“Jerusalém é um barril de pólvora”: porque está o mundo árabe reunido de emergência esta quarta-feira?

Amã acusa Israel de permitir um número crescente de incursões de judeus ultrarreligiosos na Esplanada das Mesquitas e alerta que qualquer alteração ao atual regime poderá desencadear um conflito religioso com consequências em todo o Médio Oriente

Francisco Laranjeira

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Liga Árabe e de vários países islâmicos reúnem-se esta quarta-feira, em Amã, na Jordânia, para discutir aquilo que o Governo jordaniano considera ser uma ameaça “iminente” ao equilíbrio religioso em Jerusalém.

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Segundo o ‘The Guardian’, Amã acusa Israel de permitir um número crescente de incursões de judeus ultrarreligiosos na Esplanada das Mesquitas e alerta que qualquer alteração ao atual regime poderá desencadear um conflito religioso com consequências em todo o Médio Oriente.

Mas, afinal, o que está em causa?

O que é a Esplanada das Mesquitas?

A Esplanada das Mesquitas é um dos locais religiosos mais sensíveis do mundo.

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Para os muçulmanos, alberga a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha, sendo o terceiro lugar mais sagrado do Islão, depois de Meca e Medina.

Para os judeus, o mesmo espaço corresponde ao Monte do Templo, onde existiram o Primeiro e o Segundo Templos de Jerusalém, tornando-o um dos locais mais sagrados do judaísmo.

É precisamente esta sobreposição de significados religiosos que faz daquele recinto um dos pontos de maior tensão do conflito israelo-palestiniano.

O que está a acontecer?

Segundo o ‘The Guardian’, a Jordânia acusa o Governo israelita de permitir violações cada vez mais frequentes do chamado “status quo”, o acordo que regula o funcionamento do recinto.

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No passado dia 23 de julho, mais de 2.000 israelitas ligados à direita religiosa, muitos deles colonos, entraram na Esplanada das Mesquitas, acompanhados pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir.

De acordo com Amã, vários participantes rezaram e realizaram rituais religiosos no recinto, algo que considera ser a mais grave violação das regras em décadas.

O que é o “status quo”?

O atual regime remonta a acordos históricos e foi reafirmado após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, bem como no tratado de paz assinado entre Israel e a Jordânia em 1994.

Na prática, Israel controla a segurança do recinto, mas a administração dos locais sagrados islâmicos cabe à fundação religiosa jordaniana Waqf.

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Ao abrigo desse acordo, os não muçulmanos podem visitar o recinto em horários específicos, mas apenas os muçulmanos podem ali rezar.

É precisamente este princípio que a Jordânia considera estar sob ameaça.

Porque está a Jordânia tão preocupada?

O ministro dos Negócios Estrangeiros jordaniano, Ayman Safadi, afirma que qualquer alteração ao atual equilíbrio poderá desencadear um conflito religioso muito para além de Israel e dos territórios palestinianos.

“Jerusalém é um barril de pólvora”, afirmou ao ‘The Guardian’, alertando que uma mudança no estatuto da Esplanada das Mesquitas poderá ter repercussões em todo o mundo islâmico.

Segundo Safadi, a reunião desta quarta-feira pretende precisamente coordenar uma resposta diplomática dos países árabes e islâmicos antes que a situação se agrave.

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Porque é que a tensão está a aumentar agora?

A Jordânia receia novas iniciativas por parte dos setores mais radicais da política israelita durante as festividades religiosas judaicas de setembro.

O receio aumenta porque Israel entra também em campanha para eleições legislativas, nas quais o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e os seus aliados da direita e da extrema-direita procuram manter-se no poder.

Segundo o ‘The Guardian’, Amã teme que alguns desses partidos tentem alterar definitivamente o regime de acesso e de oração na Esplanada das Mesquitas.

O receio vai muito além de Jerusalém

A preocupação jordaniana não se limita aos locais sagrados.

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O Governo teme igualmente que uma escalada militar ou política na Cisjordânia possa levar a deslocações em massa de palestinianos para território jordaniano.

Mais de metade dos 11,5 milhões de habitantes da Jordânia são descendentes de refugiados palestinianos, o que faz com que qualquer novo fluxo migratório seja encarado como uma ameaça à estabilidade política, económica e demográfica do país.

Ao mesmo tempo, as relações entre Amã e Telavive deterioraram-se nos últimos meses devido à guerra em Gaza, às divergências sobre a Cisjordânia e à redução do fornecimento de água previsto nos acordos bilaterais.

É neste contexto que a Jordânia tenta mobilizar o mundo árabe e islâmico para impedir alterações ao atual estatuto de um dos locais mais sensíveis do planeta, receando que uma crise em Jerusalém possa rapidamente transformar-se num conflito de dimensão regional.

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