A segurança dedicada aos Jogos Olímpicos (JO) de Paris tem revirado a vida de muitos franceses: que o diga o paramédico Seifelislam Benadda, que tinha acabado de deixar um paciente no hospital quando foi informado pela polícia de que estava proibido de deixar a sua cidade natal, nos subúrbios de Paris, uma vez que era uma ameaça potencial para os JO.
Durante os nove dias seguintes, em vez de conduzir a sua ambulância, o jovem de 28 anos deu entrada na esquadra de polícia de Nogent-sur-Marne ao meio-dia e lutou para anular a medida administrativa, que o apontava como um risco terrorista.
Como parte de uma vasta operação de segurança para os JO de Paris, que começam esta sexta-feira, as autoridades francesas recorreram aos poderes aprovados ao abrigo de uma lei anti-terrorismo de 2017, o que colocou 155 pessoas sob medidas de vigilância que limitam estritamente o seu movimento e as obrigam a registar-se diariamente na polícia, embora em alguns casos nunca tenham enfrentado acusações criminais, revela esta quinta-feira a agência ‘Reuters’.
França, que tem um histórico recente de ataques terroristas, está em estado de alerta máximo antes dos JO, inclusive na cerimónia de abertura no rio Sena, esta sexta-feira. Em maio último, a polícia prendeu um jovem de 18 anos suspeito de planear um ataque jihadista no Estádio Saint-Etienne, sede do futebol olímpico. Na semana passada, um neonazi foi preso sob suspeita de planear um ataque durante a passagem da chama olímpica.
Conhecidas como MICAS, as medidas de vigilância tinham até recentemente sido utilizadas principalmente para monitorizar pessoas após penas de prisão. No contexto dos JO, o ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, salientou que os poderes só foram usados para atingir pessoas que descreveu como “muito perigosas” e potencialmente capazes de realizar ataques.
De acordo com a agência noticiosa, 17 (num total de 27 casos) casos analisados tinham como alvo pessoas sem condenações ou acusações anteriores relacionadas com o terrorismo, concluindo que a polícia apresentou poucas provas para justificar as medidas. Darmanin apontou, esta terça-feira, que o MICAS poderia ser usado “excecionalmente” contra pessoas que não foram condenadas por terrorismo, quando o Governo puder demonstrar a um juiz que representam uma ameaça.
Segundo Jean-François Morant, advogado que defende uma dúzia de pessoas atingidas pelo MICAS antes das Olimpíadas, reconheceu a necessidade de precaução dados os elevados riscos de segurança, mas chamou o programa MICAS de “excessivo e desproporcional”, salientando que uso mais amplo das medidas pelo Governo preventivamente não tem precedentes – nos casos referidos, o MICAS terá sido imposto de forma oportunista e não após uma investigação sólida.
A varredura olímpica arrastou familiares de pessoas condenadas por crimes terroristas para dificuldades anos depois de os seus familiares terem cumprido as suas penas. Benadda, por exemplo, nunca foi acusado de atividades terroristas ou radicalismo mas dois dos seus irmãos foram condenados por crimes relacionados com o terrorismo, em 2017 e 2018, facto citado no relatório de inteligência utilizado para apoiar as medidas
Benadda distanciou-se dos seus irmãos, dizendo que a família estava a pagar um elevado preço pelos seus crimes passados. “Não sou um perigo. O meu papel é ajudar pessoas, tranquilizar e cuidar delas caso se magoem”, refere. A 21 de maio, a polícia invadiu o apartamento onde Benadda mora com os seus pais e apontando uma arma para a cabeça de Benadda, acusou. De acordo com o relatório policial, não foi encontrado na visita qualquer material suspeito ligado a Benadda.
Segundo Johann Bihr, do Observatório Internacional de Prisões, um grupo de direitos humanos, houve centenas de ataques domiciliares deste tipo nas semanas anteriores aos JO.














