Na edição deste fim de semana do Festival Eurovisão da Canção, os europeus aproveitaram a janela de oportunidade para mostrar a sua solidariedade para com a Ucrânia, consagrando como vencedora. Mas longe do entusiasmo pela entrada vencedora da Ucrânia no festival, as capitais mais poderosas do continente europeu começaram a cantar a partir de uma folha de música diferente.
Após semanas de preocupação sobre o que aconteceria se a Rússia esmagasse a Ucrânia, os líderes da Europa Ocidental estão agora ‘preocupados’ com o que pode acontecer se a Ucrânia realmente vencer o conflito. Os recentes sucessos das tropas ucranianas em alguns dos territórios ocupados levou a que os líderes de França, Alemanha e Itália tivessem concluído que uma vitória da Ucrânia, antes impensável, é agora uma possibilidade distinta, segundo revelou o jornal ‘POLITICO’.
Mesmo que os líderes europeus simpatizem publicamente com a luta da Ucrânia e, em alguns casos, tenham feito grandes esforços para apoiar o país, eles também temem que o que o presidente francês Emmanuel Macron na semana passada chamou de “humilhação” da Rússia possa criar todo um novo conjunto de problemas – uma grande preocupação é que uma vitória ucraniana possa desestabilizar a Rússia, tornando-a ainda mais imprevisível e coloque a normalização das ligações energéticas ainda mais fora de alcance. Esse é o motivo pelo qual algumas capitais europeias do Ocidente são discretamente favoráveis a uma solução para o conflito que ‘salve a face’ da Rússia, sobretudo de Vladimir Putin, mesmo que para isso acabe por custar algum território à Ucrânia.
Mesmo que Macron e o chanceler alemão Olaf Scholz tenham dito repetidamente que caberia à Ucrânia determinar as condições para a suspensão das hostilidades, recentemente sublinharam a sua preferência por um cessar-fogo, mais cedo ou mais tarde. “Não estamos em guerra com a Rússia”, apontou Macron, no seu discurso no Parlamento Europeu em Estrasburgo, na semana passada, enfatizando que o “dever da Europa é ficar com a Ucrânia para alcançar um cessar-fogo e depois construir a paz”.
Macron também declarou que, uma vez alcançada a paz, a Europa teria de construir “novos equilíbrios de segurança” – uma farase que terá feito disparar os alarmes nos países da Europa Central e Oriental, que foi traduzida como um código para ‘recompensar’ Putin. Scholz fez uma nota semelhante durante uma longa conversa telefónica com o presidente russo, Vladimir Putin, na passada sexta-feira. Através do Twitter, o responsável político germânico apontou ter discutido três pontos com o presidente russo, o primeiro dos quais foi: “Deve haver um cessar-fogo na Ucrânia o mais rápido possível.”
A exigência de que a Rússia recue imediatamente e retire todas as suas forças do território ucraniano não esteve entre os três pontos. Numa entrevista este fim de semana com a agência de notícias alemã T-Online, Scholz, que atrasou o envio de armamento pesado para a Ucrânia, frisou que a Alemanha vai continuar a apoiar as sanções contra a Rússia enquanto repetiu o seu pedido por uma solução diplomática.
Em Itália, depois do encontro com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em Washington, na semana passada, o primeiro-ministro Mario Draghi também apontou ser hora de começar a pensar num acordo de paz. “Concordamos que devemos continuar a apoiar a Ucrânia e a pressionar Moscovo, mas tambem começamos a perguntar como construir a paz”, explicou aos jornalistas, acrescentando que o esforço também deve incluir a Ucrânia. “As pessoas querem pensar na possibilidade de um cessar-fogo e recomeçar algumas negociações credíveis. Essa é a situação agora. Acho que temos de pensar profundamente em como lidar com isso”, declarou Draghi.
Mesmo tendo garantido o seu apoio à Ucrânia, o facto de os líderes de três dos maiores países da União Europeia terem adotado pontos de vista quase idênticos sobre negociações de paz sugere que estarão a pressionar os líderes ucranianos para a mesa das negociações, uma pretensão que, até agora, o presidente ucraniano Zelensky não aceitou. “Queremos que o exército russo deixe a nossa terra – não estamos em solo russo”, explicou, em entrevista à emissora pública italiana RAI na passada quinta-feira. “Não vamos ajudar Putin a salvar a face com o nosso território. Isso seria injusto”, apontou, acrescentado que Macron procurava “uma saída para a Rússia em vão”.
As autoridades ucranianas argumentaram que qualquer concessão a Moscovo no território – incluindo a Crimeia – abriria as portas para futuras incursões russas no seu território.
A posição dos líderes europeus contraste com a política dos Estados Unidos – para o secretário de Defesa Lloyd Austin, após uma visita a Kiev no final de abril, Washington acredita que a Ucrânia “pode vencer”, sublinhando que, embora os EUA acreditem que o conflito será resolvido através da diplomacia, a prioridade da Casa Branca continua a ser ajudar a Ucrânia a defender-se. “O nosso foco hoje é fortalecer a mão da Ucrânia o máximo possível no campo de batalha, para que, quando chegar a hora, a Ucrânia tenha o máximo de influência possível na mesa de negociações.”
Mesmo assim, as divisões entre os maiores países da Europa, os membros orientais da UE e os EUA são notáveis e não se limitam apenas à classe política. Uma sondagem recente em 27 países ocidentais revelou que o apoio ao envolvimento diplomático contínuo com a Rússia era significativamente mais forte na Itália, Alemanha e França do que nos EUA ou na Polónia. A mesma tendência foi observada na questão da ajuda militar para a Ucrânia, com apoio mais fraco nos grandes países da Europa Ocidental.
Giuseppe Conte, ex-primeiro-ministro italiano, referiu que a UE precisa de uma “estratégia mais ponderada”. “Toda a UE, após esta fase inicial em que ajudámos com ajuda militar, deve concentrar-se nas negociações e pressionar por uma solução política”, explicou. Embora seja importante que a Europa não “baixe a guarda” em relação a Putin, Conte disse que a UE também não deve perder de vista uma realidade básica: “A Rússia está lá e permanecerá lá.”










