Os juros do crédito à habitação voltaram a subir e inverteram a tendência de descida que se verificava desde o início de 2024, num movimento que surge agora associado ao agravamento da crise energética provocada pelo conflito no Médio Oriente. A subida recente já está a ser sentida nas prestações mensais das famílias e levanta novas preocupações sobre a evolução das taxas ao longo do ano.
Segundo dados mais recentes, a taxa de juro implícita no conjunto dos contratos de crédito à habitação aumentou em março para 3,088%, interrompendo mais de um ano de descidas. De acordo com o Negócios, este agravamento contrasta com o cenário observado em março de 2022, no início da guerra na Ucrânia, quando os juros ainda registaram uma ligeira queda de 0,02 pontos-base para 0,794%.
A diferença entre os dois momentos está no contexto económico e monetário. Em 2022, os bancos centrais ainda encaravam a inflação como um fenómeno temporário, associado sobretudo à retoma pós-pandemia e às disrupções nas cadeias de abastecimento. Só mais tarde, com o impacto da guerra na Ucrânia nos preços da energia — que levou a inflação a atingir um máximo histórico de 10,6% — é que o Banco Central Europeu iniciou um ciclo agressivo de subida de juros. Este ciclo arrancou em julho de 2022, com uma subida de 50 pontos-base, seguida de um aumento histórico de 75 pontos, e prolongou-se por dez aumentos consecutivos até outubro de 2023, totalizando 450 pontos-base. Posteriormente, a autoridade monetária iniciou um processo de descida, com oito cortes que colocaram as taxas em torno dos 2%, entrando depois numa fase de pausa.
Mercado antecipa novas subidas de juros
O atual contexto é distinto. Com a escalada no Médio Oriente a pressionar novamente os preços da energia, os mercados começam a antecipar novas subidas das taxas de juro ainda este ano. A inflação voltou a acelerar, atingindo 2,6% em março, o que está já a refletir-se na evolução das taxas Euribor — principais indexantes do crédito à habitação.
A Euribor a 12 meses registou o maior aumento mensal desde agosto de 2024, fixando-se em 2,656%. Já a taxa a seis meses subiu para 2,322%, enquanto a Euribor a três meses avançou para 2,109%. Estes movimentos estão diretamente ligados à expectativa de decisões futuras do BCE e acabam por repercutir-se nas prestações das famílias.
Prestações voltam a subir e superam os 400 euros
A subida das taxas já tem impacto concreto nos encargos mensais. Em março, a prestação média do crédito à habitação aumentou para 402 euros, ultrapassando novamente a fasquia dos 400 euros — algo que não acontecia desde fevereiro de 2025. Trata-se da maior subida desde outubro de 2023, com um acréscimo de cinco euros face ao mês anterior e quatro euros em comparação com o mesmo período do ano passado.
Apesar deste aumento, os juros ainda se mantêm abaixo do pico registado em janeiro de 2024, quando atingiram 4,657%. Desde então, acumulava-se uma descida de cerca de 157,8 pontos-base, agora parcialmente anulada pela inversão registada em março. No segmento mais relevante — o crédito para aquisição de habitação — a taxa de juro implícita também subiu, fixando-se em 3,086%. Ainda assim, nos contratos mais recentes, celebrados nos últimos três meses, registou-se uma descida para 2,803%, sinalizando alguma heterogeneidade no mercado.










