Libertação histórica de petróleo pela AIE pode não travar subida em flecha dos preços dos combustíveis

O aumento das tensões no Médio Oriente e os riscos de interrupção do transporte de petróleo através do Estreito de Ormuz estão a gerar receios de uma das maiores crises de abastecimento de sempre.

Pedro Gonçalves

A decisão da Agência Internacional da Energia (AIE) de libertar uma quantidade recorde de petróleo das reservas estratégicas dos países membros está a ser encarada como um passo histórico, mas vários analistas alertam que a medida poderá não ser suficiente para travar a forte subida dos preços do crude nos mercados internacionais. O aumento das tensões no Médio Oriente e os riscos de interrupção do transporte de petróleo através do Estreito de Ormuz estão a gerar receios de uma das maiores crises de abastecimento de sempre.

A AIE anunciou a libertação de 400 milhões de barris de petróleo provenientes das reservas estratégicas dos 32 países membros, numa decisão tomada por unanimidade. Trata-se da maior operação deste tipo alguma vez realizada, superando amplamente os 182,7 milhões de barris libertados em 2022 na sequência da guerra na Ucrânia.

Apesar da dimensão da iniciativa, os mercados reagiram com cautela. No próprio dia do anúncio, o preço do Brent subiu 4,7%, e no dia seguinte continuou a aumentar até atingir 100 dólares por barril. A escalada ocorreu após a própria AIE reconhecer, no relatório publicado na quinta-feira, que o mundo poderá enfrentar a maior queda de fornecimento de petróleo da história recente.

Segundo o relatório da AIE, o mercado petrolífero poderá sofrer uma redução abrupta da oferta global. Apenas no mês de março, a produção mundial poderá cair para 98,8 milhões de barris por dia, o que representa uma diminuição de 8 milhões de barris diários em relação às estimativas anteriores. Esta quebra corresponderia a cerca de 7,5% do fornecimento mundial.

Grande parte das preocupações está relacionada com a instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do petróleo comercializado no mundo. A possibilidade de interrupções nesta rota marítima estratégica tornou-se mais concreta após declarações do novo líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, que afirmou que “o Irão não se absterá de vingar o sangue dos seus mártires” e acrescentou que o estreito “deve permanecer fechado”, considerando-o “uma ferramenta para pressionar o inimigo”.

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O eventual encerramento total desta passagem marítima teria consequências profundas, já que por ali transitam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, tornando-a uma das artérias mais críticas do comércio energético mundial.

Mercados duvidam da eficácia da medida
Especialistas consideram que a libertação de reservas estratégicas, apesar da sua dimensão inédita, poderá não compensar a perda de fornecimento provocada por um eventual bloqueio ou perturbação prolongada na região do Golfo.

Analistas do banco neerlandês ING questionaram mesmo o impacto imediato da decisão, observando que os preços continuaram a subir apesar do anúncio. Segundo os especialistas, existe uma preocupação crescente nos mercados quanto à velocidade com que o petróleo libertado chegará efetivamente ao mercado e se será suficiente para compensar as perdas de abastecimento associadas à situação no Estreito de Ormuz.

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De acordo com os cálculos apresentados pelo banco, as quantidades já anunciadas por diferentes países — incluindo os Estados Unidos — equivalem a uma libertação de cerca de 3,3 milhões de barris por dia, um valor bastante inferior às perdas potenciais de fornecimento associadas à crise atual.

O problema não é apenas a quantidade, mas o ritmo
Outro fator apontado pelos especialistas é a velocidade com que as reservas estratégicas podem ser introduzidas no mercado. Analistas do banco italiano UniCredit consideram que a libertação de petróleo poderá compensar o fornecimento perdido no Médio Oriente apenas durante um período limitado.

Num relatório anterior à decisão final, o banco estimava que uma libertação de cerca de 350 milhões de barris permitiria substituir o petróleo da região durante aproximadamente 140 dias. Ainda assim, os analistas sublinham que recorrer a reservas estratégicas tem implicações negativas importantes para o mercado energético.

Segundo o relatório, mesmo que exista petróleo suficiente para substituir temporariamente a oferta perdida, a redução das reservas estratégicas pode gerar novas preocupações entre investidores e compradores, uma vez que evidencia a gravidade da crise e aumenta a perceção de vulnerabilidade a futuras perturbações no abastecimento.

Uma análise semelhante foi apresentada pela consultora económica Capital Economics. Os especialistas defendem que o recurso a reservas estratégicas é eficaz apenas no curto prazo e alertam que um conflito prolongado no Golfo Pérsico poderá provocar perdas de fornecimento superiores às reservas disponíveis.

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O analista energético Hamad Hussain sublinha que a capacidade real de libertação de petróleo é limitada e que, historicamente, nunca foram disponibilizados mais de 2,5 milhões de barris por dia a partir das reservas da AIE. Na sua avaliação, mesmo atingir 5 milhões de barris diários seria difícil sem provocar distorções adicionais no mercado, acrescentando que, num cenário relativamente favorável, a perda de fornecimento poderia atingir 10 milhões de barris por dia durante um mês, um volume muito superior à capacidade de compensação das reservas.

Estreito de Ormuz continua a ser o maior risco
Outras estimativas reforçam este diagnóstico. A consultora Rapidan Energy Group calcula que os países membros da AIE poderiam disponibilizar entre 2 e 3 milhões de barris por dia a partir das reservas estratégicas em caso de perturbação no Estreito de Ormuz. Esse volume corresponderia apenas a cerca de um sexto das exportações combinadas dos países do Golfo Pérsico.

A empresa estima que os Estados Unidos poderiam contribuir com cerca de 1 milhão de barris diários, enquanto Europa e Ásia conseguiriam fornecer entre 1 e 2 milhões adicionais.

Também a consultora Ballast Markets considera que as reservas estratégicas globais apenas conseguiriam compensar parcialmente a escassez provocada por um eventual bloqueio total da rota marítima, estimando que poderiam cobrir parte do défice durante 60 a 90 dias se fossem libertadas ao ritmo máximo.

Além disso, os especialistas alertam para um obstáculo técnico adicional: o tipo de petróleo armazenado nas reservas estratégicas pode não ser totalmente compatível com algumas refinarias asiáticas, muitas delas concebidas para processar petróleo pesado proveniente da Arábia Saudita.

China surge como possível fator decisivo
Entre os analistas, cresce também a convicção de que o verdadeiro fator capaz de influenciar os preços do petróleo poderá ser a estratégia da China.

Segundo estimativas da Capital Economics, o país asiático acumulou ao longo dos últimos anos entre 1,1 mil milhões e 1,4 mil milhões de barris de petróleo em reservas estratégicas e comerciais. A empresa de análise energética Kpler aponta para o valor mais elevado como cenário base, o que representaria aproximadamente três vezes mais reservas do que as existentes nos Estados Unidos.

De acordo com os analistas, as decisões tomadas por Pequim poderão desempenhar um papel crucial no equilíbrio entre oferta e procura no mercado petrolífero. Mesmo sem libertar petróleo das suas reservas, uma simples redução no ritmo de acumulação de barris poderia diminuir significativamente a pressão sobre os preços.

Até agora, as autoridades chinesas recorreram às reservas estratégicas apenas uma vez, numa libertação experimental de 7,4 milhões de barris, destinada a testar o funcionamento do sistema.

A estrutura do sistema energético chinês poderá também ajudar a limitar o impacto da crise. Nos últimos anos, o país aumentou gradualmente o peso das energias renováveis, que representam cerca de 7,5% do seu mix energético, mas continua a depender sobretudo do carvão, responsável por aproximadamente 60% do consumo energético, enquanto o petróleo e o gás representam cerca de 25%.

Neste contexto, o economista Larry Hu, diretor de economia chinesa do Macquarie Group, considera que “o impacto a curto prazo é limitado e pode ser amortecido”, estimando que mesmo com o petróleo a atingir 100 dólares por barril a inflação ao consumidor na China aumentaria apenas cerca de 1%.

Apesar da libertação recorde de petróleo das reservas estratégicas, a maioria dos especialistas concorda que a medida apenas poderá proporcionar um alívio temporário aos mercados.

A evolução dos preços continuará fortemente dependente do desenrolar do conflito no Médio Oriente e, sobretudo, da situação no Estreito de Ormuz. Enquanto persistirem dúvidas sobre a estabilidade da região e sobre a segurança das rotas de transporte energético, o mercado petrolífero deverá continuar sujeito a fortes oscilações.

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