a investigação à esquadra do Rato, em Lisboa, onde 24 agentes da PSP são suspeitos de agressões e atos de tortura sobre vítimas vulneráveis, entre toxicodependentes, cidadãos estrangeiros e pessoas em situação de sem-abrigo, entre 2024 e 2025. Catorze agentes foram detidos esta semana, juntando-se a outros nove já em prisão preventiva, enquanto dois elementos seguem já para julgamento, um deles acusado de 29 crimes e outro de sete. A investigação revelou ainda que parte dos episódios de violência terá sido filmada e partilhada num grupo de WhatsApp com cerca de 70 agentes, levantando sérias questões sobre cumplicidade, omissão e cultura de impunidade.
A pressão sobre o sector aumentou também com o caso que, em Novembro, levou à acusação de dez militares da GNR e um agente da PSP por alegado envolvimento numa rede de tráfico de pessoas e exploração laboral em explorações agrícolas de Beja. De acordo com a investigação, elementos das forças de segurança atuariam como capatazes armados, controlando, intimidando e agredindo trabalhadores estrangeiros em troca de compensações financeiras, numa operação que culminou no resgate de centenas de vítimas. A Polícia Judiciária referiu então que os agentes “ameaçavam aqueles cidadãos, dando-lhes a entender que a queixa às autoridades não seria uma alternativa viável para reagir aos abusos”, circunstância que acelerou a decisão ministerial de suspender funções.
Perante a sucessão de casos, ganha também força o debate sobre o reforço da fiscalização externa das polícias. Nesse âmbito, a Inspeção-geral da Administração Interna pretende passar a poder instaurar autonomamente processos disciplinares e determinar suspensões preventivas sem necessidade de autorização ministerial, uma alteração defendida como essencial para aumentar o escrutínio e a capacidade de resposta disciplinar. Até lá, a actuação de Luís Neves já representa uma das mais expressivas vagas de afastamentos disciplinares de agentes da PSP e da GNR num tão curto espaço de tempo, num momento em que a credibilidade das forças de segurança está sob forte pressão pública e institucional.





