LG quer introduzir 47 milhões de abelhas na Península Ibérica em campanha ambiental: especialistas garantem que não é uma boa ideia

Aquela que parecia ser uma campanha de marketing perfeita, amiga do ambiente, teve no entanto um senão: para os especialistas, libertar tantos milhões de abelhas está longe de ser uma boa ideia

Francisco Laranjeira

A LG lançou o desafio de plantar 47 milhões de árvores em Espanha, uma por cada habitante, em 2017 – até ao momento foram plantadas 5 milhões.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

No entanto, a empresa de eletrónica de consumo lançou-se noutro desafio ambiental: repovoar a Península Ibérica com 47 milhões de exemplares de abelhas ibéricas (‘Apis mellifera iberiensis’). Para a multinacional, sediada na Coreia do Sul, o objetivo passa por recuperar a espécie em declínio mas também “promover a expansão e recuperação dos nossos ecossistemas”.

Aquela que parecia ser uma campanha de marketing perfeita, amiga do ambiente, teve no entanto um senão: para os especialistas, libertar tantos milhões de abelhas está longe de ser uma boa ideia.

Para Concepción Ornosa, professora e investigadora da Universidade Complutense de Madrid, a ideia de introduzir as espécies autóctones é atrativa mas devem ser substituídas por abelhas que perecem todo os anos e não se repovoam massivamente – a especialista alertou para o perigo “de introduzir de forma exagerada” esta subespécie. “Se se colocarem 47 milhões de uma única espécie na natureza, vai-se gerar uma competição que vai afetar todas as outras espécies de abelhas silvestre, insetos e borboletas que já habitam no local”, apontou.

“Também já foi demonstrado que espalham fungos e vírus para outras abelhas e o fazem através das flores que polinizam, tornando-se transmissores de patógenos”, explicou a especialista.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

O projeto é da empresa tecnológica ‘Smart Green Bees’. “Teremos 900 colmeias, que queremos alcançar entre 2 e 3 anos, de forma dispersa, por território espanhol. Até ao momento, montámos 45 colmeias, com 250 mil abelhas no total”, frisou Paola Vecino, bióloga da empresa.

Na Europa existem 9 milhões de colmeias, sendo que 3 milhões situam-se em Espanha. “Tal como uma quinta não afeta o ecossistema, um milhão de explorações agrícolas afetam. Uma colmeia não é significativa, mas milhões de colmeias são percetíveis na natureza. Em ambientes degradados é uma pressão adicional”, revelou o zoólogo e entomologista Félix Torres, professor da Universidade de Salamanca, em declarações ao jornal espanhol ‘El País’.

Existem mais de 17 mil espécies de abelhas no mundo, explicou Ornosa, e todas elas são excelentes polinizadoras de culturas e plantas silvestres. A abelha que estão a introduzir neste projeto é a ‘Apis mellifera iberiensis’, uma subespécie endémica da Península Ibérica e que faz parte do grupo das abelhas melíferas. O que não é boa ideia, frisou Ignasi Bartomeu.

“Em Espanha há mil espécies de abelhas, o dobro das aves, e estão a ser afetadas pelas alterações climáticas e pela ação humana. Se a ideia é proteger os polinizadores, é errada – seria a mesma coisa que cuidar das aves em Espanha colocando galinhas”, referiu o investigador do CSIC na Estação Biológica de Doñana, que no entanto incentivou à ação.

“As abelhas selvagens estão em perigo de extinção, mas ainda estão [aqui]: embora as suas populações estejam a diminuir, podem voltar a subir. É um sinal muito claro e é tempo de agir. É importante manter uma variedade de raças, pois cada uma tem um ‘pool’ genético diferente que é um ‘colchão’: se vier um vírus e tivermos apenas um tipo de abelha, perderíamos toda a espécie”.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.