Mojtaba Khamenei, recém-eleito líder supremo do Irão, reapareceu publicamente depois de mais de dois meses de ausência, tentando consolidar o poder interno e unificar as diversas fações do regime frente às negociações em curso com os Estados Unidos. Desde a morte do seu pai, o falecido ayatollah Ali Khamenei, em ataques iniciais do conflito, Mojtaba manteve-se quase em clandestinidade, comunicando apenas por mensagens escritas, sem permitir qualquer registo audiovisual, o que alimentou especulações sobre a sua saúde e capacidade de liderança.
Segundo o El Español, o presidente iraniano Masud Pezeshkian revelou ter mantido um encontro “completamente sem mediadores” com Mojtaba Khamenei, durante duas horas e meia. Pezeshkian descreveu a reunião como um momento de diálogo direto e de confiança: “O que mais me chamou a atenção foi a sua perspetiva e a sua conduta profundamente sincera e humilde, um enfoque que transformou o ambiente em um de confiança, calma, empatia e diálogo direto”, afirmou. A revelação desta reunião não só parece confirmar que Khamenei está ativo e funcional, como também indica a sua intenção de aproximar o governo civil e a ala militar, representada pela Guarda Revolucionária, que em várias ocasiões questionou a flexibilidade das negociações conduzidas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi.
Tentativa de unidade interna fortalece posição negociadora do Irão
A visita de Pezeshkian sugere que Mojtaba Khamenei procura criar uma frente interna coesa, capaz de responder de forma uniforme às propostas norte-americanas. A tensão interna entre a ala civil do governo e elementos da Guarda Revolucionária tornou-se evidente na primeira ronda de negociações em Islamabad, onde Mohammad Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento e ex-comandante dos Guardiões da Revolução, chegou a ameaçar renunciar como negociador principal. Esta situação demonstra que o novo líder supremo encara a unificação das facções como condição essencial para manter a credibilidade do Irão no tabuleiro diplomático, especialmente face à pressão de Washington.
O presidente Pezeshkian deixou claro que o Irão não regressará à mesa de negociações enquanto persistir o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos. Esta exigência contrasta com a visão de Donald Trump, que tem celebrado as conversações recentes como “as melhores e mais produtivas” das últimas semanas. A proposta atualmente em discussão aproxima-se do plano nuclear de 2015 — JCPOA — prevendo uma moratória no enriquecimento de urânio, levantamento de sanções económicas, desbloqueio de fundos iranianos congelados e remoção parcial das restrições à navegação pelo estreito de Ormuz. Contudo, persistem divergências quanto ao alcance das limitações nucleares, com Washington a exigir medidas mais radicais, incluindo desmantelamento de instalações nucleares subterrâneas e suspensão prolongada do enriquecimento, condições que o Irão rejeita.
Pressão regional e complicações para a Casa Branca
A situação é ainda mais complexa devido à posição dos aliados do Golfo, como Emirados, Arábia Saudita, Bahrein e Qatar, que pretendem que o Irão seja “militarmente degradado ao ponto de não representar ameaça”. A influência da Arábia Saudita, particularmente do príncipe herdeiro Mohamed bin Salmán, torna-se decisiva: sem o seu espaço aéreo e bases, os Estados Unidos não conseguem operar eficazmente na região. Recentes operações militares norte-americanas, como o chamado “Projeto Liberdade”, evidenciaram a dependência da Casa Branca do apoio logístico e militar dos aliados do Golfo, sendo que o bloqueio saudita ao espaço aéreo levou à interrupção de operações em menos de 36 horas.
A leitura interna do regime iraniano é clara: Donald Trump enfrenta agora um interlocutor mais sólido e mais coeso. Segundo informações do Washington Post e de agências de inteligência norte-americanas, o Irão pode resistir economicamente entre 90 e 120 dias adicionais ao bloqueio imposto pelos EUA antes de enfrentar dificuldades graves, dando margem para adiar um acordo desfavorável. Esta capacidade de resistência económica, aliada à unificação das fações internas, permite a Teerão jogar com a paciência de Washington, equilibrando pressão militar, diplomática e económica para garantir que qualquer acordo futuro seja negociado em condições vantajosas para o país.













