Leão XIV chega hoje a Espanha: a primeira viagem do Papa entra numa semana de política, migração e fé

Sob o lema ‘Levantai o olhar’, Leão XIV deverá percorrer quase 2.500 quilómetros até 12 de junho

Francisco Laranjeira

O Papa Leão XIV inicia este sábado a sua primeira viagem apostólica a Espanha, numa visita de seis dias que combinará celebrações religiosas, encontros institucionais e momentos de forte carga política e social. Madrid, Barcelona, Montserrat, Gran Canária e Tenerife fazem parte de uma agenda com mais de 20 atos oficiais, 12 discursos e cinco missas, numa deslocação acompanhada com grande expectativa por ser a primeira visita de um Papa a Espanha em 15 anos.

Sob o lema ‘Levantai o olhar’, Leão XIV deverá percorrer quase 2.500 quilómetros até 12 de junho. A viagem começa em Madrid, com chegada prevista ao aeroporto Adolfo Suárez Madrid-Barajas às 10h30, seguindo depois para o Palácio Real, onde será recebido pelos reis de Espanha e fará o primeiro discurso perante autoridades civis e corpo diplomático.

A agenda na capital espanhola inclui uma oração mariana na catedral de Almudena, uma missa multitudinária na Praça de Cibeles, uma vigília com jovens e um encontro com a comunidade diocesana no estádio Santiago Bernabéu. O Papa deverá ainda visitar um centro da Cáritas, num primeiro contacto com pessoas em situação de sem-abrigo.

O Papa no Parlamento espanhol pela primeira vez

Um dos momentos politicamente mais relevantes será a visita ao Congresso dos Deputados. Será a primeira vez que um pontífice participa num ato deste tipo no Parlamento espanhol, discursando perante a câmara baixa num momento em que Espanha vive um clima político fortemente polarizado.

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A expectativa em torno desse discurso é elevada. A viagem acontece num país marcado por divisões políticas profundas, pelo debate em torno da habitação, da saúde, da educação e da migração, e por uma disputa crescente sobre o lugar da Igreja e dos católicos na vida pública. Uma análise enviada sobre a visita sublinha precisamente esse contexto de polarização, descrevendo uma Espanha em que partidos e governos tentam também disputar politicamente a presença do Papa.

Fernando Nistal, diretor do Centro de Análise Social, antecipa que Leão XIV deverá procurar uma mensagem “mais acima da política”, assente em concórdia, diálogo, entendimento e paz. Ainda assim, admite que cada partido tentará aproveitar a parte do discurso que mais lhe interessar.

Canárias colocam migração no centro da viagem

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O momento mais social da visita deverá acontecer nas Canárias, arquipélago que receberá pela primeira vez uma deslocação papal oficial. Leão XIV vai encontrar-se com migrantes num dos principais pontos de chegada à Europa de pessoas provenientes do continente africano.

A visita coincide com o período de regularização extraordinária de imigrantes decretado pelo Governo espanhol, uma medida também defendida pela Igreja Católica espanhola e que provocou confronto direto com o Vox, terceira força política do país. O partido de extrema-direita tem defendido o princípio de ‘prioridade nacional’, segundo o qual os espanhóis devem ter preferência no acesso a serviços e apoios públicos.

Leão XIV tem adotado uma posição clara sobre o tema migratório. O Papa defendeu recentemente que os migrantes devem ser tratados de “forma digna”, sublinhando que são seres humanos e merecem respeito pela dignidade humana.

Na Gran Canária, o Papa deverá deslocar-se ao porto de Arguineguín, que ficou conhecido em 2020 como o ‘cais da vergonha’, devido às condições em que milhares de pessoas foram ali concentradas após chegarem por mar. A organização da visita quer agora transformar simbolicamente esse espaço no ‘porto da esperança’.

Cerca de 1.800 migrantes deverão estar no local para receber Leão XIV. Estão previstos testemunhos, uma homenagem aos mortos no mar e a quem salva vidas, incluindo pescadores das ilhas. Será ainda benzida uma cruz feita com madeira de pateras, as embarcações usadas por muitos migrantes na travessia.

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Sagrada Família terá momento histórico

Em Barcelona, um dos pontos altos será a passagem pela Sagrada Família. Leão XIV deverá presidir a uma missa no templo e abençoar a Torre de Jesus Cristo, concluída este ano, no centenário da morte de Antoni Gaudí.

Com 172,5 metros de altura, a nova torre transforma a Sagrada Família na igreja mais alta do mundo e marca uma etapa simbólica numa construção iniciada há mais de um século. A passagem por Barcelona inclui ainda uma vigília de oração no estádio olímpico Lluís Companys e uma deslocação a Montserrat.

A visita à Sagrada Família terá também leitura política. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, deverá acompanhar o Papa nesta celebração, depois de se ter deslocado ao Vaticano no final de maio para se reunir com Leão XIV e sublinhar a sintonia do Governo com o pontífice.

Segurança reforçada e encontros reservados

A viagem obrigou a um forte dispositivo de segurança. Estarão mobilizados mais de 15.000 agentes, 600 veículos e 16 drones, enquanto o Ministério espanhol da Administração Interna elevou para grau 4 o nível de alerta antiterrorista.

A organização confirmou ainda que o Papa deverá reunir-se com vítimas de abuso sexual por parte da Igreja. Esses encontros não integram a agenda pública e só deverão ser conhecidos depois de acontecerem.

A visita de Leão XIV a Espanha junta, assim, vários planos numa só semana: a dimensão religiosa de uma primeira viagem apostólica ao país, a carga simbólica da Sagrada Família, o peso político de um discurso no Parlamento e a centralidade social da migração nas Canárias.

Para o Papa, será uma entrada num dos debates mais tensos da Europa atual. Para Espanha, será uma semana em que fé, política e fronteiras dificilmente ficarão separadas.

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