Kremlin apoia campanha secreta para ajudar Orbán a manter-se no poder na Hungria

O Kremlin terá apoiado uma campanha encoberta destinada a reforçar as hipóteses de reeleição do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, nas eleições legislativas previstas para 12 de abril.

Pedro Gonçalves

O Kremlin terá apoiado uma campanha encoberta destinada a reforçar as hipóteses de reeleição do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, nas eleições legislativas previstas para 12 de abril, segundo informações reveladas pelo Financial Times.

De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, a administração do presidente russo, Vladimir Putin, terá dado luz verde a um plano elaborado por uma consultora de comunicação ligada ao Kremlin para impulsionar o partido governamental Fidesz através de uma ampla ofensiva de mensagens nas redes sociais.

A estratégia teria sido desenhada pela Social Design Agency, uma empresa russa de consultoria mediática que se encontra sob sanções impostas por vários países ocidentais.

Segundo um documento preparado pela consultora para o Kremlin no final do ano passado e analisado pelo Financial Times, a campanha pretende inundar as redes sociais com conteúdos concebidos na Rússia, mas publicados por figuras influentes na Hungria.

O objetivo seria apresentar Orbán como “o único candidato capaz de manter a soberania da Hungria e tratar os líderes mundiais como iguais”.

Continue a ler após a publicidade

Ao mesmo tempo, a estratégia procuraria contrastar essa imagem com a do principal adversário político do primeiro-ministro, Péter Magyar, líder do Partido Tisza.

No documento citado pelo jornal britânico, Orbán é descrito como um “líder forte com amigos globais”, enquanto Magyar surge retratado como “um fantoche de Bruxelas sem apoio externo”.

Magyar emergiu nos últimos meses como o mais sério desafiante ao domínio político de Orbán, que governa o país há mais de uma década e mantém relações próximas com Moscovo, ao mesmo tempo que protagoniza frequentes confrontos com instituições da União Europeia.

Continue a ler após a publicidade

Ataques informativos contra o principal rival
O plano prevê também o lançamento de “ataques informativos” dirigidos a Péter Magyar e ao seu partido.

De acordo com a proposta, a campanha procuraria retratar o Partido Tisza como uma organização marcada por “incompetência, divisões internas e agendas secretas”, explorando polémicas envolvendo alguns dos seus membros e apresentando o líder da oposição como um instrumento da União Europeia.

As revelações surgem numa altura em que um meio de comunicação independente, o VSquare, noticiou que três oficiais da agência de informações militares russa GRU foram destacados para a embaixada da Rússia em Budapeste.

Péter Magyar reagiu às informações apelando à expulsão desses elementos e utilizou uma expressão com forte carga histórica na Hungria:
“Russos, vão para casa”, afirmou, numa referência ao lema utilizado durante a revolta anticomunista de 1956.

Até agora, Magyar tinha evitado confrontar diretamente Moscovo.

Continue a ler após a publicidade

Fontes citadas pelo Financial Times indicam que os agentes russos poderão estar a trabalhar sob a direção de Sergei Kirienko, vice-chefe de gabinete do presidente Vladimir Putin e figura influente na estrutura política do Kremlin.

Kirienko terá supervisionado anteriormente campanhas semelhantes conduzidas pela mesma consultora em outros países.

Relações tensas com a Ucrânia
A alegada campanha russa coincide com um momento de crescente tensão entre Budapeste e Kyiv.

Orbán intensificou recentemente as críticas à Ucrânia depois de o governo ucraniano ter recusado reparar um oleoduto que transporta petróleo russo para a Europa Central, danificado por um ataque aéreo russo.

Em resposta, o primeiro-ministro húngaro vetou um empréstimo de 90 mil milhões de euros da União Europeia destinado à Ucrânia e advertiu que bloquearia qualquer plano europeu que beneficiasse o governo de Kyiv.

Paralelamente, o governo húngaro tem intensificado uma campanha interna contra líderes europeus e ucranianos, acusando-os de desperdiçar dinheiro público.

Entre as iniciativas divulgadas estão cartazes que mostram dinheiro dos contribuintes a ser descarregado num vaso sanitário dourado, bem como vídeos gerados por inteligência artificial que retratam soldados húngaros a morrer na frente de combate na Ucrânia.

Agência russa sob sanções ocidentais
A Social Design Agency, responsável pelo plano, foi incluída em listas de sanções dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros países ocidentais em 2024.

As autoridades acusam a empresa de coordenar uma vasta operação de desinformação online conhecida como “Doppelgänger”, que utilizou notícias falsas e vídeos manipulados por inteligência artificial para promover narrativas anti-ucranianas.

No caso da Hungria, a campanha terá sido concebida de forma diferente.

Segundo as fontes citadas pelo Financial Times, os responsáveis russos procuraram evitar qualquer ligação direta visível entre Moscovo e a campanha, receando que uma intervenção demasiado explícita pudesse prejudicar Orbán junto do eleitorado.

O documento preparado para o Kremlin sublinha precisamente esse risco:
“Ao interferir nas narrativas eleitorais, deve ter-se em conta que o apoio direto da Rússia pode ter o efeito oposto”.

Influenciadores e conteúdos adaptados à Hungria
Em vez de uma operação claramente identificável como estrangeira, o plano prevê a disseminação de conteúdos que aparentem ser de origem local.

Memes, infografias, vídeos e histórias seriam desenhados na Rússia, mas adaptados à realidade política húngara e difundidos através de influenciadores locais.

Para preparar a campanha, a consultora começou em fevereiro a analisar notícias húngaras e relatórios de centros de estudos do país.

O objetivo seria identificar cerca de 50 figuras pró-Orbán que pudessem amplificar a mensagem nas redes sociais, bem como aproximadamente 30 figuras da oposição cujas declarações pudessem ser usadas para disseminar ou amplificar determinados conteúdos.

Narrativas anti-ucranianas em crescimento
Nos últimos dias, as redes sociais húngaras registaram um aumento significativo de conteúdos hostis à Ucrânia.

Um dos episódios citados envolve a divulgação de uma notícia sobre a detenção de cidadãos ucranianos acusados de transportar dinheiro e ouro para fora do país. As autoridades húngaras acabariam por libertar os suspeitos pouco depois.

Apesar disso, um tabloide pró-governo, Ripost.hu, publicou um artigo acompanhado de imagens falsas dos alegados detidos e do suposto saque.

A publicação no Facebook acumulou cerca de 130 mil reações em poucos dias, a maioria proveniente de utilizadores estrangeiros — um fenómeno considerado pouco habitual nas redes sociais húngaras.

Rússia e Hungria negam interferência
Tanto Moscovo como o governo húngaro rejeitam as acusações.

O embaixador da Rússia em Budapeste, Evgeny Stanislavov, negou qualquer tentativa de interferência eleitoral e afirmou que o objetivo de Moscovo é apenas manter relações bilaterais estáveis.

Segundo o diplomata, a Rússia pretende “assegurar que as relações bilaterais normais continuem e que se desenvolva uma cooperação mutuamente benéfica”.

Também o governo húngaro rejeitou as alegações, classificando-as como “uma acusação falsa da esquerda” e “uma tentativa lamentável de desviar a atenção das ameaças do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky contra o primeiro-ministro Viktor Orbán e de outras tentativas de influenciar as eleições húngaras”.

Por sua vez, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, afirmou que as conclusões divulgadas se baseiam em informações incorretas.

“Muito provavelmente estão a tirar conclusões erradas com base numa falsidade. Infelizmente, isso tem acontecido frequentemente nos últimos anos, mesmo em publicações sérias”, declarou.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.