Em janeiro deste ano, Kim Jong Un capturou a atenção internacional ao ameaçar “aniquilar totalmente” a Coreia do Sul e os Estados Unidos caso fosse provocado. Esta ameaça é ainda mais preocupante à luz do recente tratado de defesa mútua assinado com a Rússia, como resultado do encontro de Putin com o líder norte-coreano, esta semana.
Desde abril, a Coreia do Sul tem enfrentado uma série de agressões incomuns, com a Coreia do Norte enviando centenas de balões carregados com lixo ou excrementos em resposta a balões sul-coreanos contendo propaganda e conteúdos de música pop. Esta troca de ‘mensagens hostis’ é um reflexo do rápido deterioro das relações entre as duas Coreias desde o acordo militar de 2018, que visava reduzir as tensões.
Escalada de Tensão e Rompimento de Acordos
Em janeiro de 2020, o regime do Norte demonstrou uma mudança significativa na relação bilateral ao ordenar a demolição do Gabinete de Ligação Intercoreano em Kaesong, um elemento crucial para a comunicação entre os dois países. Este ano, Kim Jong Un reforçou o discurso beligerante, renunciando publicamente ao objetivo de reunificação e classificando a Coreia do Sul como “principal inimigo”. Estas ações foram acompanhadas pela dissolução de três instituições dedicadas à reconciliação das duas Coreias.
Capacidades Militares e Estratégia de Invasão. Pode mesmo a Coreia levar a cabo um “ataque de um só golpe”?
Avaliar as capacidades militares da Coreia do Norte, frequentemente chamada de “Reino Hermético”, é complexo, assinalam especialistas ao El Confidencial. A liderança norte-coreana historicamente reiterou o objetivo de unificar a península através de uma invasão rápida, descrita na sua doutrina militar como um “ataque ininterrupto de um só golpe”. Em 1992, sob o comando de Kim Jong Il, foi revelada a estratégia “Ocupar a Coreia do Sul, até Busan em três dias”. No entanto, especialistas reconhecem que uma invasão do sul seria uma campanha longa e dispendiosa.
O exército norte-coreano possui entre 700.000 e 1.200.000 soldados ativos, reforçados por uma reserva de 600.000 e centenas de milhares de milicianos. Esta vasta força é equipada com material da era da Guerra Fria, incluindo armaduras e diversas armas de fogo. As forças estão estrategicamente posicionadas perto da Zona Desmilitarizada, com a linha da frente composta por unidades de sapadores e infantaria leve, seguidas por unidades mecanizadas e de artilharia.
Artilharia e Capacidade de Destruição
A artilharia norte-coreana é uma das mais impressionantes do mundo em termos de quantidade, com cerca de 8.600 peças de artilharia e 5.500 lançadores de foguetes. Este poder de fogo representa uma ameaça significativa para a Coreia do Sul, especialmente porque a capital, Seul, está a menos de 60 quilómetros da fronteira. As forças armadas norte-coreanas também compensam a inferioridade tecnológica com o uso de mísseis antitanque e antiaéreos, buscando superar a superioridade dos tanques e aeronaves sul-coreanos.
A força aérea da Coreia do Norte destaca-se pelo seu isolamento e atraso tecnológico, sendo um verdadeiro ‘museu de relíquias do ar’. A frota inclui aviões como MiG-29, MiG-23 e até MiG-15, muitos dos quais utilizados durante a Guerra da Coreia. A manutenção e operação desses aviões são desafios significativos, e estima-se que, em caso de guerra, apenas uma dúzia de MiG-29 estaria operacional. A força aérea também inclui uma frota de antigos Antonov An-2 e helicópteros, utilizados para infiltrações e operações especiais.
Desenvolvimento de Submarinos e Mísseis
A marinha norte-coreana é numerosa, com mais de 500 navios, incluindo pequenos barcos de patrulha e canhoneiras. Contudo, a utilidade militar dessas embarcações em conflitos modernos é questionável. Recentemente, a Coreia do Norte desenvolveu mini-submarinos e submarinos capazes de lançar mísseis balísticos, mudando o panorama estratégico da região. Em 2019, foi revelado um submarino Tipo 033 modificado para lançar mísseis balísticos, seguido por um submarino de mísseis em 2023.
Capacidade de Dissuasão Nuclear
O desenvolvimento de mísseis balísticos lançados por terra e submarinos permite à Coreia do Norte atingir alvos distantes, incluindo bases americanas em Guam e no Japão, e até cidades nos Estados Unidos. Esta capacidade de dissuasão nuclear visa compensar a fraqueza das forças convencionais e serve como um seguro de vida para o regime. No entanto, a recente invasão russa da Ucrânia e as ações do Irão no Médio Oriente sugerem que o escudo atómico pode incentivar comportamentos mais agressivos por parte de regimes autoritários.
A assinatura do tratado de defesa mútua com a Rússia fortalece a aliança entre Pyongyang e Moscovo, unidas pelo antagonismo comum em relação a Washington. As ações recentes de Kim Jong Un e o fortalecimento militar da Coreia do Norte aumentam as tensões na península coreana, representando um desafio significativo para a estabilidade regional e global. Enquanto Kim Jong Un continua a preparar o seu país para um possível conflito, a comunidade internacional observa com preocupação o desenrolar destes acontecimentos.













