Durante três dias, Penafiel deixa de ser apenas cidade anfitriã. As ruas, a serra, a variante e os espaços públicos passam a funcionar como palco de competição, exposição, música, restauração e encontro entre pilotos e público. É esta lógica — levar os motores para junto das pessoas, em vez de esperar que as pessoas se desloquem até aos motores — que Óscar Coelho, da organização do Penafiel Racing Fest, descreve como o ponto de viragem do evento.
“O intuito de levar as corridas às pessoas e não esperar que as pessoas vão às corridas foi, sem dúvida, o toque de mágica que este evento trouxe ao panorama nacional”, afirma o responsável da organização, em entrevista à ‘Executive Digest’.
A 8.ª edição do Penafiel Racing Fest arranca hoje e prolonga-se até domingo, juntando seis modalidades âncora, milhares de visitantes, centenas de pilotos e equipas, atividades para famílias e uma ambição que já não cabe apenas no calendário nacional.
A organização é conjunta da Câmara Municipal de Penafiel e da CDDC — Cooperativa para o Desenvolvimento Desportivo e Cultural, em parceria com clubes e associações do concelho. O programa cruza ralis, SuperEnduro, Trial 4×4, Drag Racing, motos clássicas, automóveis clássicos, atividades “family friendly”, concertos, DJs, praça da alimentação e parque de exposições dedicado ao universo motorizado.
Mas a história que distingue o Penafiel Racing Fest vai além da lista de provas. O evento nasceu, em 2017, como uma homenagem aos pilotos da região do Tâmega e Sousa, em especial aos do concelho de Penafiel. O conceito urbano surgiu precisamente para aproximar esses pilotos das suas modalidades, dos espectadores, das famílias e dos amigos que, por norma, não se deslocam às serras ou às zonas mais afastadas para assistir a este tipo de espetáculo.
A cidade que virou circuito
A fórmula transformou Penafiel numa espécie de circuito urbano multimodalidade. O Rally da Taça Joaquim Santos mantém-se como o grande símbolo do programa, mas o festival alarga-se ao SuperEnduro urbano, organizado pelo Brenha Off-Road, ao Trial Extremo 4×4, com prólogo no centro da cidade e prova na Serra da Brenha, ao Drag Racing na Variante do Cavalum, às corridas de motos 50cc Clássicas e 85cc no Circuito do Sameiro e ao Passeio de Automóveis Clássicos do Clube Penafidelense de Automóveis Antigos.
Para quem organiza, esta proximidade é precisamente o que tornou o evento diferente. “Foi criado com este conceito urbano para aproximar os pilotos e as suas modalidades dos espectadores, familiares e amigos”, explica Óscar Coelho. O objetivo inicial era local, mas a notoriedade cresceu rapidamente. Segundo o responsável, o festival já recebeu pilotos de cerca de oito nacionalidades nas várias modalidades.
A internacionalização, diz, aconteceu de forma quase natural, mas ainda há passos a dar para que o Penafiel Racing Fest se torne uma referência incontornável a nível europeu. “Há bastantes fatores a ter em conta. Em primeiro lugar, o espaço físico, para que pudéssemos acolher um maior número de inscritos sem perder a qualidade e a mobilidade do paddock, e, em segundo, uma aposta forte na divulgação do evento além-fronteiras”, sublinha.
O impacto que vai além dos hotéis
O efeito mais imediato do festival vê-se na restauração, na hotelaria e no movimento acrescido da cidade. Mas, para Óscar Coelho, esse é apenas o lado mais visível. “O impacto é gigante”, afirma. Durante o fim de semana, Penafiel recebe espectadores de várias zonas da Península Ibérica, ocupando unidades hoteleiras e gerando movimento no comércio e na restauração.
A leitura da organização, porém, é mais ampla. A região é apresentada como um território com forte ligação ao setor motorizado, não apenas pelo número de pilotos e equipas, mas também pela presença de empresas, preparadores e mão de obra especializada em áreas como engenharia mecânica, eletrónica, estruturas e metalomecânica.
“Esta vertente empresarial não é muito visível para o público menos atento aos desportos motorizados, mas é um marco muito forte na projeção dos nossos especialistas”, defende Óscar Coelho. Para a organização, o Penafiel Racing Fest funciona também como montra dessa capacidade técnica, mostrando que a região consegue produzir, manter e desenvolver veículos e estruturas competitivas ao mais alto nível.
É por isso que o festival não se resume à festa dos motores. Serve para projetar pilotos, equipas, empresas, especialistas e a própria marca Penafiel. A cidade ganha movimento imediato, mas a região ganha também exposição numa área onde, segundo a organização, já tem competências reconhecidas a nível nacional e internacional.
Joaquim Santos, a memória que ainda acelera Penafiel
No centro emocional do evento continua a estar o Rally da Taça Joaquim Santos. Para Óscar Coelho, é “o evento rei” do Penafiel Racing Fest e uma homenagem que ajuda a explicar a identidade do festival.
Manter viva a memória de Joaquim Santos, piloto penafidelense e tetracampeão nacional de ralis, é visto pela organização como uma declaração de orgulho regional. “Manter viva a memória do Joaquim Santos, que foi uma figura muito querida a nível nacional e inspirou no início dos anos 80 todas as gerações futuras de pilotos, é como que um statement da região de que somos feitos de uma fibra diferente”, afirma.
A força simbólica está no percurso. Óscar Coelho recorda que Joaquim Santos veio de uma família humilde e de uma pequena comunidade, mas conseguiu tornar-se uma das grandes figuras do automobilismo nacional e medir forças com nomes de dimensão internacional.
“Depois disso, acho que todos criaram a expectativa de que, se ele pode estar naquele nível, todos podemos almejar chegar lá”, acrescenta. É neste ponto que a homenagem deixa de ser apenas memória e passa a funcionar como motor de ambição para pilotos, equipas e aficionados da região.
O espetáculo está perto do público. O risco também
Levar modalidades exigentes para o centro da cidade cria impacto, mas também aumenta a complexidade. A organização assume que os desafios são “gigantes”, sobretudo nas áreas da logística, operação e segurança.
“Inquestionavelmente, a segurança do público e dos participantes é o maior desafio e a principal prioridade da organização”, sublinha Óscar Coelho. Num evento urbano, a proximidade é parte do espetáculo, mas exige controlo, planeamento e intervenção técnica das federações.
Segundo o responsável, o apoio das federações de cada modalidade, bem como dos respetivos observadores de segurança de nível internacional, é decisivo para garantir o bom desenrolar das competições em ambiente urbano.
A aposta em provas próximas do público ajudou também a inspirar outros eventos. Óscar Coelho diz que, nos últimos anos, nasceram projetos noutras cidades tendo o Penafiel Racing Fest como referência. “Muito nos orgulha a todos e aos quais nunca negamos o nosso apoio”, afirma.
O festival que já não é só para aficionados
Apesar da força competitiva, o Penafiel Racing Fest não quer falar apenas para quem conhece cada modalidade em detalhe. Desde a primeira edição, a organização procurou criar um conceito “family friendly”, capaz de integrar crianças, jovens, famílias e até pessoas com necessidades especiais.
Na Fun Zone, regressam atividades como Street Basket 3×3, Radiomodelismo, Corrida dos Lentos, Racing4All e McDonald’s Rally Kids. A estas juntam-se zonas de exposição, praça da alimentação, clubes, empresas ligadas ao mundo motorizado e o Palco PRF, com DJs, bandas e animação ao longo do fim de semana.
Óscar Coelho explica que esta dimensão não surgiu por acaso. “Desde a primeira edição, em 2017, tivemos esse cuidado em criar o conceito ‘family friendly’ com o radiomodelismo e o Rally Kids de carrinhos a pedais”, recorda. Passados dez anos e oito edições, estas atividades estão consolidadas dentro do evento.
A lógica é simples: manter a competição séria, federada e tecnicamente exigente, mas criar em redor dela um ambiente de festival. “As seis modalidades âncora em competição séria, renhida e federada, cumprindo os mais altos padrões da FPAK e da FMP, são o motor deste festival”, afirma. Mas o programa é desenhado para que nem todos tenham de ser especialistas em motores para se sentirem parte do evento.
Onde está a ousadia de 2026
A organização descreve o Penafiel Racing Fest como irreverente e ousado. Em 2026, essa irreverência nem sempre estará imediatamente visível para o público, admite Óscar Coelho. Em muitos casos, estará nas pistas e nos detalhes preparados para os pilotos e atletas.
“As dificuldades das pistas foram redesenhadas em algumas modalidades com vista a criar mais momentos ‘UAU’ e de espetáculo para o imenso público que nos visita e segue fielmente”, explica.
As expectativas estão especialmente elevadas no Rally da Taça Joaquim Santos, pela qualidade dos pilotos e carros inscritos, no SuperEnduro, pelas alterações da pista, e no Trial 4×4, que poderá proporcionar “um espetáculo colossal” na Serra da Brenha, caso a meteorologia o permita.
Fora da competição, uma das novidades passa pela nova gestão do Palco PRF, entregue à equipa do PontoC. Para Óscar Coelho, essa aposta é uma garantia de espetáculos e artistas de qualidade, reforçando a vertente cultural do evento.
Crescer sem perder a fórmula
Depois de oito edições, a pergunta já não é apenas se o Penafiel Racing Fest pode crescer. A organização admite que o evento está próximo de alguns limites físicos e operacionais. As listas de inscritos estão cheias, o público ocupa a cidade e a hotelaria da região sente o impacto.
Por isso, o objetivo passa menos por crescer em volume e mais por consolidar a experiência. “O principal objetivo da organização conjunta da CDDC e do município de Penafiel é projetar os nossos pilotos, os nossos especialistas, as nossas empresas e a marca Penafiel”, afirma Óscar Coelho.
O responsável defende que reforçar a projeção internacional, sobretudo junto de pilotos, equipas e público espanhol, será fundamental para o futuro. A ambição europeia existe, mas depende de espaço, divulgação além-fronteiras e investimento.
“Após oito edições, o Penafiel Racing Fest já se afirmou como o evento mais eclético da Europa dentro dos desportos motorizados”, sustenta Óscar Coelho. A frase é ambiciosa, mas ajuda a perceber a dimensão com que a organização olha para o projeto.
O passo seguinte poderá passar pela profissionalização da equipa, pela captação de marcas e empresas com capacidade de investimento em marketing ou até pela criação de infraestruturas que respondam às necessidades dos clubes e associações ligados aos desportos motorizados de alta competição.
Penafiel, por agora, volta a fazer aquilo que tornou o festival diferente: transformar a cidade num palco onde motores, memória, economia local, famílias e espetáculo se encontram. O evento já não parece estar a tentar provar que Penafiel pode receber um grande festival motorizado. A questão, agora, é até onde pode levar essa fórmula urbana, popular e tecnicamente complexa.




















