O presidente do Tribunal de Paris deixou esta terça-feira um aviso firme contra qualquer tentativa de ingerência estrangeira no sistema judicial francês, na sequência de notícias que dão conta de que os Estados Unidos terão ponderado sancionar magistrados envolvidos num processo judicial contra Marine Le Pen. O responsável classificou esse cenário como uma interferência “inaceitável e intolerável” nos assuntos internos de França.
Peimane Ghaleh-Marzban, que preside ao tribunal parisiense responsável por um dos processos mais sensíveis envolvendo a líder da extrema-direita francesa, fez a declaração durante um discurso inaugural dirigido a novos magistrados. “Se tais factos forem verdadeiros ou vierem a concretizar-se, constituiriam uma interferência inaceitável e intolerável nos assuntos internos do nosso país”, afirmou, citado pela AFP.
As declarações surgem depois de a revista alemã Der Spiegel ter noticiado que o Departamento de Estado dos Estados Unidos terá considerado impor sanções aos juízes que condenaram Marine Le Pen, na primavera passada, a uma interdição eleitoral de cinco anos. A decisão judicial resultou num impedimento à candidatura da dirigente do partido União Nacional às eleições presidenciais previstas para 2027, na sequência de um caso de desvio de fundos da União Europeia.
Marine Le Pen rejeita todas as acusações e vai enfrentar, a partir da próxima semana, um julgamento em sede de recurso. A decisão deverá ser conhecida antes do verão.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu publicamente à condenação, classificando-a como “mais um exemplo de esquerdistas europeus a usarem a justiça como arma para silenciar a liberdade de expressão”. Numa publicação na rede social Truth Social, Trump escreveu ainda a expressão “libertem Marine Le Pen”.
A posição do chefe de Estado norte-americano insere-se numa linha política mais ampla assumida pela atual administração, que recentemente prometeu apoiar “partidos europeus patrióticos” que afirmam combater aquilo que descrevem como a “erosão civilizacional” da Europa, conforme consta da controversa Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos.
Nos últimos meses, Washington avançou com sanções contra 11 juízes do Tribunal Penal Internacional, incluindo uma magistrada francesa que autorizou a emissão de um mandado de detenção contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, por alegados crimes de guerra na Faixa de Gaza. Este precedente contribuiu para aumentar as preocupações em vários países europeus quanto à possibilidade de medidas semelhantes contra magistrados nacionais.
Até ao momento, a Embaixada dos Estados Unidos em Paris não comentou a eventual consideração de sanções dirigidas ao sistema judicial francês.














