Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Liga Árabe e de vários países islâmicos reúnem-se esta quarta-feira, em Amã, na Jordânia, para discutir aquilo que o Governo jordaniano considera ser uma ameaça “iminente” ao equilíbrio religioso em Jerusalém.
Segundo o ‘The Guardian’, Amã acusa Israel de permitir um número crescente de incursões de judeus ultrarreligiosos na Esplanada das Mesquitas e alerta que qualquer alteração ao atual regime poderá desencadear um conflito religioso com consequências em todo o Médio Oriente.
Mas, afinal, o que está em causa?
O que é a Esplanada das Mesquitas?
A Esplanada das Mesquitas é um dos locais religiosos mais sensíveis do mundo.
Para os muçulmanos, alberga a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha, sendo o terceiro lugar mais sagrado do Islão, depois de Meca e Medina.
Para os judeus, o mesmo espaço corresponde ao Monte do Templo, onde existiram o Primeiro e o Segundo Templos de Jerusalém, tornando-o um dos locais mais sagrados do judaísmo.
É precisamente esta sobreposição de significados religiosos que faz daquele recinto um dos pontos de maior tensão do conflito israelo-palestiniano.
O que está a acontecer?
Segundo o ‘The Guardian’, a Jordânia acusa o Governo israelita de permitir violações cada vez mais frequentes do chamado “status quo”, o acordo que regula o funcionamento do recinto.
No passado dia 23 de julho, mais de 2.000 israelitas ligados à direita religiosa, muitos deles colonos, entraram na Esplanada das Mesquitas, acompanhados pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir.
De acordo com Amã, vários participantes rezaram e realizaram rituais religiosos no recinto, algo que considera ser a mais grave violação das regras em décadas.
O que é o “status quo”?
O atual regime remonta a acordos históricos e foi reafirmado após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, bem como no tratado de paz assinado entre Israel e a Jordânia em 1994.
Na prática, Israel controla a segurança do recinto, mas a administração dos locais sagrados islâmicos cabe à fundação religiosa jordaniana Waqf.
Ao abrigo desse acordo, os não muçulmanos podem visitar o recinto em horários específicos, mas apenas os muçulmanos podem ali rezar.
É precisamente este princípio que a Jordânia considera estar sob ameaça.
Porque está a Jordânia tão preocupada?
O ministro dos Negócios Estrangeiros jordaniano, Ayman Safadi, afirma que qualquer alteração ao atual equilíbrio poderá desencadear um conflito religioso muito para além de Israel e dos territórios palestinianos.
“Jerusalém é um barril de pólvora”, afirmou ao ‘The Guardian’, alertando que uma mudança no estatuto da Esplanada das Mesquitas poderá ter repercussões em todo o mundo islâmico.
Segundo Safadi, a reunião desta quarta-feira pretende precisamente coordenar uma resposta diplomática dos países árabes e islâmicos antes que a situação se agrave.
Porque é que a tensão está a aumentar agora?
A Jordânia receia novas iniciativas por parte dos setores mais radicais da política israelita durante as festividades religiosas judaicas de setembro.
O receio aumenta porque Israel entra também em campanha para eleições legislativas, nas quais o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e os seus aliados da direita e da extrema-direita procuram manter-se no poder.
Segundo o ‘The Guardian’, Amã teme que alguns desses partidos tentem alterar definitivamente o regime de acesso e de oração na Esplanada das Mesquitas.
O receio vai muito além de Jerusalém
A preocupação jordaniana não se limita aos locais sagrados.
O Governo teme igualmente que uma escalada militar ou política na Cisjordânia possa levar a deslocações em massa de palestinianos para território jordaniano.
Mais de metade dos 11,5 milhões de habitantes da Jordânia são descendentes de refugiados palestinianos, o que faz com que qualquer novo fluxo migratório seja encarado como uma ameaça à estabilidade política, económica e demográfica do país.
Ao mesmo tempo, as relações entre Amã e Telavive deterioraram-se nos últimos meses devido à guerra em Gaza, às divergências sobre a Cisjordânia e à redução do fornecimento de água previsto nos acordos bilaterais.
É neste contexto que a Jordânia tenta mobilizar o mundo árabe e islâmico para impedir alterações ao atual estatuto de um dos locais mais sensíveis do planeta, receando que uma crise em Jerusalém possa rapidamente transformar-se num conflito de dimensão regional.



















